Sons binaurais podem ser terapêuticos ou psicotrópicos?

Você já ouviu falar do sons binaurais (ou binaural beats, termo inglês mais popularizado)? Nos últimos anos, o consumo de tais experiências sonoras têm sido apontado como uma forma de ajudar a dormir, diminuir o stress, ansiedade e cognição — além de da proposição de que poderiam, acima de tudo, produzir efeitos cerebrais similares ao uso de drogas.

Algumas pesquisas já buscaram investigar o efeito dos sons binaurais, e, até agora, se descobriu que eles podem realmente ajudar no alívio de sintomas de dor, stress e uso de analgésicos em pacientes com dores crônicas. Já no auxílio da atenção, no entanto, nenhuma evidência positiva foi encontrada — e quanto a efeitos psicoativos, ou seja, complementares ou substitutos ao uso de drogas, não há pesquisas conclusivas sobre o assunto.

Estudos apontam efeitos positivos de sons binaurais na memória e stress, mas há questionamentos se sons relaxantes comuns não fazem o mesmo efeito  (Imagem: Rawpixel/Envato)
Estudos apontam efeitos positivos de sons binaurais na memória e stress, mas há questionamentos se sons relaxantes comuns não fazem o mesmo efeito (Imagem: Rawpixel/Envato)

O que são sons binaurais?

Os sons binaurais são ilusões auditivas criadas quando dois tons puros de diferentes frequências são escutados por cada ouvido. Essa diferença faz que o nosso cérebro processe os tons como se fossem uma terceira frequência, que se acredita ser capaz de produzir toda uma série de efeitos, como os descritos no início da matéria. Esse efeito na percepção foi descoberto por Heinrich Wilhelm Dove, em 1841, e descrito na literatura científica pela primeira vez em 1973.

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Eles são terapêuticos?

Em estudo publicado em 2018 na revista Psychological Research, pesquisadores da Universidad Nacional de Educación a Distancia, em Madrid, investigaram os efeitos dos sons binaurais no cérebro e encontraram efeitos positivos na memória, ansiedade e alívio da dor. Quanto à atenção, no entanto, há resultados conflitantes, significando que os sons podem não ajudar na concentração.

Outros estudos, como o de pesquisadores da University of Thessaloniki, na Grécia, feito com experimentos duplo-cegos, randomizados e cruzados, descobriram efeitos de alívio da dor e do stress em comparação com uso de placebo.

Não há consenso na comunidade científica, no entanto. Um estudo conjunto entre cientistas canadenses e franceses, publicado em 2020 na revista científica eNeuro, concordam que há um efeito produzido pelos sons binaurais, mas acreditam que seu benefício não seja maior que o de outros tipos de sons relaxantes, como playlists de música clássica ou de barulhos da natureza por aí.

Eles são psicotrópicos?

Esses sons já foram incorporados em músicas, trilhas de fundo e outros produtos, como compilações para meditação. Em alguns lugares, a propaganda é de que eles sejam “drogas digitais”, ou seja, que tenham efeitos psicoativos ou psicotrópicos no cérebro. Papers já foram publicados demonstrando que muitas pessoas ouvem sons binaurais enquanto utilizam substâncias para “amplificar a experiência” ou mesmo as substituem pela suposta viagem auditiva.

Não há conclusões definitivas sobre o efeito psicotrópico de sons binaurais, mas as implicações de uma descoberta dessa seriam inúmeras (Imagem: vadymvdrobot/Envato)
Não há conclusões definitivas sobre o efeito psicotrópico de sons binaurais, mas as implicações de uma descoberta dessa seriam inúmeras (Imagem: vadymvdrobot/Envato)

As evidências de que tais experiências possam ter um efeito similar ao de drogas psicoativas, no entanto, são bem limitadas. Não há, até o momento, estudos laboratoriais que comparem a ingestão de substâncias com os substitutos binaurais, o que poderia trazer respostas mais definitivas.

A dra. Monica Barratt, autora de uma pesquisa que entrevistou cerca de 30.000 pessoas acerca de sons binaurais, comenta que descobertas futuras podem questionar nossa percepção sobre as drogas, e pode ser que “drogas não tenham de ser substâncias que consumimos, mas tenham a ver com como uma determinada atividade afeta o cérebro”. As implicações legais, clínicas e sociais também serão postas em questão; mas, primeiro, a eficácia das “drogas digitais” terá de ser avaliada.

Fonte: eNeuro, European Journal of Pain, Psychological Research 1, 2, Drug and Alcohol Review

Fonte feed: canaltech.com.br

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