Cientistas quebram cabeça com corpo celeste que não se enquadra

Uma equipe de pesquisadores do International Centre for Radio Astronomy Research (ICRAR), um centro de pesquisas da Austrália voltado a radioastronomia, identificou um estranho corpo celeste bem próximo da Terra, a meros 4.000 anos-luz de distância (na escala cósmica, é logo ali).

O tal objeto possui características que o classificariam como uma espécie de estrela de nêutrons, mas suas propriedades são tão únicas que ele não se enquadra na definição padrão, e nem mesmo da de um pulsar ou da variação mais rara, um magnetar.

O corpo celeste observado pelo ICRAR se enquadra do que se sabe sobre uma estrela de nêutrons, um subproduto de uma supernova de estrelas supergigantes vermelhas. Elas são o segundo objeto observável mais denso do Universo conhecido, só perdendo para o buraco negro, com uma massa de 10 a 25 vezes maior que a do Sol, comprimida em um diâmetro de apenas 10 km, em média.

Nós sabemos que existem pelo menos um bilhão de estrelas de nêutrons na Via-Láctea, a maioria delas muito, muito velhas, e são difíceis de serem detectadas através de suas emanações eletromagnéticas. Quando são jovens, entretanto, elas giram e emitem feixes de radiação potentíssimos através de seus polos magnéticos.

Quando o feixe está apontado em direção à Terra, ele pode ser observado em intervalos de tempo extremamente curtos e regulares, como se fosse um farol. Essa é a variação que conhecemos como pulsares. Normalmente, um pulsar emite feixes observáveis a cada 10 segundos, devido a sua altíssima velocidade de rotação, mas esse não é o caso da estranha estrela identificada pelo ICRAR.

Segundo a Dra. Natasha Hurley-Walker, radio astrônoma que lidera o estudo, o corpo celeste em questão possui um período de rotação MUITO lento, permitindo que o feixe seja observado em intervalos de 18,18 minutos, por períodos entre 30 e 60 segundos. Quando isso acontece, a estrela esquisitona se torna um dos objetos mais brilhantes do céu observável.

Por emitir ondas de rádio altamente polarizadas, e estar convertendo energia magnética em radiação eletromagnética de forma extremamente eficiente, a equipe da Dra. Hurley-Walker acredita que o objeto em questão é uma espécie de magnetar, mas mesmo essa classificação não preenche todas as caixinhas.

É ou não é?

Basicamente, um magnetar é uma estrela de nêutrons dotada de um poderoso campo eletromagnético, muito mais forte que o da Terra, ao ponto de inviabilizar a manutenção da vida em suas cercanias. Fora isso, entretanto, ela possui características similares às de um pulsar.

O corpo celeste observado pelo ICRAR, como já dito, emite radiação na direção da Terra por muito tempo, um comportamento muito diferente quando comparado com o de outros astros transitórios (em constante mudança, como pulsares e supernovas). Exatamente por isso, há a possibilidade de que o objeto seja algo completamente novo, jamais identificado antes.

A Dra. Hurley-Walker acredita que o corpo celeste bizarro é um objeto teórico chamado magnetar de período ultralongo, um modelo previsto na radioastronomia, mas que nunca havia sido localizado. Segundo a proposta, astros do tipo são magnetares que girariam muito lentamente, mas a equipe se diz surpresa por não esperar que algo do tipo fosse tão brilhante.

Há a possibilidade, também não descartada, que o objeto seja uma estrela anã branca com comportamento incomum; de fato, o corpo celeste indefinido não se enquadra completamente em nenhuma categoria, tornando-o ainda mais estranho.

A equipe do ICRAR, que usa o observatório MWA (Murchison Widefield Array) para analisar o céu, continuará de olho no estranho objeto celeste para determinar se o seu ciclo de 3 pulsos por hora se manterá.

Com o tempo, novos equipamentos de melhor definição poderão permitir identificar se existem outros tipos do mesmo elemento no espaço, e se ele é ou não tão único quanto se acredita.

Referências bibliográficas

HURLEY-WALKER, N. et al. A radio transient with unusually slow periodic emission. Nature, Volume 601, Edição 7.894, 5 páginas, 26 de janeiro de 2022. Disponível em https://doi.org/10.1038/s41586-021-04272-x.

Fonte: ICRAR

Fonte feed: tecnoblog.net

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