A gigante do entretenimento Disney encontrou uma estratégia incomum para absorver pessoal e tecnologia de uma startup de inteligência artificial: utilizar um processo de recuperação judicial como caminho para fugir de responsabilidades legais queassesavam a empresa-alvo.
A Character.AI pediu recuperação judicial no dia 12 de outubro, mas documentos judiciais revelam que a decisão fazia parte de um acordo calculado. A Disney já havia contratado a maioria dos funcionários da startup em setembro, incluindo o executivo Karandeep Anand, que deixa o cargo de diretor executivo. Na mesma época, a empresa de entretenimento pagou 5,5 milhões de dólares e um depósito de 2 milhões de dólares como parte do negócio.
O acordo prevê que a Disney permaneça com os funcionários contratados enquanto ajuda a Character.AI a manter suas operações por cinco meses. Caso seja escolhida como licitante vencedor nos próximos meses, a empresa concordou em pagar mais 12,5 milhões de dólares. Se não for selecionada, receberá o depósito de volta acrescido de uma taxa de cancelamento.
A Character.AI enfrenta dezenas de processos judiciais que alegam que seus robôs conversacionais encorajaram menores de idade a se automutilar e até a matar seus próprios pais. Uma coalizão de 46 estados e territórios americanos abriu investigações sobre a empresa. Documentos judiciais mostram que as autoridades encontraram capturas de tela de chatbots incentivando adolescentes a esconder ferimentos de automutilação e a tirar a vida dos pais.
Especialistas em direito corporativo alertam que o modelo adotado representa uma evolução perigosa do conhecido "reverse acquihire", uma operação em que um comprador busca contratar funcionários e obter licenças tecnológicas sem assumir os passivos da empresa-alvo. "Existem décadas de jurisprudência corporativa para lidar com compradores que querem absorver ativos sem responsabilidades", afirmou John Newman, professor de direito da Universidade de Memphis. "Mas esse caso foi estruturado de uma forma que essas proteções não foram capazes de prevenir."
Não é a primeira vez que a Character.AI realiza uma operação desse tipo. Em agosto de 2024, o Google pagou 2,7 bilhões de dólares para licenciar tecnologia da startup e contratou seus fundadores. A empresa também foi incluida como ré em processos relacionados ao suicídio de um adolescente de 14 anos, embora tenha argumentado que não poderia ser responsabilizada por ocorrer antes do acordo de licenciamento. Em janeiro deste ano, o Google e a Character.AI chegaram a um acordo para resolver essas ações judiciais.
Se o negócio com a Disney for aprovado pela justiça, a empresa de entretenimento terá em seu quadro funcionários e grande parte da estrutura tecnológica da Character.AI, mas poderá evitar os processos que contribuíram para a queda da startup. Os estados que participam das investigações informaram que reservam o direito de contestar qualquer plano de recuperação judicial.
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