A história bizarra dos métodos de reanimação cardiorrespiratória

A maioria das pessoas já viu uma manobra de reanimação cardíaca sendo executada, seja ao vivo ou, na maioria das vezes, na cultura pop, de formas mais ou menos corretas. Mas uma prática tão difundida e utilizada atualmente não surgiu simplesmente na medicina: muito pelo contrário, foram necessários séculos de desenvolvimento da técnica.

Métodos de realizar a reanimação cardiopulmonar (RCP) ou reanimação cardiorrespiratória (RCR) datam, pelo menos na história registrada, do final do século XVIII. Mas não espere que fosse algo sofisticado ou sequer parecido com a massagem cardíaca e respiração boca-a-boca, como fazemos hoje. O buraco é bem mais embaixo.

Com técnicas avançadas nos dias atuais, a reanimação cardiorrespiratória levou séculos para ser aperfeiçoada (Imagem: pixelaway/Envato)
Com técnicas avançadas nos dias atuais, a reanimação cardiorrespiratória levou séculos para ser aperfeiçoada (Imagem: pixelaway/Envato)

Primeiras técnicas de reanimação

Uma das histórias de reanimação bem-sucedidas aconteceu em 1782. Rowland Oliver, um garoto de cinco anos à época, caiu e se afogou no rio Delaware, nos Estados Unidos, e foi levado imóvel até sua família, acreditando-se estar morto. Quando seus pais notaram que ele estava apenas “aparentemente” morto, eles o despiram, lhe deram tapas e esfregaram seu corpo com tecidos envolvidos em álcool. O médico, que chegou logo em seguida, continuou com o procedimento, além de ter imergido os pés do garoto em água quente e colocado um agente emético (que induz ao vômito) garganta abaixo.

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Após cerca de 20 minutos, o rapaz voltou à vida, e efeitos posteriores do afogamento foram aliviados com uma sangria. O relato é de um jornal da Filadélfia, que noticiou o feito no dia 1º de junho daquele ano. E essa história é apenas uma de diversas reanimações bem-sucedidas da época: as chamadas Sociedades Humanas eram uma novidade.

Elas são entidades que impediam e remediavam afogamentos, criadas em meados do século XVIII, em Amsterdam, devido à alta incidência de acidentes nos canais da cidade. Entre outras coisas, elas buscavam informar os cidadãos que a “morte” por afogamento não era irreversível, ensinando técnicas de reanimação. A história de Rowland inspirou a Sociedade local a instalar kits medicinais ao longo de sua cidade, contendo ferramentas e instruções para tratar afogados.

Técnicas antigas de reanimação incluíam estímulos internos, como o do cólon da vítima, com enemas de fumaça de tabaco (Imagem: Wellcome Collection/Reprodução)
Técnicas antigas de reanimação cardiorrespiratória incluíam estímulos internos, como o do cólon retal da vítima, com enemas de fumaça de tabaco (Imagem: Wellcome Collection/Reprodução)

Até o século XIX, entendia-se que os esforços de reanimação requeriam a estimulação do corpo para que voltasse à ação mecanicamente. A respiração artificial e aquecimento da vítima afogada eram recomendados pelas sociedades humanas — a ideia era fazer o corpo voltar a “pegar no tranco”. Tanto estímulo externos quanto internos eram recomendados, incluindo algo que excite o corpo, como rum, para o estômago, ou a fumigação com fumaça de tabaco, que não era nada menos do que um enema de vapor no cólon retal da vítima, inserido pelo ânus.

No século XX, os perigos oferecidos aos cidadãos só fizeram aumentar. Assim como o uso de canais na produção industrial aumentou os afogamentos dois séculos antes, agora o uso cada vez mais difundido de energia elétrica e suas linhas oferecia novos riscos, tanto na forma de eletrocutamento e envenenamento por gás. Mas os métodos de reanimação também evoluíram.

Novos métodos de reanimação

As técnicas de reanimação, agora, passam a focar no estímulo do coração. Entre as maneiras de fazê-lo, estão a manipulação do corpo da vítima em uma série de posições diferentes, comprimindo o peito e utilizando métodos de respiração artificial. A prática ainda era algo bem democrático, já que era ensinada a toda a população, embora a aplicação se limitasse apenas a algumas situações — afinal, poucas situações podiam deixar uma vítima “aparentemente” morta.

Nos meados do século XX, algumas mudanças surgiram. Para começar, a reputação dos métodos de reanimação como miraculosa cresceu, passando a se aplicar a todas as maneiras de morte; e os aplicadores passaram a ser apenas os médicos ou profissionais de atendimento de emergência. Entre as razões para isso, está uma nova maneira de morte aparente: acidentes cirúrgicos.

Claude Beck, um cirurgião americano da época, conta que os cirurgiões do final da década de 1910 precisavam esperar os bombeiros toda vez que o coração de um paciente parava, pois apenas eles tinham o respirador mecânico, precursor dos respiradores hospitalares atuais. Como ele achava absurdo os próprios profissionais de medicina não terem acesso a métodos de reanimação, ele procurou uma forma de fazê-lo rapidamente no caso de problemas na sala de cirurgia.

Atualmente, os métodos de reanimação se redemocratizaram, e qualquer cidadão treinado pode realizá-los (Imagem: rthanuthattaphong/Envato)
Atualmente, os métodos de reanimação se redemocratizaram, e qualquer cidadão treinado pode realizá-los (Imagem: rthanuthattaphong/Envato)

Ele e outros cirurgiões passaram a testar métodos de estimulação cardíaca, que, neste caso, dependiam do acesso ao interior do corpo, como a aplicação de eletricidade diretamente no coração (desfibrilação) e massagem cardíaca manual. O sucesso de tais técnicas deu a promessa de métodos mais eficientes no futuro. O problema é que o acesso mais ou menos exclusivo dos médicos ao interior do corpo das vítimas retirou o aspecto democrático da reanimação, ao contrário de métodos anteriores.

Beck até mesmo sonhava que, no futuro, todos poderiam ser treinados em suas técnicas e carregar um bisturi para abrir uma vítima e massagear seu coração, mas a inviabilidade disso o venceu. Em seu lugar, as técnicas de compressão da caixa torácica, como as conhecemos nos dias atuais, começaram a surgir algumas décadas depois. Assim se restaurou a autorização mais democrática das técnicas de reanimação.

Em 1960, se consolidou a ideia de Beck de que a morte não era mais algo irreversível; um estudo médico declarou uma taxa de sobrevivência permanente pós-reanimação de 70%. Apesar de otimista demais — estudos subsequentes diminuíram esse número para 25% —, o sucesso das técnicas atuais na recuperação da circulação e a aceitação de seu uso se mantiveram, de forma até mesmo superestimada, como estudos sugerem.

De uma forma ou de outra, é positivo que tenhamos técnicas menos invasivas e complicadas para situações de emergência: afinal de contas, ninguém carrega tabaco com apetrechos para fazer enemas por aí, não é?

Fonte: The Conversation

Fonte feed: canaltech.com.br

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