O condado de Maricopa, no Arizona, voltou a figurar no centro das polêmicas sobre supostas fraudes eleitorais nos Estados Unidos. O presidente Donald Trump declarou recentemente que se trata de "um condado muito, muito desonesto", reacendendo controvérsias que marcaram as eleições de 2020.
As semelhanças com o período pós-eleitoral de 2020 são marcantes. Naquela ocasião, Maricopa se tornou o principal alvo dos defensores da teoria de que a eleição foi roubada. Agora, a menos de duas semanas das eleições de meio de mandato, ativistas extremistas voltam a intensificar esforços para minar a confiança no processo de votação.
Kate Starbird, professora da Universidade de Washington e cofundadora do Centro para um Público Informado, explicou à revista Wired que o condado se transformou em um cenário familiar para rumores eleitorais. "Canetas sharpees sangrando nas cédulas em 2020. Máquinas de contagem não lendo cédulas em 2022. Maricopa se tornou um lugar onde problemas eleitorais surgem ou parecem surgir, e onde esses problemas são integrados a teorias conspiratórias sobre eleições fraudulentas", afirmou.
Embora nunca tenha sido encontrada evidência de fraude generalizada nas eleições do condado, o FBI apreendeu dezenas de discos rígidos e servidores contendo dados da auditoria realizada pela empresa Cyber Ninjas em março deste ano. A atenção sobre o local foi amplificada na semana passada, quando Trump declarou que os funcionários eleitorais "deveriam ter vergonha" após 3 mil cédulas terem sido enviadas antecipadamente por engano.
No último fim de semana, a organização We the People USA Alliance, fundamental nas acusações infundadas de fraude em 2020, publicou um vídeo na plataforma X com a legenda "PEGOS". O conteúdo mostra dois funcionários do condado trabalhando tarde da noite em 7 de outubro no centro de tabulação de cédulas, insinuando que estavam manipulando equipamentos ao "inserir pen drives em computadores durante uma eleição ativa".
O vídeo alcançou mais de um milhão de visualizações, sendo amplificado por figuras como Kari Lake, ex-apresentadora de televisão e atuais conselheira sênior da administração Trump, que perdeu disputas pelo governo do estado e pelo Senado americano em 2022 e 2024, respectivamente.
A presidente do Conselho de Supervisores do Condado de Maricopa emitiu uma nota desmentindo as alegações, esclarecendo que os funcionários estavam realizando "trabalho autorizado e necessário para atualizar software e carregar dados eleitorais em um terminal de computador que não está conectado à internet ou aos equipamentos de tabulação de cédulas".
Shelby Busch, fundadora da We The People USA Alliance e representante do Comitê Nacional Republicano, não se deu por satisfeita e entrou em contato com o registrador do condado, Justin Heap, alinhado com Trump. O escritório de Heap então solicitou uma investigação ao FBI.
A agência pediu a um investigador do escritório do procurador geral do Arizona para apurar o caso, que rapidamente concluiu não haver nada a investigar. O FBI declarou que "a integridade eleitoral é uma das principais prioridades" da instituição.
Na quinta-feira seguinte, Busch apareceu no podcast War Room, apresentado por Steve Bannon, repetindo as alegações e afirmando ter entrado em contato com o Departamento de Segurança Interna e o Departamento de Justiça para novas investigações.
De acordo com Starbird, as teorias conspiratórias eleitorais frequentemente reutilizam narrativas semelhantes, tornando-as facilmente consumíveis pelo público. "O condado de Maricopa se tornou um estereótipo, um cenário suspeito para rumores eleitorais. É um bloco de construção pronto para uso em novos rumores ou teorias conspiratórias", completou a pesquisadora.
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