A Embrapa fechou um pacto de cooperação científica e tecnológica com quatro entidades da China, com o objetivo de acelerar o uso de inteligência artificial e tecnologias digitais na agricultura familiar do Brasil. O Memorando de Entendimento foi assinado em setembro, durante uma missão oficial da instituição brasileira ao país asiático, e tem duração prevista de cinco anos.
O acordo envolve a criação de um Centro de Cooperação Brasil-China dedicado à aplicação de inteligência artificial no campo. Além disso, serão realizadas pesquisas conjuntas, troca de pesquisadores e técnicos, programas de capacitação e instalação de centros-piloto de máquinas agrícolas inteligentes em assentamentos de agricultura familiar no território brasileiro. Integração de dados, plataformas digitais, internet das coisas, big data e modelos de culturas também fazem parte do escopo da parceria.
Participam do memorando a Embrapa, a Universidade Agrícola de Nanjing, a Academia de Ciências Agrícolas de Jiangsu, a empresa Sinomach Digital Technology Corporation e a Associação Internacional para a Cooperação Popular. A estrutura montada busca aproximar as competências científicas, tecnológicas e institucionais dos dois países.
Para a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, o acordo representa uma resposta direta a um desafio estratégico da agricultura brasileira: incluir pequenos e médios produtores no mundo digital, sem que a adoção de novas tecnologias aprofunde as desigualdades entre os diferentes segmentos do setor produtivo.
A cooperação parte do princípio de que as soluções digitais precisam ser adaptadas às realidades locais. O objetivo não é simplesmente importar tecnologias desenvolvidas na China, mas sim realizar um codesenvolvimento que avalie, ajuste e valide essas ferramentas conforme as condições específicas de cada sistema produtivo. No Brasil, essa adaptação é fundamental devido à diversidade de biomas e modelos de produção existentes.
Entre as tecnologias previstas estão equipamentos de menor porte adequados a propriedades familiares, robôs para monitoramento de plantações e contagem de frutos, tratores compactos e plataformas de gestão. Essas inovações poderão ser empregadas em cadeias como fruticultura, hortaliças, milho, soja, arroz e outras atividades típicas da agricultura familiar.
Os centros-piloto permitirão testar e demonstrar máquinas e plataformas inteligentes em condições reais de produção. Sensores, dispositivos conectados e sistemas de inteligência artificial serão combinados para monitorar lavouras, analisar dados e apoiar a tomada de decisões pelos produtores.
A parceria também prevê a integração das unidades de demonstração ao Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, além da possibilidade de replicar as experiências em outros assentamentos. As cooperativas participantes terão papel ativo na coleta e gestão dos dados gerados nas atividades.
A experiência brasileira no projeto Semear Digital, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, serve como base para essa cooperação internacional. O projeto opera em dez distritos agrotecnológicos espalhados pelo Brasil, abrangendo realidades distintas como café no Sudeste, fruticultura no Sul, açaí no Norte, mel e licuri no Nordeste e integração pecuária-floresta no Centro-Oeste.
O diferencial do modelo está em começar pelas necessidades reais dos produtores, associações e cooperativas, e não pela tecnologia em si. A equipe identifica gargalos de conectividade, capacitação e logística para então avaliar como ferramentas digitais podem reduzir custos, melhorar a gestão e agregar valor à produção.
Um exemplo prático ocorre em Caconde, no interior de São Paulo, onde produtores de café contaram inicialmente com uma máquina de torrefação compartilhada. A partir dessa demanda inicial, foram sendo atendidas outras necessidades, como energia, conectividade, capacitação e produção de bioinsumos. A experiência contribuiu para a transformação da associação em cooperativa e para a conquista do selo de café orgânico.
Em Boa Vista do Tupim, na Bahia, o projeto auxiliou na criação de duas novas cooperativas voltadas às cadeias do mel e do licuri. Ao longo de dois anos, os agricultores passaram por processos de formação em cooperativismo, e foi constituída uma associação de mulheres dedicada à produção de mel.
No Pará, mais especificamente em Breves, na Ilha do Marajó, a extração de açaí é a principal fonte de renda das famílias ribeirinhas. Nos últimos dois anos, comunidades locais passaram a receber informações e serviços sobre meliponicultura por meio de plataformas digitais desenvolvidas pela Embrapa. Os resultados preliminares já indicam aumento na produtividade e ganhos em biodiversidade e segurança alimentar.
Na região Sul do país, em Vacaria, no Rio Grande do Sul, a pesquisa avança no desenvolvimento de robôs para auxiliar produtores de maçãs. Protótipos estão sendo testados para estimativa de produção nos pomares e para enfrentar desafios como a escassez de mão de obra na colheita. Produtores de pequenas frutas, como amora e framboesa, também são atendidos pelo projeto.
Para a pesquisadora Luciana Alvim Santos Romani, da Embrapa Agricultura Digital, a aproximação com as instituições chinesas permitirá trazer inovações para o Brasil e adaptá-las à realidade tropical. A ideia é combinar conhecimentos já desenvolvidos no país com as tecnologias chinesas para criar soluções adequadas às condições brasileiras.
Fonte: Livecoins