Resenha: Halo, a série de TV (com spoilers)

Depois de quase uma década desde o anúncio original, Halo, a série de TV baseada na franquia de games da Microsoft, finalmente estreou. Com Steven Spielberg na produção executiva e envolvimento direto da 343 Industries, a obra traz uma nova visão da guerra da dos humanos contra os Covenant, o programa Spartan, e claro, a melhor arma da humanidade, John-117, aka Master Chief.

As semelhanças com os games, entretanto, acabam aí. De modo a tornar Halo apelativa a um público que não curte games, a série foca menos em Chief e mais em outros personagens e narrativas.

Vamos dar uma olhada em tudo o que aconteceu no capítulo piloto de Halo, com todos os spoilers liberados. O aviso foi dado.

A guerra nunca muda (em qualquer lugar)

A história de Halo se passa em 2552, no que a humanidade conquistou as estrelas e se espalhou pela galáxia, em diversos mundos. Entretanto, eles não são unidos, alguns são considerados rebeldes pelo UNSC (Comando Espacial das Nações Unidas), a agência militar e científica do governo unido da Terra.

Na maioria deles, ninguém confia nos militares, e é esse o cenário de Madrigal, um planetinha de mineração. Entre os moradores, a UNSC é vista basicamente como a Alemanha nazista, e os Spartans, os supersoldados criados para vencer uma suposta guerra contra alienígenas que ninguém nunca viu, tratados como monstros sem alma, que matam tudo o que se move.

É nesse planeta que vive Kwan Ha (a atriz novata Yerin Ha), filha do líder local. Ela e seus amigos descobrem um grupo de alienígenas em uma caverna próxima, e o que se segue é um massacre total. Um a um, os jovens vão sendo massacrados pelos invasores, que perseguem Kwan até a cidadela. A invasão é brutal, com desmembramentos e massacre indiscriminado, inclusive de crianças (a série é 18+, só lembrando).

Os poucos que resistem se tocam que os relatos sobre os aliens eram reais, e não mera propaganda. Logo na sequência chega uma nave da UNSC, com um destacamento de Spartans, e a história vira de novo. Os supersoldados SÃO monstros sem alma, que matam tudo o que se move desde que estes sejam Covenants, e não ligam nem um pouco para rebeldes e separatistas; o esquadrão tem a missão de matar alienígenas, não de resgate, e não mexem um dedo para proteger insurgentes.

Master Chief (Pablo Schreiber, o Mad Sweeney de Deuses Americanos), o líder do esquadrão, informa à UNSC que Kwan é única sobrevivente de Madrigal, como uma mera nota de rodapé. A cena de combate, no entanto, é muito bem executada, os Spartans são muito mais altos e mais fortes que os humanos normais, mesmo os soldados da UNSC, e ficam em pé de igualdade (nah, eles são superiores) quando comparados aos Covenant.

As coisas mudam para Master Chief quando os Spartans vão checar a caverna onde os Covenant estavam cavando, e encontram um artefato misterioso. Quando John-117 o toca, ele começa a ter visões estranhas, que deixam o comando do UNSC, e a dra. Halsey (Natascha McElhone, a Karen van der Beek de Californication), criadora do programa Spartan, preocupados: as visões são memórias que o programa reprimiu, para que ele, e outros de sua classe, se tornem os “soldados perfeitos” e totalmente controláveis.

Em Reach, a base de comando da UNSC, os figurões estão obcecados não apenas com o resultado da guerra contra os Covenant, mas também com a situação das colônias separatistas. Eles colocam a oficial Miranda Keyes (Olive Gray) para convencer Kwan a posar como garota-propaganda dos militares, dizendo em uma transmissão como os aliens são cruéis e que todos deveriam se unir contra um inimigo comum.

Kwan, que está em uma nave com Master Chief a caminho de Reach, basicamente manda Keyes para aquele lugar e que sua intenção é manter as colônias separadas, visto que ela pretende dizer para todo mundo que foram os Spartans que mataram o povo de Madrigal.

Paralelo a isso, há o terceiro núcleo da série, que se passa no mundo-trono dos Covenant. Um dos Profetas, o da Misericórdia, é visto interagindo com a suposta líder deles, Makee, que é… humana. Ao que tudo indica, os aliens criaram um membro da raça inimiga para entendê-los melhor, e ela ODEIA humanos tanto quanto os demais Covenants.

Isso é outro contra-ponto à série de games, em que os alienígenas consideram os humanos uma praga, e jamais criariam uma deles, muito menos para se tornar uma líder.

Na nave a rumo de Reach, Master Chief recebe uma ordem do alto-comando da UNSC: matar Kwan Ha. Como ela não quis cooperar, ela foi considerada perigosa para o esforço de guerra, e os militares pretendem acobertar sua morte, dizendo que ela foi resgatada “gravemente ferida”, mas não sobreviveu.

O único problema, Chief está cheo de minhocas na cabeça por culpa do artefato alien, e decide desobedecer às ordens, desconectando a nave e tentando recuperar os controles manuais. A UNSC endoida, declara o Spartan como rebelde e ordena sua captura, ou eliminação, assim que pousarem. A dra. Halsey, por outro lado, ordena os demais Spartans a protegerem Chief, mesmo que isso signifique entrar em confronto com outros humanos.

Nisso, Kwan pega uma das armas de Chief e ameaça matá-lo, no que ele diz que a armadura o protegeria. Nesse momento, e para ganhar a confiança da insurgente marcada para morrer, John-117 faz algo que ele nunca fez nos games, e deixou os fãs mais xiitas fulos nas calças:

Ele tira o capacete.

O episódio termina com Master Chief, agora um desertor, fugindo com Kwan e o artefato alien, que claro que é a chave para encontrar o mundo/estação espacial em forma de anel que dá nome à série e aos games, uma ideia tirada diretamente de Ringworld.

No primeiro episódio, Halo passa a ideia de que confiança, a conquista ou a perda dela, é um tema crucial. Master Chief confia no sistema, no entanto, passa a ter dúvidas ao tocar no artefato e ter visões, que ele não sabe serem suas próprias memórias. Kwan Ha não confia em ninguém, mas passa a ver em John-117 um aliado. A UNSC não pode mais confiar em sua posse mais poderosa, que pode ter ficado biruta, e a dra. Halsey confia piamente que seus “filhos” a obedecerão sem questionar, graças ao elo de lealdade que une os Spartans; em teoria, eles não podem ser controlados 100% pelos militares.

Tecnicamente Halo é excelente. As cenas de ação, os efeitos, naves, figurinos, tudo foi muito bem executado e guardam similaridades com os games, o suficiente para não serem estranhas demais aos fãs de longa data. Por outro lado, a narrativa vai por um caminho totalmente inesperado, ao tirar o foco de Master Chief e tratá-lo como um coadjuvante.

A verdadeira protagonista aqui é Kwan Ha, é através de seu filtro que vemos como as coisas são, e há riscos para essa abordagem também, no que a crítica apontou que Halo tenta ser a versão da Xbox Studios de The Mandalorian, com mais gore.

Essa decisão de roteiro acabou por tornar a UNSC uma organização militar fria e até vilanesca, disposta a matar outros humanos apenas para garantir seu domínio na galáxia e narrativa, de os bonzinhos travando o bom combate contra os Covenant. Os Spartans quase não possuem livre arbítrio, eles são drones que atiram para onde os militares, e a dra. Halsey, apontarem, e não têm uma gota de empatia, seja por civis ou mesmo por outros militares.

A recepção foi bem diversa: Halo está com 60% de avaliações positivas no site Rotten Tomatoes, tanto de crítica quanto de público, e ainda assim, a série teve a melhor estreia registrada pelo serviço de streaming Paramount+, ultrapassando os 4,9 milhões de espectadores em 24 horas de 1883. Os números exatos, no entanto, não foram informados.

Conclusão

Halo causou alvoroço entre os fanboys caixistas, que ODIARAM as divergências entre a série de TV e a franquia original, mas também é verdade que Deus odeia eles, então não devem ser considerados. Não há mérito em criar um fac-símile de uma obra já existente, sem mencionar que a produção precisa emplacar entre para o público geral, no caso os não-gamers.

Esses nunca vão chegar perto de um Xbox ou de um PC Gamer, logo, o argumento “jogue os games para conhecer a história” não passa de um discurso gatekeeper, típico da galera “eu curtia antes de ser modinha”, que é um pensamento muito babaca.

Steven Spielberg é macaco velho e sabe muito bem o que funciona em TV, e o que não deve ser adaptado. Nesse sentido, coolcar a visão do público do lado de fora da guerra contra os Covenant foi uma boa sacada, mesmo que isso significasse vilanizar a UNSC e transformar os Spartans em bichos-papões. O público médio criará empatia com Kwan Ha, enquanto Master Chief é um supersoldado quase sem sentimentos, um boneco que está começando a se livrar de suas amarras.

Mudanças quando bem-feitas são bem-vindas, e o episódio piloto de Halo deixa claro que a série trilhará outro caminho para contar a mesma história, focando menos em Master Chief e mais no mundo ao redor dele, inclusive nos Covenant, graças à Makee.

Se você estiver disposto a absorver uma abordagem alternativa de uma história que você já conhece, e não tem problemas em aceitar mais de uma versão, Halo, a série de TV, tem potencial para agradar.

Nota:

Crédito: Divulgação/Chapter Eleven/One Big Picture/Amblin Television/343 Industries/Showtime/Paramount

4/5 Cortanas.

Onde assistir:

Halo, a série de TV, está disponível no Paramount+.

Fonte feed: tecnoblog.net

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