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Não existe uma forma segura de debater celebridades e transtornos alimentares

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As redes sociais se transformaram em um campo minado quando o assunto é a magreza extrema de artistas famosas. Basta abrir qualquer plataforma para encontrar compilações de "antes e depois", montagens com as evidências mais marcantes de perda de peso e suposições generalizadas sobre o uso de medicamentos da classe chamada de agonistas do receptor GLP-1. A maioria dessas postagens surge disfarçada de preocupação genuína, mas, de acordo com profissionais ouvidos ao longo desta reportagem, até mesmo os comentários bem-intencionados costumam desinformar a população e funcionar como gatilho ou fonte de comparação prejudicial para pessoas em processo de recuperação.

A polêmica ganhou força especial após o lançamento do videoclipe de "Petal", nova faixa e álbum de Ariana Grande. Na produção, a artista aparece em uma sequência interminável de testes para executivos misóginos que a pressionam a emagrecer e a fazer procedimentos estéticos. Praticamente todos os comentários no vídeo manifestam preocupação com a aparência física da cantora. Atrizes como Jameela Jamil também se manifestaram, classificando o material como irresponsável por glamorizar uma imagem profundamente prejudicial para jovens fãs.

Após a repercussão, a equipe de Ariana anunciou que ela deixaria uma temporada teatral programada no circuito de palcos de Londres e que tiraria um merecido descanso das aparições públicas após encerrar a turnê "Eternal Sunshine", alegando o assédio midiático constante. A nota, porém, não apaziguou o debate: parte dos usuários afirmou estar sendo tratada como vilã por simplesmente demonstrar preocupação com a saúde e a influência da estrela.

A preocupação é compreensível, mas o contexto é mais amplo do que parece. O ressurgimento do padrão estético conhecido como "heroína chique", que ganhou força com a ascensão e o aparente declínio do movimento de positividade corporal da década de 2010, coincidiu com um aumento preocupante na procura de tratamento por parte de jovens, em quadros que podem colocar a vida em risco.

Para Allison Logue, terapeuta de família com uma década de experiência no tratamento de pacientes com transtornos alimentares, a divulgação dessas imagens é, na melhor das hipóteses, inútil. Compartilhar registros comparativos é uma prática comum entre pessoas que sofrem com esses quadros, lembra a especialista. Boa parte das postagens virais se confunde com material produzido em espaços que estimulam a anorexia, onde indivíduos vulneráveis usam fotos de celebridades como referência e competição.

A terapeuta destaca ainda que, quando uma celebridade recebe uma onda de atenção em razão do emagrecimento, isso pode incentivar pessoas doentes a buscarem a mesma aparência e o mesmo tipo de preocupação alheia. A obsessão coletiva com o corpo de figuras famosas também reforça a sensação de que todos estão julgando a sua própria imagem, ampliando angústias já existentes.

Embora reconheça que a aparência de Ariana é motivo de preocupação há anos, Logue afirma que, como desconhecida da vida pessoal da artista, é impossível afirmar se ela enfrenta um transtorno alimentar. A cobertura desproporcional de corpos magros obscurece um fato essencial: pessoas de qualquer peso podem desenvolver esses transtornos.

No consultório, a profissional evita usar a aparência do paciente como ponto de partida para uma conversa sobre o problema, já que múltiplos fatores costumam estar envolvidos. Com figuras públicas, esses elementos permanecem ocultos, restando ao público apenas o julgamento sobre o corpo visível.

Mesmo quem alega se preocupar menos com Ariana e mais com o impacto sobre fãs jovens acaba caindo em uma armadilha, segundo a terapeuta. Discutir o corpo de celebridades não combate de forma eficaz a valorização social da magreza no cotidiano.

A linha de apoio da Aliança Nacional contra Transtornos Alimentares oferece informações sobre opções de tratamento pelo telefone 1-866-662-1235, nos Estados Unidos, e também pelo envio de mensagem de texto com a palavra ALIANÇA para o número 741741 em situações de crise. Mais dados estão disponíveis no site da Associação Nacional de Transtornos Alimentares.

Um indicador claro de que as postagens virais não ajudam quem sofre é que quase nenhuma inclui links de apoio ou canais de ajuda. Muitas carregam um tom inegável de maldade, deboche ou descaso. Circulam montagens de artistas com legendas como "não é só com a Ariana", quase sempre ignorando homens famosos. Há ainda quem utilize ferramentas de inteligência artificial para distorcer fotos e produzir memes, além de análises minuciosas de cada parte do corpo para declarar alguém magra demais.

Pessoas em diferentes fases de recuperação lidam diretamente com o problema. Natália Franz, atriz eslovaca, comentou em um vídeo sobre o tema dizendo que gostaria que as pessoas tivessem se preocupado com ela quando estava deixando de se alimentar, em vez de normalizarem a situação. Em conversa, Franz afirmou temer a influência que as celebridades exercem sobre o público e desejar que o debate atual mude a cultura para a própria filha. Ela também lembrou que suas questões com a imagem corporal começaram em casa e alertou para o cuidado com a forma como se discute comida e aparência na presença de crianças.

A vivência pessoal com transtornos alimentares costuma trazer uma perspectiva mais nuançada, como se observa em algumas das conversas mais equilibradas nas redes. Ainda assim, esses transtornos são fenômenos complexos, multifacetados e distintos de pessoa para pessoa. Observadores externos não conseguem deduzir o que se passa na vida íntima de uma celebridade a partir das informações limitadas que ela compartilha, mas isso não impede que sejam classificados como "coniventes" pessoas próximas ou que um afastamento da vida pública seja automaticamente interpretado como internação para tratamento.

Para Keesha Amezcua, diretora clínica do centro de tratamento Alsana, tratar o tema de modo alarmista e sensacionalista não inspira ninguém a buscar ajuda. Grande parte dos usuários das redes sociais não está informada, não recebeu educação adequada e desconhece o quanto sua participação nesse tipo de debate pode ser destrutiva, conclui a especialista.

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