Resenha: O Livro de Boba Fett (sem spoilers)

O Livro de Boba Fett, a minissérie derivada de The Mandalorian, é, tal qual a “matriz”, uma obra focada em abordar outras histórias no universo de Star Wars, passando ao largo (mas não muito longe) de seus principais temas.

A mais recente produção da Lucasfilm gira em torno de um dos personagens mais míticos, o homônimo caçador de recompensas que por mais de 40 anos, angariou uma legião de fãs mesmo nunca tendo recebido muito destaque, sejam nos filmes ou nas séries antigas.

Afinal, O Livro de Boba Fett atendeu às espectativas do público? Vamos dar uma olhada no que ela tem a oferecer, sem spoilers.

Os maus também ficam de saco cheio

A minisssérie começa onde a segunda temporada de The Mandalorian acabou. Boba Fett (Temuera Morrison) assumiu o controle dos territórios de Jabba the Hutt em Tatooine, aquele planetinha arenoso na periferia da galáxia que se sabe lá por que, todo mundo tem interesse em controlar.

Porém, mesmo sendo conhecido como um temido e impiedoso caçador de recompensas, e tendo na mercenária e assassina Fennec Shand (Ming-na Wen) apoio, conselhos e capacidade ofensiva, Boba vai descobrir que assumir o papel de daimyō (termo japonês para “senhor feudal”) não será tão fácil, visto que sua decisão de “governar com respeito ao invés de medo”, e atuar como um verdadeiro governante preocupado com seu povo, entrará em conflito com outros poderes que querem explorar Tatooine, como o Sindicato Pyke e outros daimyōs.

Ao mesmo tempo, O Livro de Boba Fett encontra tempo para estabelecer um histórico para Boba, em cenas de flashback que explicam, de uma vez por todas, como diabos ele saiu vivo do fosso do Sarlacc. Em O Retorno de Jedi, ele foi ridiculamente derrotado por um Han Solo parcialmente cego, because piadinhas de George Lucas.

A proeza já havia sido explicada no antigo Universo Expandido de Star Wars, hoje o selo Legends, removido do cânone de modo a permitir à Disney contar mais histórias. Diferente daquela história, o feito agora oficial é bem menos badass e não foi alcançado sem que Boba pagasse pelas consequências.

Boba Fett sempre foi um personagem esquisito. Desde sua primeira aparição no segmento animado do famigerado e infame The Star Wars Holyday Special (1978), ele conseguiu angariar uma legião de fãs com base apenas em seu design maneiro e personalidade taciturna, visto que suas incursões nos filmes foram bem limitadas e eclipsadas pelo elenco principal, de Luke e Han a Darth Vader.

Outros fatores também ajudaram em erguer uma aura de personagem f$%@o em volta de Boba Fett, incluindo o mítico boneco nunca foi lançado pela Kenner, que mostrava a forma (um tanto ridícula, convenhamos) que o mercenário disparava o foguete de sua mochila a jato.

O selo Legends contou várias histórias em que Boba Fett fazia e acontecia, inclusive enfrentando Darth Vader usando um sabre de luz, bem antes do sabre negro de Mandalore surgir em Star Wars: The Clone Wars, passar por Rebels e ir parar nas séries live-action.

Falando em Clone Wars, a série permitiu aos espectadores verem como o filho/clone não manipulado de Jango Fett deu muita dor de cabeça à República, em sua busca por vingança pela morte do pai. Com o tempo (e talvez devido à queda dos Jedi), o garoto se estabeleceu como um caçador de recompensas e deixou sua vendetta de lado.

Em O Livro de Boba Fett, após um período em que passou com os tuskens, o povo do deserto de Tattonie, o mercenário teve pela primeira algo que nunca experimentou: uma família de verdade, e um lar. Após uma série de desdobramentos, ele chega à conclusão de que se meteu em mais furadas do que é aceitável, por conta de clientes pirados, burros ou ambos, o Império incluso, uma história que culminou com ele indo parar na barriga do Sarlacc.

Para a história funcionar da forma que Dave Filoni e John Favreau queriam, Boba Fett teria que ser humanizado. Assim como ocorreu com outros vilões da Disney em produções recentes, o caçador é mostrado como uma pessoa comum, com preocupações e dúvidas, ao invés de um vilão de quadrinhos bidimensional. O crítico de cinema Robert Ebert dizia que “uma história só é tão boa quanto seu vilão”, e ele não necessariamente precisa de um background, desde que seja um personagem crível e estimule o herói a agir.

Este é o problema com Cruella, um filme que buscou dar motivações “críveis” a uma vilã malvada até o osso (ela queria fazer um casaco com peles de filhotes de dálmatas, não tem desculpa para isso), mas a proposta funciona melhor com Boba Fett, se o entendermos como alguém pulando aqui e ali em busca de garantir seu ganha-pão. Ele não é necessariamente bom ou mal, ao invés disso, faz o que precisa para sobreviver, usando suas ferramentas e o que sabe fazer, caçar pessoas.

O ótimo contra-ponto à decisão de Boba Fett de querer um resto de vida mais tranquila, vem justamente de seu braço direito, a também caçadora Fennec Shand. Depois de The Mandalorian (e uma ponta em Star Wars: The Bad Batch), ela mantém uma relação de honra com Boba por salvar a vida dela, mas ela é bem menos inclinada à visão de seu “chefe”, de aproveitar as benesses de ter seu próprio feudo.

Não pense que ela está propensa à traição, entretanto. Fennec é uma aliada leal e muito hábil, tanto em manuseio de armas de fogo quanto em combate corpo-a-corpo, e é sempre muito bom ver Ming-na sentando a porrada em todo mundo pela frente, do alto de seus 58 anos.

Aparições a rodo

O Livro de Boba Fett usa o mesmo estilo de The Mandalorian, é um faroeste disfarçado de conto espacial. Se na série anterior Filoni e Favreau chegaram a produzir um episódio idêntico a Os Sete Samurais, filme de Akira Kurosawa posteriormente adaptado como o western Sete Homens e Um Destino por John Sturges, aqui há elementos até de Sergio Leone.

Robert Rodriguez, o terceiro produtor da série, dirigiu três dos 7 episódios, incluindo o piloto e o final; outros diretores incluem Bryce Dallas Howard, Kevin Tancharoen, Steph Green e o próprio Filoni, que comandou o penúltimo, mas as participações não param na direção.

A minissérie conta com diversas aparições de personagens vistos na franquia Star Wars, incluindo Luke Skywalker (em CGi e voz rejuvenescida de Mark Hamill melhorados), Ahsoka Tano (Rosario Dawson) e algumas surpresas, além de novatos carismáticos, como a Gangue dos Mods, um bando de jovens que modificam seus corpos com partes de droides, e o wookie Krrsantan, que já havia aparecido nas HQs mais recentes de Star Wars.

Sem falar em Din Djarin, nosso bom e velho Mando (Pedro Pascal), que ganhou dois episódios só para ele.

No mais, foi legal rever a atriz Jennifer Beals, a inesquecível Alex Owens de Flashdance, que balançou o coração de muito adolescente nos anos 1980, como a twi’lek Garsa Fwip, a dona do santuário em Mos Espa.

Conclusão

Como expansão do universo Star Wars, O Livro de Boba Fett é uma bem-vinda minissérie, que serve mais uma vez para mostrar que a galáxia muito, muito distante é grande o bastante para comportar toda categoria de narrativa e personagens, ainda que desta vez, tenha se concentrado quase que exclusivamente nos arredores familiares de Tatooine.

Há alguns solavancos em termo de ritmo, e Boba Fett perdeu uma boa parte de seu magnetismo ao ser mostrado como menos mítico e mais humano, mas há uma série de elementos a se admirar na produção, desde as participações especiais, ao padrão Disney de qualidade em cenografia e efeitos especiais, do nível de produções para o cinema, como The Mandalorian já havia feito antes.

Falando em efeitos, o 5.º capítulo em especial faz uma justa homenagem a Ringworld, embora os mais jovens tenham visto a estação em forma de anel e só pensado na franquia de games Halo, que também se inspirou na obra de Larry Niven.

Aliás, se Ringworld virar mesmo série um dia, ela sofrerá do mesmo mal que afetou a adaptação de O Fim da Infância de Arthur C. Clarke, em relação a Independence Day.

No fim, O Livro de Boba Fett serve para responder perguntas deixadas em aberto, e estabelecer um gancho para a 3.ª temporada de The Mandalorian, que ainda não tem data para estrear, mas é quase certo que este não é um ponto final nas histórias de Boba Fett, Fennec Shand e cia. Eu diria ser um novo começo, com mais possibilidades a serem exploradas.

Nota:

Crédito: Lucasfilm/Golem Creations/Disney)

4/5 Grogus.

Onde assistir?

O Livro de Boba Fett está disponível no Disney+.

Fonte feed: tecnoblog.net

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