Horizon Forbidden West e sua estranha referência a sindicatos

Horizon Forbidden West é a esperada continuação que chega 5 anos depois de Horizon Zero Dawn, e um dos principais lançamentos em games do primeiro trimestre de 2022. O game traz uma bem-vinda evolução em gráficos, jogabilidade e narrativas, mas a nova empreitada de Aloy para salvar o mundo (de novo) não foi recebida sem algumas críticas.

Uma missão em especial, bem no começo do jogo, tem um tom que passa a impressão de que a Guerrilla Games e, por extensão, a Sony, tentaram demonizar esforços de profissionais do mercado de games a se sindicalizarem, movimento este que ganhou força em 2021. No entanto, e se essa foi mesmo a intenção dos envolvidos, o tiro saiu pela culatra.

Hic Svnt Dracones!

O texto a seguir contém spoilers das primeiras horas de Horizon Forbidden West, logo, leia por sua conta e risco.

Para um texto sem surpresas, confira o review no Tecnoblog.


No início do game, Aloy precisa ir a Minéria (Chainscrape no original em inglês), um assentamento da tribo Oseram que fica no Vão, o limiar entre as terras da tribo Carja e o Oeste Proibido, o primeiro ponto de parada para alcançar o Oeste Proibido, ao qual ninguém tem acesso enquanto uma Embaixada etrte diplomatas não ocorrer.

O problema ocorre que ao chegar, Aloy descobre que a região está infestada de máquinas agressivas, chamadas presabravas (bristlebacks, um javali-robô e um dos novos inimigos), que impedem a passagem do representante dos Carja rumo a cidade de Ocásia. Sendo o típico erudito medito a besta, ele se recusa a continuar, enquanto sua segurança não estiver garantida.

Além disso, os trabalhadores de Minéria estão em greve. Aloy precisa melhorar seu arco (requerimento da missão principal), mas os Oseram só voltarão a trabalhar, claro, depois que os presabravas forem eliminados. Sobra para Aloy, que está em modo de urgência e não tem tempo a perder.

Nesse contexto somos apresentados a Ulvund, o líder dos trabalhadores locais, que organizou a greve para garantir a segurança de seus pares, ou ao menos, assim parece a princípio.

Conforme o jogador progride na história e conversa com outros NPCs, incluindo Petra, a Oseram amiga de Aloy que teve papel fundamental na batalha final de Horizon Zero Dawn, você descobre que uma das condições de Ulvund para encerrar a greve envolve a uma concessão de terras dos Carja no Vão.

O documento incluiria a permissão de uso de Minéria e adjacências a Ulvund e os demais trabalhadores da região, de modo que eles não possam ser removidos de lá posteriormente. A região se tornaria uma cidade Oseram.

Ulvund é ilustrado como um benfeitor para os trabalhadores locais, e a organização gerida por ele se parece com um sindicato à primeira vista. No entanto, o líder tem motivos ulteriores: ele possui investimentos em todas as regiões do Vão, e com a concessão, ele ficaria rico e angariaria votos para se tornar um conselheiro dos Oseram.

Ele inclusive não esconde de Aloy que a concessão lhe concederia uma “compensação singela”, pelos serviços prestados à comunidade.

A trama é desenrolada na missão principal e em três secundárias, “Os Presabravas” (acima), “Perigo nas Profundezas” e “Rota do Crepúsculo“, com as duas últimas mostrando como Ulvund e seus aliados tratam trabalhadores e outras pessoas no Vão. Outra missão secundária menciona que o Ulvund exige um “desconto especial” no restaurante para ele e seus seguidores, e você percebe que o “grupo sindical” forçou até os comerciantes locais a fecharem.

Aloy precisa eliminar os presabravas para que o caminho seja aberto, e ao concluir todas as missões, Ulvund é forçado a encerrar a greve (ele é inclusive trollado, no que a heroína diz que o “líder sindical” cobrirá o prejuízo de todo mundo), e acaba sendo substituído por Petra como líder dos trabalhadores de Minéria.

A impressão inicial é de que Horizon Forbidden West busca mostrar o lado negativo de movimentos de sindicalização, em que seus responsáveis sempre prezarão pelo “farinha pouca, meu pirão primeiro”, o que tornaria Aloy uma vilã involuntária, por sua urgência para salvar o mundo a levaria se tornar uma “destruidora de sindicatos”, ou “union buster” em inglês.

No entanto, ao ir um pouco mais a fundo na história e jogar todas as missões relacionadas, você percebe que o comportamento de Ulvund e seus seguidores têm muito mais similaridade com o crime organizado, especificamente a Máfia.

Tal confusão é compreensível, visto que em muitos lugares, Brasil incluso, existem organizações sindicais atuando em prol do enriquecimento de seus organizadores, sob o pretexto de proteger os interesses dos trabalhadores, exatamente como a Cosa Nostra fazia com a “venda de proteção”. Este fator em especial é muito parecido com o “desconto do Ulvund”, aliás.

É importante lembrar que nem todo sindicato é gerido por gente mau-caráter, mas o timing para a inclusão de tal trama em um game AAA é curioso.

Durante o ano de 2021, o movimento de trabalhadores e prestadores de serviços na indústria dos games em busca de seus direitos, incluindo esforços para se sindicalizarem, ganhou força graças às denúncias generalizadas de crunch durante o desenvolvimento de diversos games, e do gigantesco processo movimento contra a Activision Blizzard, envolvendo uma cultura nociva e prejudicial na empresa, abusos sexuais e morais, demissões em massa, condições de trabalho inadequadas, e outros problemas.

A coisa ficou realmente feia quando funcionários da Raven Software, um dos estúdios da Activision, anunciaram a criação de um sindicato, no que a companhia respondeu desde apelando para o FUD, a desmembrar a equipe de Q&A inteira, espalhando seus membros entre vários departamentos, de modo a enfraquecer o esforço comunitário.

Não obstante, a empresa contratou a WilmerHale, um escritório de advocacia especializado em desmontar sindicatos, deixando claro que o movimento na companhia não será tolerado.

Ainda não se sabe se a aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft mudará o tom das conversas nesse quesito em um futuro próximo, isso se o processo for aprovado.

A Sony nunca se posicionou contra ou a favor de sindicatos, mas a passagem em Horizon Forbidden West coincide com o movimento atual na indústria de games, em que cada vez mais profissionais buscam se organizar em prol de garantir seus direitos, nos Estados Unidos, Europa e até no Brasil.

É possível também que a crítica do jogo tenha sido endereçada desde o início a organizações criminosas, mas a abordagem traça muitos paralelos com a atuação de grupos sindicais, causando a confusão (se intencional ou não, jamais saberemos).

A situação acabou levando à manifestação de diversos grupos e publicações em sites, acusando Aloy injustamente de agir como uma ferramenta de “interesses capitalistas” (sic) contra os dos trabalhadores, mesmo com ela se apoiando na urgência de sua missão.

A verdade é que ao concluir a missão, o jogador percebe que o processo de trabalhadores unidos em comum acordo, sob o comando de Petra, que não tem interesses ocultos e realmente se preocupa e zela por seus pares, é a melhor definição de um sindicato verdadeiramente atuante em prol de sua classe.

Por outro lado, e para tristeza de alguns, não há nenhum Oseram dizendo que eles deveriam “tomar os meios de produção”, ou coisa parecida.

Fonte feed: tecnoblog.net

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