Cinema no Brasil: é seguro voltar às salas de exibição agora?

534 dias. Esse foi o período em que a professora Aline Pereira ficou longe dos cinemas. Habituada a frequentar as salas com regularidade, ela e a família se viram forçadas a deixar a paixão de lado e ficar quase um ano e meio sem conferir as estreias por causa da pandemia da covid-19. E após literalmente contar os dias até o seu retorno, a moradora de Natal diz ter se emocionado com a volta. “Eu chorei quando entrei na sala. Mesmo com um pouco de medo, foi o primeiro lugar que voltamos a frequentar depois da segunda dose da vacina”, conta.

E Aline não está sozinha nesse entusiasmo. A confiança do público para retornar realmente aumentou e, impulsionado também pela grande quantidade de estreias que ficaram represadas ao longo de todo esse tempo, o que estamos vendo é uma corrida de volta aos cinemas. De acordo com a Ingresso.com, a venda de ingressos na primeira quinzena de novembro foi 40% superior ao mesmo período de 2019 — ou seja, de antes da pandemia.

De acordo com o CEO da empresa, Mauro Gonzalez, esse novo cenário contrasta muito com a realidade que todo o setor cinematográfico enfrentou não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. “A gente sofreu muito. Ficamos muito tempo sem vender quase nada”, conta. “Mas agora o pessoal está voltando e está voltando ensandecido, querendo sair, se divertir e fazer as coisas”.

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O distanciamento social é a nova regra não só nos cinemas (Imagem: Beatriz Vaccari/Canaltech)

E o aumento na venda de ingressos que supera até mesmo os índices pré-pandêmicos deixa isso claro. Segundo Gonzalez, é inegável que essa ânsia por um estado de normalidade iria levar muita gente para o cinema — como aconteceu com Aline —, mas há também outros fatores que ajudam a explicar essa guinada positiva que o setor vem encarando nos últimos meses.

Para o executivo, esse bom desempenho crescente que vem sendo visto no setor desde o último mês de junho é reflexo do retorno da confiança do público, algo que só foi obtido graças a um conjunto de razões. “Os protocolos adotados pelas empresas foram importantes, mas também há tudo isso o que a gente está vivenciando hoje, com a queda dos casos de covid-19 e de óbitos derivados da vacinação expressiva que o Brasil está tendo”, diz. “Tudo isso afeta a confiança das pessoas”.

De volta às salas

E, de fato, sentir-se confiante foi fundamental para vários brasileiros na hora de voltar para uma sala de cinema. O caso da natalense Aline foi justamente esse: ela conta que só criou coragem de levar a família para uma sala de exibição depois de tanto tempo quando todos já tinham tomado a segunda dose da vacina. “Apesar do medo normal do vírus, como sinto em qualquer lugar quando saio de casa, me senti segura dentro do cinema”.

Para garantir distanciamento, cinemas passaram a adotar bloqueio manual das poltronas (Imagem: Beatriz Vaccari/Canaltech)

Isso porque, segundo a professora, foram necessários alguns cuidados adicionais para pudesse se sentir segura nesse retorno aos cinemas para assistir a Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis. Ela conta que se preocupou em tomar todos os cuidados na hora de comprar o ingresso, preferindo lugares mais afastados e sessões mais vazias. “A gente já gostava de sentar na frente, então sempre ficávamos longe de todo mundo. Além disso, sempre optamos por horários mais tarde e vazios”, explicou à reportagem do Canaltech. “A gente já fugia de gente antes, então nada mudou”.

Com o ilustrador Val Deir, a experiência foi bem semelhante — ainda que um pouco mais demorada. Morador de Osasco, na Grande São Paulo, ele conta que só se sentiu confortável para voltar a uma sala de cinema no último mês de novembro, quando decidiu assistir a Eternos, o mais recente filme da Marvel. “Eu comecei a ter um pouco mais de confiança depois de ter tomado a segunda dose e por acreditar que o cinema estava seguindo restrições de distanciamento”, conta.

Segundo ele, antes de comprar o ingresso, foi preciso procurar por sessões mais vazias e, na hora de escolher o assento, buscar lugares que garantissem uma distância considerável e segura de outras pessoas. Ainda assim, ele conta que se sentiu desconfortável com algumas situações. “Mesmo com todo o cuidado na hora de escolher, um casal sentou bem próximo de mim e ficou a sessão inteira sem máscara, comendo pipoca”, diz. “Isso me deixou bem incomodado”.

Primeiro filme da Marvel exclusivo dos cinemas durante a pandemia, Shang-Chi foi o motivo de muita gente para voltar aos cinemas (Imagem: Divulgação/Marvel Studios)

O estranhamento ao ver pessoas comendo pipoca e bebendo refrigerante durante o filme, aliás, parece ser uma constante nessa realidade pandêmica. Afinal, depois de tanto tempo usando máscaras e se protegendo ao máximo contra a covid-19, é natural o desconforto quando alguém tira a proteção — ainda mais em uma sala fechada. O roteirista Rafael Waltrick, por exemplo, relatou ao Canaltech que também ficou incomodado quando viu pessoas fazendo algo que sempre foi tão corriqueiro.

Ainda assim, ele diz que isso não atrapalhou a experiência de volta ao cinema. Ele foi a uma sessão de Duna em Curitiba e disse que se sentiu bastante confortável quando viu as medidas que os cinemas estavam adotando. “Ao selecionar os assentos no site da empresa, automaticamente os assentos ao lado eram bloqueados, o que impediria que um estranho sentasse logo ao lado”, detalha. “Isso me deixou bem mais tranquilo”.

Soluções encontradas

Esse sistema de bloqueio automático foi uma das principais medidas adotadas pelos cinemas para garantir o distanciamento social recomendado nas sessões e, assim, reconquistar a confiança do público principalmente durante o início da retomada das atividades, entre os meses de maio e outubro de 2021.

O chamado X-Block desenvolvido pela Ingresso.com passou a ser usado tanto nas vendas online quanto em bilheterias físicas em todo o Brasil, oferecendo um distanciamento dinâmico à medida que o usuário selecionava seu assento, criando uma espécie de bolha em volta.

Em cidades em que o distanciamento foi dispensando, salas já estão lotadas (Captura de Tela: Durval Ramos/Canaltech)

De acordo com o CEO da empresa, a plataforma foi criada em junho de 2020, quando ainda se acreditava que o fechamento dos cinemas por causa da pandemia de covid-19 seria algo breve. “Na época, eu brinquei que iríamos gastar horas de desenvolvimento para criar algo que usaríamos por apenas dois meses e que todo esse investimento seria jogado fora”, relembra Gonzalez. “Só que, no fim, o X-Block foi algo que se provou super útil”.

Ele conta que a ferramenta foi tão importante para reconquistar a confiança do público e mostrar que os cinemas estavam seguindo todos os protocolos que exibidores que adotaram a tecnologia viram suas vendas aumentarem. “A gente percebeu que quem adotou o X-Block passou a rankear melhor na venda online e isso foi muito legal”, conta o executivo. Ainda assim, ele comemora que a maior parte dos cinemas parceiros da Ingresso.com adotaram o sistema. “Quando eu vi que a pandemia estava se prolongando, percebi o quanto isso foi importante para trazer conforto para as pessoas e se reverteu em vendas. Ficou claro como foi bom ter feito [o sistema]”.

Além disso, Gonzalez destaca outras medidas adotadas para garantir o cumprimento dos protocolos sanitários nos cinemas, como o incentivo para o uso do ingresso virtual, seja para quem comprava pela internet quanto para quem usava os totens nas portas dos cinemas.

Cada local, uma realidade

Apesar de muitos cinemas terem adotado o X-Block e de outras medidas de segurança sanitária em todo o país, a experiência do público tanto com a compra de ingresso quanto dentro das salas foi bem diferente. O próprio caso do ilustrador Val Deir é um exemplo disso, que disse ter sido pego de surpresa com a falta de distanciamento em sua sessão.

Isso acontece porque a queda nos casos e o aumento da vacinação fez com que estados e municípios afrouxassem as medidas de isolamento e cada região respondeu a isso de uma forma diferente. Osasco, por exemplo, segue o chamado Plano São Paulo, do governo do estado, que atualmente permite a lotação máxima nas salas. Contudo, apesar de dentro das normas sanitárias vigentes, a proximidade do público incomodou o artista, que disse se questionar se volta tão cedo para uma sala.

Venda de ingressos em cidades com algum tipo de restrição trazem alerta (Captura de tela: Durval Ramos/Canaltech)

Já em Natal, a professora Aline Pereira disse ter se surpreendido com a exigência do comprovante de vacinação na bilheteria. “Na primeira vez que fomos, não pediram nada. Só que, na outra vez, tinha uma funcionária exigindo o comprovante antes de liberar os ingressos”, conta. Essa mudança é reflexo dos protocolos adotados no Rio Grande do Norte, que passou a exigir o passaporte da vacina para atividades em ambientes fechados.

Segundo o CEO da Ingresso.com, essa variedade de medidas sanitárias em todo o país exige um grande esforço em conjunto da empresa com os exibidores para garantir que todas as sessões estejam de acordo com as legislações locais. “Se uma cidade está exigindo o distanciamento, mas não o passaporte, o sistema vai ativar o X-Block. Mas se não tem distanciamento e precisa da vacina, vai ter um aviso disso [na hora de comprar o ingresso online]. Cada cidade tem um comportamento diferente”.

Mas é seguro voltar ao cinema?

Apesar de todo esse entusiasmo por parte do público e também dos exibidores, a dúvida sobre a segurança nesse retorno ao ci nema permanece — ainda mais em um contexto em que muitas sessões estão lotando, como a pré-venda de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa já aponta.

A médica infectologista do Hospital Marcelino Champagnat, Camila Ahrens, explicou ao Canaltech que não há como garantir 100% de segurança, mesmo seguindo todos os protocolos recomendados. “O cinema ainda é um dos lugares mais perigosos em relação à transmissão da covid”, alerta a especialista. “Se você for, tem que estar ciente do risco. Não vá pensando que você está isento, porque essa é uma ilusão”.

Sessões mais vazias são a melhor opção, segundo especialista (Imagem: Luka Dakskobler/Getty)

Segundo ela, o grande problema é que o cinema é um ambiente fechado, com pouca circulação de ar e sem janelas, o que é muito propício para que o vírus circule livremente, ainda mais quando as pessoas podem tirar as máscaras para comer e beber. Tanto que a médica disse ainda não ter criado coragem para voltar a uma sessão, mesmo já tendo tomado as três doses da vacina e lidado na linha de frente da doença desde o início da pandemia.

Ainda assim, ela diz que não há como impedir o setor de trabalhar e, por isso, pede que cada pessoa avalie bem os riscos, as suas condições e a própria sessão escolhida. “Ir ou não ao cinema é uma decisão de cada pessoa. Se você não se sente confortável, não vá. Mas se for, evite tirar a máscara para comer e beber e siga todos os protocolos que a gente já conhece tão bem”.

Além disso, Ahren classifica ter tomado as duas doses da vacina como condição básica para quem quer ir ao cinema. E ela traz algumas dicas que podem ajudar na hora de diminuir os riscos, como evitar sessões muito cheias, buscando horários e dias alternativos. Com menos pessoas na sala, a chance de entrar em contato com o vírus é menor, o que diminui a exposição.

Ela também atenta ao tipo de poltrona que o cinema oferece. “O assento tem que ser de algum material como o couro, que não retém umidade”, explica. “Se for de tecido, ele pode ficar úmido e isso pode virar repositório para o vírus”.

Fonte feed: canaltech.com.br

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