Um ano após o encerramento da primeira fase do chamado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), marcado pela saída do bilionário Elon Musk do governo em junho de 2025, uma nova estrutura surgiu quase em silêncio menos de dois meses depois: o Estúdio Nacional de Design (NDS, na sigla em inglês).
Sob a liderança de Joe Gebbia, cofundador da plataforma Airbnb e atual chefe de design do governo dos Estados Unidos, o órgão tem como missão reformular os sites públicos para oferecer uma experiência visual agradável e funcional. No entanto, o NDS guarda diversas semelhanças com o antigo DOGE: parte da equipe se manteve, a estrutura continua pouco transparente e há indícios de pouca aderência às normas que regem a administração federal.
O NDS está subordinado ao Escritório Executivo da Presidência, assim como o DOGE. Embora o site do órgão afirme estar com vagas abertas, praticamente não há detalhes sobre as funções e não existe um canal oficial para envio de currículos. Os postos também não aparecem no portal USAJobs, plataforma padrão de recrutamento do governo. Da mesma forma, o DOGE recebia inscrições por um site próprio e, antes da posse do presidente Donald Trump em janeiro de 2025, até por mensagens diretas na rede social X.
Gebbia sempre manteve proximidade com Musk e integrou o DOGE em fevereiro de 2025. Quando os membros do grupo se dispersaram entre órgãos públicos e a iniciativa privada, o NDS virou abrigo para alguns dos principais operadores da iniciativa. Entre eles estão Edward Coristine, conhecido como "Big Balls", e Akash Bobba, ambos identificados pela reportagem como parte do grupo de jovens engenheiros que compuseram o núcleo inicial do DOGE. Coristine, que tinha 19 anos ao ingressar no governo e havia sido supostamente desligado de um estágio em uma empresa de monitoramento de redes conhecida por contratar hackers reformados após ser suspeito de vazar informações internas, agora ocupa o cargo de chefe de engenharia.
A composição do NDS nem sempre é clara. Zachary Terrell, ex-associado do DOGE que atualmente chefia o escritório de tecnologia do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), também "contribui" com o NDS, segundo seu site pessoal. Já Bobba manteve um cargo de "assessor não remunerado" no Escritório de Gestão de Pessoal (OPM) até 7 de março de 2026, mais de seis meses após supostamente migrar para o NDS, conforme documentos anexados em uma ação judicial movida pela Federação Americana de Funcionários Governamentais, sindicato que representa servidores federais. A Casa Branca, o NDS, o HHS e o OPM não responderam aos pedidos de comentário.
Um engenheiro que recentemente passou por um processo seletivo no NDS e já trabalhou para o governo contou que a experiência foi totalmente diferente de qualquer entrevista para cargo público que ele já havia enfrentado. Ele não se candidatou: recebeu um convite direto de Coristine para conversar sobre uma oportunidade. "Estamos dando o salto para criar experiências automatizadas em que os americanos possam resolver coisas com o governo", escreveu Coristine, dizendo que buscava "engenheiros muito talentosos e intensos, com capacidade de entregar rápido".
O profissional afirmou não ter ideia de como seu contato foi obtido. Diferentemente de processos tradicionais, não havia recrutador presente na chamada de vídeo, apenas Coristine. Em entrevistas governamentais convencionais, a etapa inicial costuma ser feita por telefone justamente para reduzir vieses, lembrou o engenheiro.
Durante a conversa, Coristine aparentemente não sabia exatamente quais competências buscava. "Não sei se essa pessoa tem capacidade de avaliar um engenheiro full-stack, porque ela mesma desconhece as habilidades, ferramentas e rotinas dessa área", declarou o candidato. Coristine não respondeu à solicitação de comentário. Em janeiro de 2025, ele havia participado de entrevistas com servidores do Serviço de Transformação Tecnológica da Administração de Serviços Gerais, que foram obrigados a defender seus cargos e justificar seus projetos. Na ocasião, relatos obtidos pela reportagem indicam que os membros do DOGE desconheciam o trabalho dos funcionários.
Coristine explicou ao engenheiro que a vaga estaria voltada ao desenvolvimento do que viria a ser o Rampart, ferramenta lançada no final de junho com o objetivo de impedir que dados pessoais identificáveis saiam do navegador do usuário, especialmente em interações com chatbots. Em entrevista ao podcast Technology Business Programming Network (TBPN), ele descreveu o projeto como um "desvio de rota" e afirmou que a equipe de cerca de 30 pessoas não contava com um engenheiro especializado em aprendizado de máquina.
A ferramenta tem inspiração no filtro de privacidade baseado em navegador lançado pela OpenAI, capaz de identificar e mascarar automaticamente informações como e-mail pessoal, endereço e número de conta. Os detalhes sobre como o Rampart seria aplicado a serviços governamentais, porém, permanecem nebulosos. No bate-papo com o TBPN, Coristine não apresentou exemplos concretos, embora tenha destacado que o produto é significativamente menor que o da OpenAI, o que o tornaria mais leve para conexões de baixa velocidade.
"Parece counterintuitivo, porque na maioria dos casos, quando você pede dados pessoais, é justamente porque precisa deles", observou o engenheiro, explicando que em serviços públicos o usuário frequentemente precisa informar número de seguridade social ou endereço para acessar benefícios. "Você não quer que essa informação seja ocultada." Vale lembrar que desenvolvedores podem optar por criptografar campos específicos enviados a servidores, e sites que usam conexões HTTPS já criptografam suas requisições.
Não é a primeira tentativa da administração Trump de reinventar a tecnologia governamental. No ano passado, sob a promessa de modernizar o Estado, o DOGE demitiu justamente os técnicos que trabalhavam em projetos do tipo que dizia querer, chegando a encerrar um produto de declaração de imposto de renda gratuita do Serviço Interno de Receita. Um memorando do OPM publicado recentemente orientou agências a priorizar a contratação de talentos de tecnologia.
"Isso soa supérfluo. Minha leitura mais generosa é que a organização simplesmente não tem objetivos definidos", disse o engenheiro, lembrando que o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST) já apoia há tempos a criação de ferramentas para resolver problemas técnicos complexos ligados à privacidade. "Por que esses caras, tão ligados à Casa Branca, estão gastando dinheiro público com esse projetinho de hackers?"
Mesmo que os integrantes do NDS não pareçam ter acesso aos dados sensíveis que manuseavam os operadores do DOGE, o órgão já é alvo de críticas por possíveis violações de privacidade. Em junho, o jornal The Guardian revelou que o NDS estaria construindo novos sites governamentais nos quais os usuários inserem informações sensíveis, incluindo dados para passaportes e registros eleitorais. As páginas já em operação utilizavam ferramentas comerciais que aparentemente não cumpriam a Lei de Privacidade, rastreando comportamento e dados de usuários. O cadastro eleitoral é responsabilidade dos estados, e o site de solicitação de passaportes é historicamente operado pelo Departamento de Estado, não pela Casa Branca. Em reunião com a Associação Nacional de Secretários de Estado, Bobba teria dito: "Não sei o que eles armazenam e o que estão registrando."
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