O que é crash test de um carro e como funciona?

O crash test ou, em bom português, teste de batida é o recurso utilizado pelas montadoras de carros, exigido por lei, para determinar o nível de segurança de um veículo e, consequentemente, o quanto ele protege seus ocupantes. E não, não basta pegar um carro e acelerar remotamente até que ele bata em uma parede, viu?

Para entender melhor o que é e como funciona um crash test, a reportagem do Canaltech aceitou o convite da Volkswagen e acompanhou de perto a execução (e destruição) de um dos carros mais caros da linha, o Taos. O evento fez parte da comemoração dos 50 anos do Laboratório de Segurança Veicular da Volkswagen no Brasil e contou com uma visita completa, e muito didática, às instalações.

Paulo Morassi, diretor da VW, explica como é o crash test (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

Todo o tour foi realizado em companhia de Paulo Morassi, gerente da área de Segurança Veicular da empresa, com direito a uma viagem no tempo. “A primeira pista de testes foi montada no bairro do Ipiranga, nos anos 1970, e o primeiro carro que a gente bateu foi um TL 1600”, contou Morassi.

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O executivo revelou que a mudança para São Bernardo do Campo aconteceu em meados da década de 1980 e que, desde então, o local tem servido de testes até mesmo para carros do grupo que são vendidos fora do Brasil. “O Nivus é um ótimo exemplo, pois é desenvolvido aqui, produzido na Espanha e vendido na Europa”.

O passeio pelas instalações começou e terminou pela pista do crash test, então nada mais justo do que começar a explicar como funciona o procedimento que acaba destruindo um carro, certo? Então vamos lá.

A pista do crash test

Pista tem 110 metros, do ponto em que o carro está até a barreira (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

A pista da Volkswagen tem 110 metros de comprimento, desde o ponto de largada do carro até a barreira em que acontece o impacto.

Ela conta com seis câmeras de alta resolução, que depois são analisadas junto de outras duas, colocadas no interior do veículo. Segundo a Volkswagen, são gerados mil quadros por segundo para que nenhum detalhe escape.

Preparação do carro

Carro passa por várias etapas antes de ir à pista (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

Como dissemos no início do texto, para realizar o crash test não basta acelerar um carro remotamente e jogá-lo contra uma parede. O processo para cada modelo de veículo começa até 3 anos antes do lançamento no mercado, de maneira virtual. E esse é só o 1º passo.

Após os testes virtuais, o carro vai para o sled test, ou teste de trenó. Nessa fase, são avaliadas as consequências de um acidente de trânsito para os ocupantes, utilizando a carroceria de veículos.

Slead test não tem impacto, apenas simulações (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

Além de simular impactos frontais, laterais e traseiros, o teste verifica o comportamento de cintos de segurança, airbags, bancos, coluna de direção e painel de instrumentos.

“Passando por essas etapas, aí vai para o crash test. São fases para não pegar um protótipo de 1 milhão de reais e, se falhar, ter que começar tudo de novo”, explicou Paulo Morassi. “Os airbags são expostos às variações climáticas dentro de 4 câmaras especiais, e há ainda dispositivos de tração para testes de resistência em carroceria dos pontos de ancoragem de cintos e bancos, amassamento de teto e porta, teste de tanque de combustível e para-choques”.

Carro recebe sensores e cabos antes do crash test (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

O carro também é equipado com centenas de sensores (assim como os dummies), tem os fluídos inflamáveis drenados e substituídos por água com corante (para identificar possíveis vazamentos) e, ao ir para a pista, é acoplado a um cabo de aço, preso à bandeja da suspensão, que o puxará até o local do impacto.

Preparação da barreira

Barreira deformável está pronta para o crash test (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

A barreira e a pista também precisam de preparação especial antes de um crash teste ser realizado. “Usamos uma barreira deformável, que pode simular um poste, muro, traseira de caminhão”, exemplificou Morassi.

Preparação da “família” de dummies

Dummies recebem sensores e adesivos para marcar locais de impacto (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

Os dummies, ou bonecos, são mais importantes (e caros) do que você pode imaginar. E a compleição deles também é distinta.

“A gente trabalha com uma família de dummies, pois temos que nos preocupar com toda a gama da população. Temos perfil médio, feminino, crianças de até um ano e meio e acima de três anos. É importante varrer a gama toda, pois o corpo de cada um reage de maneiras diferentes”.

O executivo explicou que, após o teste, os locais de impacto são comparados com dados biomecânicos para determinar a gravidade de possíveis lesões. E até revelou que os bonecos são mandados para um check-up periodicamente em um “hospital”, ou melhor, um laboratório de calibração.

Cada dummy recebe centenas de sensores e custa até R$ 4 milhões (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

O cuidado com a “família” não é à toa, já que cada dummy, dependendo do tamanho, custa entre R$ 1,5 milhão e R$ 4 milhões. Segundo Morassi, assim como o carro, os bonecos também são totalmente sensorizados e isso, claro, tem um custo alto.

O teste

Chegou a hora de descrever (e assistir) o crash test de um carro da Volkswagen. Os jornalistas foram encaminhados para um mezanino montado na parte final da pista, com visão lateral do ponto de impacto.

Foi necessário utilizar um óculos escuro, já que a iluminação do local, no momento do teste, tem potência similar à encontrada em estádios de futebol, mas em um espaço de 20m².

Desde o toque da sirene de alerta até a batida na barreira de proteção e o barulho ensurdecedor, não se passam mais do que 30 segundos. O processo de preparação envolvendo barreira, pista e ajustes finais no carro, no entanto, dura cerca de três semanas, no total.

O crash test padrão, ou seja, o que atende à legislação vigente, tem alguns quesitos a serem atendidos:

  1. O veículo precisa atingir 64 km/h até o momento do impacto;
  2. A área de impacto deve ficar entre 40% e 60% da parte dianteira do carro;
  3. O carro tem que estar com a ignição ligada;
  4. É necessário colocar 4 ocupantes (todos dummies) no carro.
Marcas no capô demarcam área que será atingida na colisão (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

Os itens acima não foram listados por acaso. Segundo Morassi, os dois primeiros são justificados pelo fato de, na maioria das batidas, o motorista ter a tendência de frear e desviar o carro. Ou seja: a incidência de batidas acima dessa velocidade, e de atingir uma parcela maior do veículo, é bem menor.

Os pontos três e quatro também têm viés científico. A ignição do carro precisa ficar ligada para que o sistema todo funcione como se o carro estivesse em uma via pública; já a escolha por 4 bonecos no carro é para simular uma família com dois adultos e duas crianças.

O resultado do crash test

Diretor da VW confere os estragos após o crash test no carro (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

Após a batida, os jornalistas desceram do mezanino para avaliar os estragos no carro e na barreira. De acordo com o diretor da Volkswagen, apesar de o carro ter ficado com a frente toda destruída, todos os ocupantes do carro teriam saído do acidente sem maiores problemas.

“Não tem nenhum líquido vermelho. Não houve vazamento de combustível. Tudo funcionou conforme projetado, as portas estão abrindo normalmente, o que é muito importante para facilitar eventuais remoções, e as pessoas sairiam sem a necessidade de resgate”, comemorou o executivo.

Frente do carro foi “feita para amassar”, de acordo com executivo (Imagem: Paulo Amaral/Canaltech)

Segundo Morassi, a Volkswagen utiliza a plataforma MQB em seus carros, projetada para que a deformação ocorra na dianteira. “O carro é feito para deformar todo na frente, para que não haja danos no habitáculo e os ocupantes não tenham que absorver o impacto”.

O passo final do tour foi comprovar, por meio dos dados coletados pelos sensores dos carros e dos dummies, se realmente o crash test do carro foi um sucesso. Para isso, os jornalistas tiveram acesso a um vídeo em câmera lenta do acidente e aos relatórios.

“O motorista está com o tórax laranja, o que é aceitável. As crianças estão com os pontos todos verdes, o que é um nível muito bom. Podemos dizer que o Taos é um carro com nível bom de segurança”, concluiu.

Fonte feed: canaltech.com.br

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