Locadora ganhou mais força graças a lançamentos simultâneos

Fato: a Locadora do Paulo Coelho vai continuar firme e forte por muito tempo. Desde 2014, a gente bate na tecla de que apesar de termos bons serviços de streaming, que facilitam o consumo de conteúdo, sempre haverão aqueles que não desejam gastar um centavo sequer para assistir seus filmes, séries, documentários e animes favoritos.

A balcanização do streaming, que levou ao surgimento de dezenas de plataformas, só fez a pirataria ganhar mais força. Na prática, o usuário médio prefere ter o trabalho de apelar para o torrent do que pagar por uma penca de serviços, ou fazer rodízio entre eles. E o mesmo está acontecendo agora, graças à distribuição de filmes simultânea, entre o cinema e os serviços de assinatura.

Vejamos os dados do site Torrent Freak, que rastreia os torrents de filmes mais compartilhados em redes P2P a cada semana. No período entre 28/12/2021 e 03/01/2022, a coroa ficou com Matrix Resurrections, principalmente porque no exterior, o filme chegou simultaneamente às salas de cinema e ao HBO Max. No Brasil, a Warner Bros. impôs um delay de 35 dias para todas as suas produções, devido acordos com salas locais e distribuidores.

O segundo filme mais procurado na Locadora é, sem surpresa, Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, mas há pontos a se considerar aqui. Diferente da quarta aventura de Neo, Trinity, Morpheus e cia, o capítulo mais recente das trapalhadas de Peter Parker tem exibição exclusiva nos cinemas, e por causa disso, todas as cópias disponíveis nos trackers são “CAM”, capturadas por câmeras dos espectadores, com qualidade de áudio e vídeo variando entre o ruim e o péssimo.

Isso aconteceu porque diferente dos demais heróis da Marvel Studios, o cabeça-de-teia é controlado pela Sony, que nem cogita a possibilidade de streaming simultâneo com cinema. Embora a pandemia da COVID-19 tenha forçado o fechamento das salas em todo o mundo, estúdios e produtoras reagiram de maneiras diferentes à crise. Disney e Warner Bros., atualmente os dois maiores, apelaram para a estratégia de inicialmente lançar seus filmes ao mesmo tempo nas duas mídias.

A Disney, no entanto, fez diferente. Determinada a recuperar o investimento “perdido” com os cinemas fechados, ela introduziu o plano Premier Access, com cobrança adicional por um período determinado. Quando as salas reabriram e com a maioria da população imunizada, a casa do Mickey encerrou o plano e passou a atrasar o lançamento, inicialmente em 45 dias (Shang-Chi e a Lenda dos Dez Aneis, Encanto), depois estendido para mais de 2 meses (Eternos).

Inicialmente, o Premier Access parecia uma boa ideia, mas de acordo com uma análise do site Deadline, baseada em números de audiência (que não são perfeitos) conseguidos pelo grupo Samba TV, sempre que um estúdio tentou dominar a exibição em casa e nas telonas ao mesmo tempo, acabava tendo números fracos em ambos.

Viúva Negra, por exemplo, fez US$ 60 milhões na primeira semana com o Premier Access, e mais US$ 158 milhões no cinema, mas na seguinte, a receita já havia despencado 67%, a maior queda já registrada por um filme do MCU (Universo Cinematográfico Marvel).

Acredita-se que isso foi causado por uma combinação entre a sensação ruim que o filme passa, pelo público já saber o que vai acontecer com a protagonista, o processo movido pela atriz Scarlett Johansson contra a Disney, e claro, a pirataria, já que as cópias ripadas do Disney+ eram perfeitas.

A título de comparação, a receita de Matrix Resurrections também caiu vertiginosamente entre a estreia e a segunda semana, atingindo um decréscimo de 64%. Em comum, as cópias ripadas do HBO Max se tornaram mais difundidas e os arquivos de legenda começaram a ser produzidos pelos fãs . Curiosamente, dizem que as cópias dos filmes e séries do Disney+ disponíveis na Locadora, conta com múltiplas legendas embutidas, o que facilita em muito sua disseminação.

Na época, a Associação Nacional dos Donos de Cinemas dos EUA (NATO) publicou uma carta (cuidado, PDF), afirmando que a fraca performance de Viúva Negra se deu graças à Locadora, que teve acesso à cópia do Premier Access, e muitos simplesmente abriram mão de gastar qualquer quantia, abriram seu cliente favorito e baixaram o torrent.

A carta continua, lembrando que Cruella, outro filme da Disney, bem como lançamentos da Warner Bros., como Mulher-Maravilha 1984, Godzilla vs Kong e o remake de Mortal Kombat, sofreram com os mesmos baixos números de presença do público em salas.

No caso dos três últimos, é preciso lembrar que o HBO Max nunca cobrou valores adicionais para a exibição de filmes ainda em cartaz, mas se o usuário pode optar por não pagar nada…

O caso de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa é diferente. Ele lidera as bilheterias (Matrix Resurrections é o segundo), se tornou o filme mais lucrativo da Sony Pictures em toda a sua história, e mesmo sendo buscado em massa na Locadora, quem opta por assisti-lo em casa o fará com uma cópia ruim, muito ruim, ou extremamente ruim. E não há previsão de quando a película chegará ao streaming (não será o Disney+, entretanto).

Os estúdios estão cientes de que estão perdendo dinheiro, claro. Em setembro de 2021, fontes apuradas pelo site Deadline apontavam que Viúva Negra havia sido pirateado mais de 20 milhões de vezes, e que o prejuízo projetado chegaria a cerca de US$ 600 milhões.

O fato é que a maioria dos estúdios ainda está testando as águas, se adaptando a um cenário de COVID-19 mais duradouro, graças às suas variantes que não param de surgir. Há quem defenda que a distribuição simultânea é um mau negócio para salas de cinema e os estúdios, enquanto que outros defendem o direito de escolher como, quando e onde consumir suas obras favoritas.

A estratégia da Sony, que a Disney está copiando agora, talvez seja a melhor por incentivar o público a ir ao cinema, ou se virar com uma cópia pirata muito ruim, se não quiser esperar. Por outro lado a Warner Bros., embora tenha tomado uma sova com Matrix Resurrections, experimentou um aumento recente no número de assinantes, o que nos lembra que a Locadora é benéfica ao mercado, ao contrário do que os donos das propriedades intelectuais acreditem e divulguem ao público.

Fonte: Deadline

Fonte feed: tecnoblog.net

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