Por que o problema de covid-19 na Ucrânia é um problema para o mundo

Com apenas 35% da população imunizada contra a covid-19 até o dia 24 de fevereiro, pouco antes da invasão russa, a Ucrânia já passava por problemas no controle do vírus antes da guerra contra o país vizinho. Os problemas na campanha de vacinação ucraniana incluíram atrasos em seu início, dificuldades da população em encontrar locais para se imunizar ou mesmo desconfiança quanto à eficácia e segurança da vacina.

Com a guerra, fica mais difícil manter protocolos de segurança como o uso de máscaras e distanciamento social, e populações vacinadas e não-vacinadas se juntam em estações de trem e ônibus para encontrar abrigo em países vizinhos. Quando pessoas são obrigadas a entrar em abrigos anti-bomba, centros de refugiados e veículos abarrotados em fuga, não há como evitar aglomerações.

Mais da meio milhão de refugiados deixou a Ucrânia desde o início da invasão, quase a metade deles indo para a Polônia
Mais da meio milhão de refugiados deixou a Ucrânia desde o início da invasão, quase a metade deles indo para a Polônia (Imagem: Reprodução/Matti/Pexels)

Doenças em zonas de conflito

Pesquisadores da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicaram, em 2007, um artigo mostrando que 65% dos surtos de doenças infecciosas nos anos 1990 ocorreram em populações de refugiados ou em zonas de conflito. Além dos problemas de saúde pública desses ambientes, o sistema imunológico de pessoas sob altos níveis de estresse não funciona tão bem e sua alimentação não é ideal, comprometendo sua habilidade de combater doenças. Isso permite que o vírus se espalhe numa escala que não seria possível em condições de vida normal.

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Alerta para o surgimento de novas variantes

Desde o início da invasão russa, mais de 670 mil pessoas deixaram a Ucrânia, e a onda de refugiados acaba pressionando o sistema de saúde dos países que os recebem, principalmente vizinhos como Eslováquia, Romênia, Hungria, Moldova e especialmente a Polônia, que recebeu quase a metade de todos refugiados ucranianos.

O problema, no entanto, não pára nas repúblicas fronteiriças à Ucrânia. Afetada pela variante Ômicron em novembro e fevereiro, com uma cobertura vacinal baixa e um estado em guerra, as altas nos casos de covid-19 no país são inevitáveis — e o potencial para o surgimento de variantes novas aumenta significativamente, pondo em risco o mundo todo.

Situações como essa evidenciam falhas na rede global de biodefesa contra vírus muito contagiosos como o coronavírus SARS-CoV-2. Em um ambiente ideal, com uma coordenação mundial de saúde pública coesa, recursos poderiam ser destinados ao alívio das condições sanitárias precárias da Ucrânia e de seus vizinhos, evitando uma maior proliferação do vírus.

Falta de recursos e questões de soberania nacional estão no caminho de ONGs e da OMS na questão de ajuda humanitária a regiões de crise (Imagem: pressmaster/Freepik)
Falta de recursos e questões de soberania nacional estão no caminho de ONGs e da OMS na questão de ajuda humanitária a regiões de crise (Imagem: pressmaster/Freepik)

Atualmente, a OMS esbarra em problemas de autoridade e falta de recursos financeiros para ações de auxílio dessa magnitude: muitos países sentem sua soberania nacional ameaçada quando órgãos externos ditam medidas de saúde pública, ainda mais em tempos de desconfiança internacional.

Para o futuro, medidas mais limitadas podem ser tomadas, dizem especialistas — em 2020, um plano de distribuição global de vacinas, o COVAX, foi implementado, no qual países desenvolvidos compravam vacinas para abaixar os preços e permitir que países em desenvolvimento tivessem condição de adquirir os imunizantes. O programa falhou em entregar os dois bilhões de doses prometidas até o final de 2021. Analisar os motivos da falha do COVAX após a pandemia pode nos dar um insight do porquê ele falhou e como podemos implementá-lo melhor.

Por enquanto, tanto a OMS quanto organizações como a Médicos Sem Fronteiras não têm recursos nem pessoal suficiente para ajudar zonas de crise com eficiência, podendo apenas oferecer ajuda em esforços mais localizados. Jeffrey Shaman, professor de epidemiologia na Escola Mailman de Saúde Pública da Universidade de Columbia, em entrevista à Time, sumariza bem a questão: “Se continuarmos a ser reativos crise após crise, não chegaremos aos problemas sistêmicos fundamentais que precisam ser resolvidos”.

Fonte: Time

Fonte feed: canaltech.com.br

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