Sensações de dor, temperatura e gosto são neurologicamente ligadas, diz estudo

Biólogos da University of Oklahoma sugerem, em um estudo publicado na revista Journal of Neuroscience, que o cérebro utiliza uma mesma região comum para categorizar sensações de dor, temperatura e gosto. E mais: aparentemente, ele também agrupa essas sensações como agradáveis ou aversivas, uma descoberta que pode ajudar tanto no entendimento de como o nosso corpo responde à dor e como podemos tratá-la utilizando esse conhecimento.

Ao comer uma pimenta forte, por exemplo, a sensação picante gerada é, na verdade, uma sensação de dor. A ela, se segue a ativação e fibras relacionadas à dor que estão inervadas na língua, sensíveis a calor. Pimentas como a chili têm um composto químico chamado capsaicina, que ativa as fibras da dor e enganam, de certa forma, os neurônios, para que reajam como se houvesse um estímulo de calor na boca. É por isso que comidas picantes fazem o corpo reagir tentando remover o calor, dilatando veias e suando — já que acredita estar superaquecendo.

Alimentos picantes, como a pimenta, ativam o centro de dor e temperatura do cérebro (Imagem: seventyfourimages/Envato)
Alimentos picantes, como a pimenta, ativam o centro de dor e temperatura do cérebro (Imagem: seventyfourimages/Envato)

Metodologia da pesquisa

Já era sabido que temperatura e gosto podiam ativar as mesmas células cerebrais em alguns casos, mas raramente isso era estudado sistematicamente. Assim, a equipe de cientistas procurou descobrir se as respostas a temperatura vistas em uma parte específica do cérebro podiam mesmo ser atribuídas às fibras relacionadas à dor e calor simultaneamente (neste caso, as inevardas na cabeça, face e boca).

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Através de tecnologia genética moderna, eles inseriram uma proteína nas células de temperatura/dor de ratos anestesiados para estimular as fibras correspondentes artificialmente. O controle das células foi feito através de luz azul: ao iluminar as células, as proteínas agiam, funcionando como um interruptor.

Descobertas

O principal achado dos cientistas é o fato de que os neurônios há muito estudados como sendo relacionados a gosto na verdade respondem a estímulos artificiais das células de temperatura e dor, como já citamos. Parte da resposta neural da dor é carregada por circuitos neurais envolvidos com a sensação de calor: é por isso que, ao tocar em um fogão muito quente, a dor é “queimante”. Juntando a sensação gustativa a isso, é só pensar que tudo o que comemos é esquentado ou esfriado para o consumo. O efeito disso na forma com que percebemos certos sabores é grande.

A ligação entre a sensação de sabor e temperatura à sensação de dor poderá ajudar em tratamentos terapêuticos (Imagem: twenty20photos/Envato)
A ligação entre a sensação de sabor e temperatura à sensação de dor poderá ajudar em tratamentos terapêuticos (Imagem: twenty20photos/Envato)

A grande questão é que a maioria dos cientistas que estudaram a questão gustativa se ativeram apenas aos circuitos neurais relacionados a isso, e os que estudaram a dor se ativeram a respostas relacionadas apenas a ela. A descoberta de que esses circuitos neurais têm um uso comum, mais especificamente, no mesencéfalo, mostra um entrelaçamento ainda mais sistemático do cérebro: gostos e temperaturas “preferidas” são separadas de gostos e temperaturas adversas de acordo com as respostas dessa parte do cérebro.

Gostos doces são bons e preferíveis em detrimento de sabores amargos porque eles podem significar toxicidade, ou seja, perigo. Tanto os ratinhos estudados quanto os seres humanos também têm temperaturas preferidas, como ambientes frescos ou mornos ao invés de muito frios ou muito quentes. Essa separação traz novos insights sobre a interação desses sentidos, e pode ajudar os cientistas a entender as respostas do cérebro a estímulos que causam dor. Em outras palavras, novas estratégias terapêuticas para o controle e mitigação da dor poderão ser desenvolvidas.

Fonte: Journal of Neuroscience

Fonte feed: canaltech.com.br

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