A Nvidia revelou nesta semana que gigantes financeiros como Apollo, BlackRock, Blackstone, Brookfield, Goldman Sachs e KKR concordaram em investir até 500 bilhões de dólares na construção de centros de dados dedicados à inteligência artificial. O valor impressionou o mercado, mas a estratégia mais relevante por trás desse acordo envolve a criação de um mercado secundário para chips gráficos que começam a envelhecer.
Para conquistar a confiança dessas grandes instituições financeiras, a empresa norte-americana comprometeu-se a garantir, com recursos próprios, que seus processadores utilizados como garantia nos empréstimos manterão seu valor ao longo do tempo. Muitos analistas já classificaram esse plano como incomum, inteligente e perigoso ao mesmo tempo.
A operação assustou os mercados de títulos de dívida a tal ponto que o diretor-presidente Jensen Huang precisou se pronunciar nas redes sociais e em programas de negócios para esclarecer que os riscos para a Nvidia seriam limitados. Porém, por trás dessa manobra financeira para financiar centros de dados e manter o fluxo de receitas, esconde-se um objetivo talvez ainda mais interessante para startups e empresas: garantir que um ecossistema de hardware de inteligência artificial usado prospere.
Especificamente, a Nvidia promete que, se os chips usados como garantia não conseguirem manter o valor esperado nos livros contábeis, a empresa cobrirá até 25% da diferença. Esse mecanismo significa que, se um proprietário de centro de dados inadimplir um empréstimo e o credor precisar liquidar os equipamentos, mas os processadores não alcançarem o preço previsto, a Nvidia entrará com o complemento financeiro.
O aspecto perigoso dessa estratégia para a empresa é que ela cria o que os analistas chamam de "risco na direção errada". Ou seja, as obrigações da Nvidia aumentarão justamente quando a demanda enfraquecer, simultaneamente com uma provável redução em suas receitas.
Apesar das semelhanças que alguns tentam estabelecer, esse esquema difere fundamentalmente da comparação com a Lucent Technologies. A empresa de equipamentos de telecomunicações ascendeu e colapsou com a bolha das empresas de internet ao emprestar dinheiro diretamente aos clientes para a compra de seus produtos.
A Nvidia reconhece que essa comparação ronda sua imagem, mas tem diferenças cruciais. Diferentemente da Lucent, a empresa está transferindo a maior parte do capital e do risco para terceiros, limitando-se a proteger uma parcela do valor futuro de seus chips.
A Nvidia já comprometeu bilhões de dólares com compradores de seus processadores, incluindo laboratórios de inteligência artificial de ponta como OpenAI e Anthropic, além de empresas de computação em nuvem como CoreWeave, Nebius, Firmus e Lambda. Segundo cálculos da Bloomberg, a companhia trabalha em outros 750 bilhões de dólares em acordos circulares durante o verão.
Muitos métodos tradicionais de financiamento começam a se esgotar. Algumas grandes empresas de nuvem já acumularam dívidas elevadas, como a Oracle, enquanto outras emitiram novas tranches de ações, como o Google, ou consumiram grande parte de seu caixa, como a Meta. A situação ficou tão delicada que o diretor-presidente da Microsoft, Satya Nadella, recentemente recomendou a leitura de um livro sobre a engenharia financeira das estradas de ferro que colapsou a economia norte-americana.
Huang argumenta que esse cenário não se repetirá ao vender a visão da inteligência artificial como uma "infraestrutura investível" de longo prazo. Nessa perspectiva, seus servidores de inteligência artificial, que ele chama de "fábricas de inteligência artificial", assemelham-se a estradas de ferro ou companhias aéreas, em vez de ativos que se depreciam rapidamente como computadores pessoais.
"Quando as necessidades mudam, a fábrica pode ser utilizada por outro cliente, outra nuvem ou outro operador. Esse amplo ecossistema oferece à Nvidia um mercado profundo de usuários e compradores em potencial, ajudando a proteger o valor residual", explicou Huang.
Nessa visão de futuro, a Nvidia se preocupa tanto com a arquitetura que envelhece quanto com os novos chips. Startups, empresas e pesquisadores podem acessar uma variedade mais ampla de hardware, cada um adaptado a diferentes necessidades de inteligência artificial, assim como começam a escolher modelos de código aberto acessíveis ao lado das opções mais avançadas.
Como líder absoluta do mercado de inteligência artificial, a Nvidia detém o poder e a janela de oportunidade para tornar essa realidade possível.
Fonte: TechCrunch

