Cientistas da Universidade de Ciência de Tóquio, no Japão, revelaram a existência de um vírus gigante que infecta amebas e pode reshapear o entendimento sobre a evolução biológica. O organismo, denominado furtivírus, foi aislado a partir de amostras de água doce coletadas na cidade de Kamakura e cultivado em laboratório utilizando a ameba Vermamoeba vermiformis como hospedeira. A descoberta, publicada no Journal of Virology no início de maio, representa um marco na compreensão da diversidade viral e das interações entre vírus e células eucarióticas.
Características genéticas e estruturais
Com aproximadamente 560 mil pares de bases em seu genoma, o furtivírus apresenta um tamanho considerável, embora esteja entre os menores membros conhecidos do grupo dos vírus gigantes. Seu diâmetro de cerca de 200 nanômetros contrasta com outros representantes do grupo, que podem alcançar dimensões até dez vezes superiores. O primeiro vírus gigante identificado, o Mimivirus, permaneceu classificado erroneamente como bactéria por 11 anos antes que sua natureza viral fosse reconhecida em 2003, evidenciando as dificuldades históricas na taxonomia desses organismos.
Mecanismo de replicação unique
O grande diferencial do furtivírus reside em sua estratégia de replicação, que envolve a invasão e posterior ruptura da membrana do núcleo celular para a produção de novas partículas virais no interior do nucleoplasma. Esta abordagem distingue o novo vírus de outros gigantes conhecidos: enquanto o medusavirus se multiplica dentro de um núcleo intacto, e o ushikuvírus destrói completamente o núcleo para criar zonas de replicação no citoplasma, o furtivírus rompe parcialmente a membrana nuclear, fabricando suas partículas na região fluida onde o DNA celular é processado.
Reclassificação e impacto taxonômico
A análise genética detalhada levou os pesquisadores a proporem a criação de uma nova família viral, batizada de Manesviridae, alterando a classificação anterior que posicionava essa linhagem na ordem Pandoravirales. Os cientistas identificaram que não existe material genético compartilhado suficiente para sustentar esse agrupamento, estabelecendo em vez disso a Manesviridae como um grupo irmão de Mamonoviridae. Esta reclassificação reflete a complexidade crescente na taxonomia dos vírus gigantes, que carregam quantidades surpreendentes de material genético.
Implicações para a teoria evolutiva
Os vírus gigantes continuam a intrigar a comunidade científica por conterem uma quantidade异常 de material genético, permitindo que executem processos que vírus comuns delegam completamente aos hospedeiros. Alguns possuem genes associados à vida celular complexa, incluindo instruções para fermentação de açúcar, formação de histonas e do citoesqueleto. Duas hipóteses principais explicam o tamanho desses genomas: o acúmulo progressivo de material genético dos hospedeiros ao longo do tempo, ou a evolução a partir de ancestrais mais complexos que sofreram redução genômica.
A forte dependência do furtivírus pelo núcleo celular reacende debates sobre uma das teorias mais controversas da biologia evolutiva: a hipótese de que o próprio núcleo das células eucarióticas pode ter se originado a partir de vírus antigos no passado remoto. Segundo o professor Masaharo Takemura, da Universidade de Ciência de Tóquio, a comparação entre três vírus que utilizam o núcleo celular de maneiras diferentes permite visualizar a via evolutiva de interação entre esses patógenos e as estruturas nucleares, oferecendo novas perspectivas sobre a origem da vida complexa na Terra.
Fonte: https://olhardigital.com.br
