Caso Theranos: entenda a ascensão e queda de uma promessa da biotecnologia

Imagine que uma gota de sangue fosse o suficiente para detectar doenças variadas. Essa era a promessa da Theranos, a empresa fundada em 2003 (inicialmente com o nome de Real-Time Cures) por Elizabeth Holmes. Para dar contexto à ideia, Elizabeth contava que um tio a quem ela era muito ligada havia morrido de um câncer de pele que atingiu cérebro e ossos. Ela dizia que queria impedir que outras famílias passassem por experiência semelhante.

Um dos primeiros passos para isso era que todos tivessem acesso fácil às próprias informações de saúde. Essa ideia levou à criação das máquinas portáteis Edison para processar as amostras de sangue e detectar anormalidades — teoricamente, eram equipamentos muito sofisticados e superiores aos que faziam os exames à época. O nome Theranos era um misto de therapy (terapia) e diagnosis (diagnóstico).

Segundo a Theranos, além de os testes se tornarem mais baratos, já que uma única máquina substituiria toda a estrutura dos laboratórios de análises clínicas, precisariam de bem menos sangue — que poderia ser coletado a partir de uma picada no dedo, como aquelas feitas diariamente por muitos diabéticos. Os resultados viriam em poucas horas em um aplicativo de celular.

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A empresa desenvolveu seu próprio recipiente para armazenar o sangue: era o nanotêiner, que tinha meia polegada de tamanho (1,29 cm), guardava 150 microlitros e substituiria vários tubos tradicionais de coleta de sangue. Segundo a Theranos, o sistema estava preparado para realizar até 250 testes: de diabetes e colesterol a câncer. Nem metade dos exames, entretanto, estava autorizada.

Nanotêiner tinha meia polegada de tamanho (Imagem: Divulgação/Theranos)

Com a Edison, Elizabeth pretendia resolver diversas dificuldades: o medo de agulha (usada em punções venosas para retirar sangue), o preço dos exames (os da Theranos custariam menos da metade do praticado no mercado), o tempo de processamento das amostras, o acesso a informações de saúde, a descoberta precoce de doenças e assim por diante.

A executiva destacava que o processamento de exames de sangue havia evoluído pouco desde os anos 1950. Ela comparava a situação à dos computadores: os equipamentos que antes ocupavam uma sala inteira hoje estão nas mãos de todos em forma de smartphones. Segundo Elizabeth, era possível fazer algo semelhante no segmento de análises clínicas.

O barateamento do custo dos exames permitiria que os pacientes os fizessem com mais regularidade. Esses dados, então, poderiam ser usados de forma mais eficiente: seria possível, por exemplo, identificar doenças no momento em que elas surgissem. Era a própria personalização da medicina.

Projeto parecia de fato inovador (Imagem: Divulgação/Theranos)

Com tudo isso, o projeto parecia, de fato, inovador: um modelo que permitiria determinar o início de uma doença em tempo de garantir que o tratamento fosse eficiente. Único no segmento, até então dominado pelas empresas Quest e LabCorp — que detinham 80% do mercado —, o sistema altamente tecnológico atraiu a atenção de muitos investidores.

Fingir até conseguir

No Vale do Silício, existe uma mentalidade entre as startups de que é preciso “fingir até conseguir”. É como se essas empresas vendessem apenas um conceito, que precisa de investimentos para ser concretizado. Os investidores, então, apostam no potencial da companhia para desenvolver a ideia.

A Theranos não foi diferente nesse sentido, só que não conseguiu elaborar o produto — e, mesmo assim, fez parecer que tudo estava dando certo. “As mentiras da Theranos eram muito perigosas”, destaca o repórter Ken Auletta, em entrevista ao Canaltech. Auletta escreveu o perfil de Elizabeth para a The New Yorker em 2014. “Mentir para promover uma empresa de software envolve menos riscos do que mentir sobre informações médicas que podem afetar a saúde dos pacientes.”

Elizabeth Holmes e a Edison (Imagem: Divulgação/Theranos)

E por falar em mentir, a Edison não tinha esse nome por acaso. Thomas Edison foi o maior inventor de todos os tempos: para ele, a maior fraqueza era desistir e, para ser bem-sucedido, sempre era preciso tentar uma vez mais. Ele dizia que não tinha fracassado em suas invenções, mas sim descoberto 10 mil maneiras que não funcionavam. A Theranos tinha a mesma mentalidade: Elizabeth dizia que poderia ter de errar 10 mil vezes antes de acertar, na 10.001ª.

Edison patenteou mais de 2 mil invenções, mas em geral oferecia mais do que podia fazer. Em 1878, por exemplo, o inventor alegou que sua lâmpada incandescente funcionava. Era mentira. Quando os interessados pediram demonstrações, ele as encenou. Aos jornalistas, deu ações de suas empresas na tentativa de torná-los mais simpáticos a seus projetos.

Nos anos seguintes, Edison continuou a fingir que a lâmpada incandescente havia dado certo enquanto ainda a aperfeiçoava — até que, em 1880, ele finalmente conseguiu. Elizabeth parece ter imaginado que também conseguiria. “Vejo fanatismo nela: acho que ela realmente acreditava que os exames funcionariam e seriam transformadores”, avalia Auletta.

Investimentos de profissionais

A determinação da empresária convenceu o bilionário Tim Draper, que a conhecia desde pequena, a ser o primeiro a apostar na Theranos. Ele emprestou US$ 1 milhão (R$ 5,5 milhões) à empresa. Draper é experiente em investimentos de risco: ele foi o primeiro a investir em empresas como Tesla, Skype, Baidu e Hotmail. O executivo acreditou verdadeiramente que a Theranos era um bom negócio.

No ano seguinte à fundação, 2004, a companhia informava que já tinha arrecadado US$ 6,4 milhões (R$ 35,1 milhões). Em 2005, outros US$ 16 milhões (R$ 87,8 milhões) chegaram. Em 2014, os investimentos já somavam US$ 400 milhões (R$ 2,2 bilhões), a companhia empregava 800 profissionais e era avaliada em US$ 9 bilhões (R$ 49,4 bilhões).

Tudo isso fez várias empresas quererem ser parceiras da Theranos. Em 2012, a rede de supermercados Safeway investiu US$ 350 milhões (R$ 1,9 bilhão) para instalar clínicas em 800 unidades. Em 2015, porém, com atrasos em prazos e resultados questionáveis, o acordo foi desfeito.

Parceria entre Theranos e Walgreens criou Centros de Bem-Estar no Arizona (Imagem: Reprodução/WSJ)

Em 2013, a Walgreens passou a oferecer exames de sangue em suas lojas em mais de 40 localidades no Arizona. As máquinas Edison não eram aprovadas para esse fim — como a Theranos fabricava os equipamentos, eles não precisavam ser aprovados pela Administração de Alimentos e Medicamentos (Food and Drug Administration – FDA), o equivalente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), desde que não fossem vendidos nem usados fora da companhia — e foi necessário criar Centros de Bem-Estar em que o sangue era coletado.

Sem os equipamentos instalados no local, a análise das amostras era feita na sede da empresa, em Palo Alto, na Califórnia. Em novembro de 2016, a rede de farmácias iniciou um processo contra a Theranos por quebra de contrato.

Em março de 2015, a Cleveland Clinic se uniu à Theranos para testar a tecnologia da companhia na tentativa de diminuir o custo dos testes de laboratório. Em julho do mesmo ano, a Theranos passou a oferecer serviços para os planos de saúde AmeriHealth Caritas e Capital BlueCross.

Julho de 2015 trouxe boas notícias: a FDA aprovou o teste com sangue de picada no dedo para o vírus da herpes simples (HSV-1). No mesmo ano, a Theranos foi nomeada Companhia de Biosciência do Ano pela Associação da Bioindústria do Arizona (AzBio).

Empresária aos 19 anos

Quando fundou a Theranos, em 2003, Elizabeth tinha 19 anos: ela abandonou o curso de engenharia química na Universidade de Stanford ainda no segundo ano para iniciar a empresa. Ela dizia que não frequentava as aulas e isso era desperdício de dinheiro. A jovem executiva se definia como empresária: seus estudos de engenharia deram lugar a sua determinação para garantir que a Theranos conseguisse realizar o que prometia.

Antes de fundar a Theranos, Elizabeth pediu conselhos a Phyllis Gardner, professora de farmacologia clínica em Stanford, em outro projeto — que identificaria infecções em pacientes e administraria o antibiótico necessário para curá-las. A especialista disse que o sistema não funcionaria porque havia muitas limitações. Como Elizabeth parecia não querer ouvir, Phyllis a encaminhou para o professor Channing Robertson, chefe do Departamento de Ciência de Stanford — que posteriormente se tornou consultor da Theranos.

A ideia que levou à fundação da companhia fez a empresária ser considerada “a próxima Steve Jobs” — e ela se vestia sempre de preto, com blusas de gola alta, exatamente como o fundador da Apple. Elizabeth dizia, entretanto, que essa era uma forma de não perder tempo escolhendo roupas a cada manhã e, assim, poder dedicar mais energia à Theranos.

Foto da capa da Forbes lembra Steve Jobs com iPod (Imagem: Divulgação/Forbes)

Uma foto em que Elizabeth segura um nanotêiner (e que estampa a capa da revista Forbes) é semelhante à imagem de Steve Jobs apresentando o iPod. Há relatos de que a executiva alterava o tom de voz para que parecesse mais masculino e, assim, mais respeitável no universo dos negócios no Vale do Silício — em diferentes entrevistas com ela, é possível perceber variações.

Em 2015, aos 31 anos, Elizabeth tinha fortuna de US$ 4,5 bilhões (R$ 24,7 bilhões) — já que era dona de 50% das ações da Theranos. Não à toa, várias publicações dedicaram grandes reportagens e prêmios a ela. A revista Fortune foi a primeira: dizia “Esta CEO dá o sangue” para apresentar o trabalho resultante de quatro dias de entrevistas feitas pelo experiente repórter Roger Parloff.

Confiabilidade abalada

A confiabilidade da empresa foi questionada ainda em 2015, quando John Ioannidis, professor de medicina da Universidade de Stanford, levantou as primeiras suspeitas. No artigo “A inovação biomédica está acontecendo fora da literatura revisada por pares?”, ele aponta que a Theranos não tem pesquisas revisadas por outros cientistas e publicadas em periódicos especializados.

Em seguida, uma reportagem de John Carreyrou publicada no jornal americano The Wall Street Journal denunciou que as máquinas Edison não eram tão eficazes como anunciado. Ele afirmava que os equipamentos podiam fornecer resultados imprecisos.

Isso sem contar que a tecnologia da Theranos não era usada em todos os testes oferecidos pela empresa: muitos exames passavam por máquinas tradicionais — de empresas como Siemens, por exemplo. A companhia, então, passou a ser investigada e teve de enfrentar investidores, ações judiciais e sanções de agências governamentais dos EUA.

As entidades reguladoras pediram mais dados sobre a Edison e a qualidade dos exames que ela realizava. A agência americana para saúde e serviços (Centers for Medicare & Medicaid Services – CMS) jamais conseguiu inspecioná-la. Isso levantou suspeitas de que a companhia usava a tecnologia de concorrentes.

A Edison só foi apresentada oficialmente, com todos os seus componentes internos desvendados, depois de todas as acusações que a empresa sofreu. Foi durante o encontro anual da American Association of Clinical Chemistry (AACC) em 2016. Mesmo assim, Elizabeth não conseguiu convencer especialistas sobre a qualidade de seus serviços.

Edison em detalhes (Imagem: Divulgação/Theranos)

Exames imprecisos

Carreyrou se incomodou com o excesso de segredos. Ele chegou a ir até o Arizona para fazer um exame em uma das unidades da Walgreens. Lá, ficou surpreso ao descobrir que a coleta não seria feita na ponta do dedo. A justificativa foi que o pedido incluía exames que requeriam a retirada de sangue diretamente da veia.

Em todos os seus anos de atuação, a Theranos não abriu seu capital. Um dos motivos para isso era poder manter ações e atividades internas apenas entre as paredes e pelos corredores da companhia — ou seja, evitava-se a obrigatoriedade de ser transparente. A empresa nem apresentava relatórios financeiros auditados aos investidores.

Médicos alertaram sobre a falta de transparência da Theranos, mas o fato de serem corporativistas não os ajudou. Eles insistiam que era importante avaliar o paciente como um todo, além de se certificar da qualidade das análises feitas pela empresa, mas os indivíduos queriam fazer exames mais baratos e sem necessidade de pedido médico.

A Theranos chegou a distribuir vouchers para exames gratuitos para incentivar o uso de seus serviços. Depois de um tempo, alguns deles perceberam que os resultados de seus pacientes vinham muito alterados nos testes feitos pela empresa. Eles, então, passaram a refazê-los em outros laboratórios e descobriram que as análises da Theranos não eram confiáveis.

A investigação de Carreyrou revelou mentiras sobre parcerias com laboratórios farmacêuticos, discrepâncias sobre os investimentos recebidos, testes forjados e outros. Em maio de 2018, ele publicou Bad Blood: Secrets and Lies in a Silicon Valley Startup (Sangue Ruim: Segredos e Mentiras de uma Startup do Vale do Silício, em tradução livre, ainda sem edição no Brasil).

A acusação de fraude contra Elizabeth veio no mês seguinte. Três meses depois, em setembro de 2018, a Theranos foi dissolvida. A história virou um documentário da HBO. Já o livro de Carreyrou vai se tornar um filme com Jennifer Lawrence no papel de Elizabeth Holmes.

Funcionários se apresentam

Tyler Shultz, ex-funcionário da Theranos e neto de George Shultz, ex-secretário de governo dos EUA e investidor da companhia, revelou que a Edison precisava de ao menos três frascos de sangue pequenos para realizar os testes. Além disso, eles eram imprecisos (o que viola leis federais para exames laboratoriais) e apenas cerca de 15 exames eram feitos pelo equipamento — os demais dependiam de máquinas de outras fabricantes.

Outros profissionais que atuaram na empresa contaram que, para serem contratados, Elizabeth sempre estava presente na entrevista. Segundo eles, não havia muitos detalhes sobre o que a companhia fazia ou que atividades eles tinham de desenvolver. Como isso é relativamente comum em startups, que preferem manter parte de sua ideia em segredo, muitos não se preocuparam. A maioria relata que a executiva não piscava durante as entrevistas: seus grandes olhos azuis estavam sempre bem abertos.

Alguns colaboradores alertaram Elizabeth de que não era possível colocar tudo em uma caixa do tamanho da Edison. Muitos processos tinham de ser executados (especialmente porque o intuito era oferecer centenas de opções de exames) e, fisicamente, os componentes não cabiam em um espaço tão pequeno. Seriam necessários muitos elementos. Afinal, era preciso miniaturizar e automatizar um sistema que já existia — a Edison teria de ser como um minilaboratório capaz de processar o sangue coletado nos nanotêiners.

Suicídio e ameaças

Um dos especialistas da companhia cometeu suicídio. Ian Gibbons foi contratado como cientista-chefe da Theranos: ele era doutor em bioquímica pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e especialista em exames de sangue. Em pouco tempo, porém, ele se desentendeu com Elizabeth, por apontar que a Edison não funcionaria como o previsto.

Havia muito segredo na Theranos (Imagem: Reprodução/Martin E. Klimek)

Gibbons foi, então, convocado como testemunha em um processo de patente e começou a se preocupar que sua honestidade pudesse custar seu emprego. Quando perguntou à mulher, Rochelle Gibbons, se ela achava que ele seria demitido, ela disse que sim. Na mesma noite, ele cometeu suicídio. A companhia não prestou qualquer apoio a Rochelle após sua morte.

Todos os denunciantes foram ameaçados pelo advogado da Theranos, David Boies. No acordo com a companhia, além de ser contratado, Boies havia recebido ações da empresa. Era um profissional conhecido por já haver representado Al Gore e vencido a Microsoft em uma ação do Departamento de Justiça.

A família de Shultz, por exemplo, gastou cerca de US$ 500 mil (R$ 2,75 milhões) em honorários advocatícios porque ele passou a ser perseguido pela Theranos. A empresa, por sua vez, em 2017 já tinha gasto um terço do total de US$ 900 milhões (R$ 4,9 bilhões) recebidos em investimentos com advogados e reembolso de pacientes do Arizona.

Processos de trabalho

Na Theranos, os especialistas tinham de desenvolver testes e fazê-los funcionar na Edison. E essas análises precisavam ser confiáveis e atuar em conjunto com outros exames. No interior da máquina, entretanto, os fluidos acabavam espalhados por todo o ambiente: ao transferir o sangue, ele era derramado em diversos pontos do equipamento e os componentes ficavam sujos e pegajosos com o material biológico.

Algumas das amostras usadas nos testes eram de pessoas em situação de rua. Podiam facilmente estar contaminadas com diferentes patógenos. Quando havia interrupções inesperadas nos processos, os técnicos tinham de colocar a mão dentro do equipamento — e correr o risco de acabar contaminados com uma picada de agulha.

Muitos componentes quebravam ou se soltavam no meio dos testes. Havia até centrifugadores que explodiam enquanto a Edison estava em operação. Esse era um dos motivos para que Elizabeth blindasse a companhia e as informações sobre ela.

Todos na empresa eram encorajados a guardar segredo. E isso valia até em relação a colegas de outros departamentos da companhia. Assim, a equipe do laboratório de análises clínicas não podia informar diretamente os profissionais responsáveis pelo hardware sobre as dificuldades enfrentadas com as Edison.

Promessas da Theranos não se concretizaram (Imagem: Divulgação/Theranos)

Quando investidores ou executivos visitavam a Theranos, eles eram levados para uma sala com protótipos da Edison. Lá, seu sangue era coletado e inserido no equipamento. Só que o material era levado para ser examinado no laboratório da companhia por um profissional especializado — não era o dispositivo apresentado como revolucionário que os analisava.

Auletta conta que a acusação mostrou que, em 99% dos exames de sangue processados pela empresa, o material era colhido de foma venosa. “Ela havia dito que 99% eram picadas no dedo”, diz ele. Além disso, o governo demonstrou que a Theranos não tinha contratos para oferecer exames de sangue em zonas de guerra, como Elizabeth havia informado Auletta. “No começo, não pensei que ela fosse mentirosa”, reforça. “Com esses dados, entretanto, ficou óbvio que ela havia mentido. Talvez ela visse as mentiras como meio para chegar a um fim valioso. Isso não a desculpa, mas pode ajudar a explicá-la.”

Promessas

Depois das denúncias, a Theranos prometeu adequar os exames. A FDA, a procuradoria dos EUA e órgãos estaduais de saúde decidiram investigar a companhia e os dados divulgados por ela. Imediatamente, a Forbes reavaliou a Theranos em US$ 800 milhões (R$ 4,4 bilhões). Como as ações de Elizabeth não eram preferenciais, a fortuna da empresária foi de US$ 4,5 bilhões a US$ 0 de um dia para o outro.

Sem dados concretos para apresentar, a executiva acusou a imprensa e as agências governamentais de perseguição. Ela queria reerguer a empresa para fazer a revolução que pregava, mas, em 2016, a CMS a impediu de atuar no setor de saúde por dois anos — assim como os funcionários da Theranos. A empresa foi multada e a unidade de Newark, na Califórnia, teve o registro cassado.

O caso da Theranos ilustra como o mercado das startups funciona: Elizabeth ganhou credibilidade sem nunca mostrar a tecnologia que descrevia. Don Lucas Sr., investidor fundador da Oracle, foi um dos primeiros a apostar na Theranos. Ele imaginou que estava diante de uma promessa do empreendedorismo quando soube que o bisavô da executiva era um empreendedor bem-sucedido e que o Hospital Geral de Cincinnati tinha sido fundado (e levava o nome) por Christian Rasmus Holmes, seu tio-avô. Lucas, então, acreditou que ela tinha as qualificações necessárias para iniciar a empresa: uma família com histórico tanto em negócios quanto em medicina.

De celebridade da tecnologia, Elizabeth foi direto ao banco dos réus (Imagem: Divulgação/Inc.)

E como ela enganou tanta gente? “Ela era muito persuasiva e parecia ter fatos científicos para apresentar”, destaca o repórter Auletta. Ele lembra que, inicialmente, a achou inteligente, forte, crente e excessivamente cautelosa. Com o tempo, porém, passou a desconfiar dela. “Pedi a ela seis vezes para explicar o que acontecia na Edison quando o nanotêiner com sangue era inserido”, lembra. “Suas respostas foram comicamente vagas.”

A entrada da FDA e da CMS para impedir a atuação da Theranos ajudou a evitar mais estragos. Os procedimentos da companhia colocavam os pacientes em risco ao expô-los a situações e procedimentos pouco confiáveis.Após o fechamento da empresa, as investigações e os processos prosseguiram.

O julgamento criminal de Elizabeth aconteceu em 2021 e durou quatro meses — ela não se veste mais com blusas de gola alta pretas. Em 3 de janeiro de 2022, ela foi acusada de 11 crimes e considerada culpada de quatro: três acusações de fraude eletrônica e uma de conspiração para fraudar investidores.

A executiva não foi detida, mas a data para a audiência de sua sentença foi definida para 26 de setembro de 2022, às 13h30 (18h30 pelo horário de Brasília). A expectativa é que a pena chegue a 20 anos de prisão e multa de US$ 250 mil (R$ 1,4 milhão) para cada crime.

Fonte feed: canaltech.com.br

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