As empresas emergentes em estágio avançado frequentemente enfrentam um dilema peculiar durante processos de captação. Muitas vezes, precisam vender mais ações do que planejavam, sob o risco de desgostar investidores de risco que já fazem parte de sua base acionária. Esse cenário se manifestou recentemente com a Databricks, empresa especializada em inteligência artificial e grandes volumes de dados, durante sua mais recente rodada de R$ 5 bilhões anunciada na quinta-feira, conforme revelou Ali Ghodsi, diretor executivo e um dos fundadores, em entrevista.
Ghodsi explicou que a intenção inicial era levantar apenas R$ 1 bilhão. Contudo, a publicação americana The Information divulgou uma matéria durante um evento da empresa em junho, anunciando que a Databricks estava em negociações avançadas para uma grande captação. "Estávamos totalmente concentrados na conferência e não estávamos focados em captação de recursos. Assim que a matéria saiu, meu telefone não parou de tocar. Foi o pior momento possível", lembrou o executivo. O artigo acabou transformando a notícia em uma profecia autorrealizável.
O interesse dos investidores foi extraordinário. Apenas no grupo seleto de potenciais investidores que a empresa analisava, houve uma demanda de R$ 15 bilhões. Quando existe tamanha vontade de participar de um negócio, recusar parceiros de longa data pode gerar ressentimentos e complicações futuras. A Databricks optou por emitir mais ações e, em julho, anunciou o fechamento da rodada com uma avaliação de R$ 188 bilhões, sem revelar o valor captado naquela ocasião.
Na quinta-feira, a empresa finalmente confirmou que levantou R$ 5 bilhões junto a um grupo seleto de fundos de capital de risco. A avaliação subiu para um valor arredondado de R$ 190 bilhões. A rodada foi liderada pela Coatue, contando com participação da Blackstone, MGX, diversas contas vinculadas a braços específicos da T. Rowe Price e do novo investidor Sixth Street Growth, firma fundada por Alan Waxman, ex-diretor de investimentos do Goldman Sachs. Cerca de duas dezenas de fundos de capital de risco foram mencionados como participantes.
O que tornava a Databricks tão atrativa? Ghodsi afirmou que a empresa atingiu R$ 7 bilhões de receita anualizada recorrente, com crescimento de 80% e fluxo de caixa positivo. O produto principal, um repositório de dados na nuvem, representa R$ 1,5 bilhão dessa receita e continua crescendo 100% ao ano. Além disso, a empresa conta com o que Ghodsi chama de "poeira mágica" da inteligência artificial. O Lakebase, banco de dados para agentes de IA lançado em junho de 2025, já alcançou R$ 100 milhões de receita anualizada. A ferramenta de chatbot de inteligência artificial Genie, capaz de realizar análises de negócios em tempo real, foi descrita pelo executivo como "extremamente popular".
Diante desse desempenho robusto, surge a questão: por que buscar mais capital? A empresa já havia levantado R$ 20 bilhões nos últimos 20 meses. Ghodsi explicou que a inteligência artificial é extremamente custosa. A Databricks mantém compromissos de bilhões de dólares em infraestrutura de nuvem com os três principais provedores. Além disso, a pesquisa em inteligência artificial exige investimentos significativos, e a empresa mantém uma equipe de 100 pesquisadores nesse setor altamente competitivo.
A empresa também está em plena fase de aquisições. "Fazemos muitas fusões e aquisições", afirmou Ghodsi, mencionando a compra da Electric, responsável pelo banco de dados leve Postgres chamado PGlite, que permite a agentes criar bancos de dados rapidamente. Os termos do negócio não foram divulgados. Em junho, a Databricks adquirir a empresa de cibersegurança baseada em inteligência artificial Panther, e em março, comprou duas outras startups.
Houve uma época em que uma rodada de R$ 1 bilhão era considerada colossal e difícil de ser alcançada. Neste momento atual dos gastos com inteligência artificial, no qual empresas emergentes captam R$ 1 bilhão ainda na fase inicial, esse valor parece modesto. Ainda assim, a sequência de captações privadas da Databricks, em vez de uma abertura de capital, tornou-se objeto de piadas no setor. Quando anunciou a rodada no mês anterior, usuários das redes sociais brincaram que a empresa estava ficando sem letras do alfabeto para nomear suas captações.
Ghodsi afirmou à CNBC que ainda pretende abrir o capital da empresa um dia. Com uma lista tão extensa de investidores que eventualmente desejarão resgatar seus recursos, como poderia prometer algo diferente? Por enquanto, seu foco está nos investimentos em inteligência artificial. Fazer isso longe dos holofotes públicos pode ser uma estratégia sensata, especialmente quando se consegue attracts R$ 15 bilhões de interesse instantâneo em condições favoráveis. Nesse cenário, qual seria a pressa?
Fonte: TechCrunch

