Sanções dos EUA visam impedir Rússia de comprar semicondutores

O ânimo entre os Estados Unidos e a Rússia não anda dos melhores, desde que o segundo começou a fazer movimentos claros de uma possível invasão da Ucrânia. Caso isso venha mesmo a ocorrer, a administração do presidente Joe Biden estaria pronta para aplicar sanções econômicas a Moscou, de modo a barrar o fluxo de semicondutores de última geração para o país.

O movimento teria como alvo as indústrias de ponta russas, especificamente militares, mas poderia ter consequências também em outros setores, de telefonia (5G) e telecomunicações a infraestrutura em geral.

Segundo oficiais do governo dos EUA questionados pelo The Washington Post, os detalhes sobre a extensão das sanções que os EUA pretendem impor à Rússia, no caso desta ir às vias de fato e acabar invadindo o país vizinho, ainda estão sendo decididos, mas devem seguir restrições similares às “Regras para Produtos Diretos Estrangeiros”, o pacote de (más) intenções imposto à Huawei, quando a companhia chinesa se viu no centro de uma queda de braço entre a administração de Donald Trump e o governo do premiê Xi Jinping.

Ainda que o grosso da produção de semicondutores seja realizada na China, Taiwan, Vietnã, Índia e outros países, boa parte das patentes e tecnologias envolvidas no seu desenvolvimento pertencem a companhias norte-americanas, incluindo do design ao equipamento de impressão, processos de controle de qualidade e mais.

Dessa forma, o governo impôs um banimento quase total à Huawei, que ficou impedida de comprar qualquer tipo de componente com recursos do país inclusos, o que foi estendido a serviços, barrando empresas como o Google de fornecer qualquer coisa ligada ao Android.

Os resultados foram catastróficos, a empresa perdeu o lugar entre as grandes fabricantes de dispositivos móveis, e sofreu um tremendo baque ao ser preterida no setor de infraestrutura em diversos países. Mesmo no Brasil, ela enfrentou perrengues.

O tempo passou, Trump saiu, Joe Biden entrou, e as restrições à Huawei permaneceram; em 2021, a receita bruta da empresa despencou 30%, embora hajam projeções de que as coisas melhorem no futuro. Do lado do governo dos EUA, não há nenhuma indicação de que as sanções serão retiradas tão cedo.

As “Regras para Produtos Diretos Estrangeiros” seriam uma opção ainda que traumática, melhor para lidar com a Rússia por não envolver o uso de força, de acordo com James Andrew Lewis, SVP e diretor do programa de Tecnologias Estratégicas do Centro para Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS), uma incubadora de estudos políticos de Washington D.C., ligada à Universidade de Georgetown.

Em entrevista ao site Ars Technica, Lewis diz que a opção por sanções econômicas focadas exclusivamente no fornecimento de semicondutores de última geração, “congelaria o momentum tecnológico da Rússia” como um todo. Ainda que o alvo principal sejam as capacidades militares do país, que ficariam sem componentes e com o tempo, incapazes de atualizar seu arsenal, os efeitos seriam sentidos também em outros setores.

De cara, a adoção do 5G no território russo seria completamente comprometida, acabando por deixar o país completamente de fora da próxima geração da telefonia móvel. A Rússia em tese possui fábricas de semicondutores, mas de processos antigos, entre 90 e 65 nm. Haviam planos para implementar uma fábrica mais moderna, baseada no processo de 45 nm (!), mas não se sabe se ele foi concluída.

Hoje, a infraestrutura russa é baseada nos chips ARM Baikal-M, que usam núcleos Cortex-A57, da Baikal Electronics, uma empresa ligada à T-Platforms, que desenvolve supercomputadores. Há também as soluções da Moscow Center of SPARC Technologies (MCST), processadores Elbrus para dispositivos x86, compatíveis com Windows e Linux. Em comum, ambos chips são impressos pela taiwanesa TSMC.

As implicações de impedir um país inteiro de comprar componentes, diferente do que aconteceu com a Huawei, que é uma empresa só, poderão ser sentidos na telefonia, infra em geral, medicina, transportes e etc, com diversas companhias locais sentindo seus efeitos. Mesmo o setor aeroespacial, que já não anda bem das pernas, poderá sofrer com isso.

Paul Triolo, chefe de geotecnologia da empresa de consultoria e risco político Eurasia Group, disse ao site Ars Technica que a investida americana sobre a Rússia, com foco em tecnologias ao invés do poder econômico, é um “território não explorado” e uma tentativa do governo Biden de usar as tecnologias de semicondutores do país como já usam o dólar como barganha, de modo a pressionar opositores.

Porém, tanto por ser uma abordagem sem precedentes, quanto por se tratar da Rússia neste caso, as consequências podem ser imprevisíveis. Tudo vai depender de como Putin vai proceder a seguir.

Fonte: The Washington Post, Ars Technica

Fonte feed: tecnoblog.net

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