Uma investigação revelou que aproximadamente 150 deputadas e deputadas de 22 países europeus tiveram suas imagens utilizadas em sites de pornografia deepfake nos últimos anos. A pesquisa, conduzida pelo especialista Benjamin Shultz, analisou cerca de 160 domínios que hospedam esse tipo de conteúdo abusivo e identificou que ao menos 138 mulheres parlamentares foram alvo ou mencionadas nessas plataformas. Em contraste, apenas nove deputados homens apareceram em qualquer um dos sites analisados.
De acordo com os cálculos do pesquisador, a probabilidade de deputadas serem visadas por ecossistemas de deepfake é 33 vezes maior do que a de deputados. Suzana Kröger, parlamentar holandesa do grupo Países Baixos Progressistas, que foi afetada por essa forma de violência digital, manifestou sua indignação diante das descobertas. "Deepfake pornográfico faz parte de uma tendência muito maior de ódio e intimidação online contra mulheres e políticas", afirmou Kröger, descrevendo as conclusões como "profundamente perturbadoras" e úteis para revelar a dimensão do abuso.
O estudo, publicado pelo think tank alemão de democracia digital Transformação Digital Agora, abrange membros de parlamentos nacionais de todos os 27 países da União Europeia. Shultz, bolsista da organização e pesquisador principal do Projeto Luz Solar Americano, compilou dados de mais de 5.800 parlamentares europeus em julho e utilizou mecanismos de busca personalizados para localizar onde eles apareciam nas plataformas de deepfake.
Parlamentares da Alemanha, Países Baixos, Itália e França foram os mais representados nos sites, segundo a pesquisa. Além disso, quanto mais alta a posição de um parlamentar, maior a probabilidade de ser alvo. Os sites também incluíam referências a celebridades, jornalistas e outras figuras públicas. As plataformas continham páginas com nomes de parlamentares, fotos oficiais e, em alguns casos, perfis em redes sociais e informações pessoais. Algumas seções incluíam "avaliações" dos corpos das mulheres, conforme relato do pesquisador.
Shultz alertou individualmente todos os parlamentares afetados e ofereceu orientações sobre como remover esse conteúdo. Ao lado das biografias dos parlamentares, havia frequentemente links para aplicativos descritos como "desnudificadores" ou ferramentas próprias das plataformas que prometiam remover roupas de imagens digitalmente. "Com todas as imagens, todas as informações e um link direto para a ferramenta, em três cliques você pode gerar", explicou Shultz. "Isso é tão prejudicial quanto hospedar o conteúdo."
Desde que as deepfakes criadas por inteligência artificial surgiram no final de 2017, a tecnologia necessária para produzi-las se tornou muito mais acessível, e os resultados das ferramentas ficaram mais realistas. Ao longo do tempo, milhões de imagens e vídeos não consensuais criados por inteligência artificial foram produzidos, principalmente por homens e meninos, frequentemente usados para assediar, intimidar ou chantagear mulheres e meninas.
Henry Ajder, consultor de inteligência artificial e especialista em deepfake que acompanha esse ecossistema desde 2018, afirmou que essas plataformas são projetadas para funcionar como negócios. "Infraestrutura completa está montada para realizar isso em larga escala com facilidade", declarou. Ele considerou as descobertas importantes para que autoridades europeias compreendam a gravidade do problema.
Legisladores têm atuado lentamente para criar leis que abordem os danos causados por deepfakes. Contudo, nos últimos meses, algumas legislações começaram a ser implementadas. Reino Unido e União Europeia planejam proibir serviços de desnudificação digital. Nos Estados Unidos, a Lei de Remoção de Conteúdo resultou no fechamento de pelo menos dois grandes sites de deepfake que publicavam milhares de imagens e vídeos de celebridades. Investigações jornalísticas que revelaram os responsáveis também levaram ao encerramento de grandes plataformas.
Antes da publicação desta matéria, verificou-se que pelo menos seis dos domínios mencionados na pesquisa foram recentemente removidos da internet, reduzindo o número total de representações de parlamentares europeus afetados. Shultz continua pesquisando a quantidade de representações de parlamentares do Reino Unido e dos Estados Unidos. Após os sites serem desativados, houve uma "diminuição significativa" no número de representações desses políticos americanos que haviam sido expostos há dois anos.
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