As autoridades judiciais dos Estados Unidos anunciaram nesta semana a desativação de duas ferramentas cibernéticas que eram utilizadas por um grupo de hackers patrocinado pelo Estado chinês para realizar invasões em larga escala contra alvos americanos. As plataformas, denominadas QTRouter e QScan, foram identificadas como sendo operadas por um coletivo hacker denominado QTFY, supostamente vinculado a uma empresa chinesa chamada Nanjing Xinjiuwei Network Technology Company.
Segundo promotores públicos e documentos da Polícia Federal americana utilizados para apreender domínios utilizados pelas ferramentas, a empresa fornecia a seus clientes acesso a redes de dispositivos comprometidos da chamada internet das coisas, além de utilizar indevidamente serviços comerciais de proxy. Os clientes da empresa, incluindo o Ministério da Segurança do Estado e o Exército Popular de Libertação, utilizavam esses serviços como pontos de retransmissão para conduzir campanhas de invasão cibernética que teriam começado pelo menos em 2018.
O Departamento de Justiça americano informou que os invasores conseguiram acesso a uma lista impressionante de agências governamentais, incluindo a NASA, o Senado dos Estados Unidos, o Federal Reserve, o Departamento de Energia, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, os Institutos Nacionais de Saúde e o próprio Departamento de Justiça. Além disso, a investigação revelou que infraestrutura essencial de diversos setores também foi visada, como empresas de energia elétrica, prestadoras de serviços de telecomunicações, hospitais, instituições financeiras e contratadas de defesa.
De acordo com pesquisadores de inteligência de ameaças do Black Lotus Labs, subsidiária da empresa Lumen Technology, que colaborou com as autoridades na operação, a empresa sediada em Nanjing funcionava como uma espécie de fornecedora de recursos para as operações cibernéticas chinesas, servindo como uma das diversas contratadas privadas que cada vez mais oferecem ferramentas e infraestrutura essenciais para hackers estatais da China.
Segundo os especialistas, a ferramenta QScan foi desenvolvida para identificar vulnerabilidades em dispositivos da internet das coisas que poderiam ser comprometidos e incorporados a redes de bots utilizadas como proxies. Já o serviço QTRouter gerenciava o acesso dos clientes a essas redes de dispositivos contaminados, bem como a redes comerciais de servidores virtuais que podiam ser alugados para campanhas de invasão. Nos últimos meses, o grupo também passou a sequestrar serviços de redes virtuais privadas normalmente utilizados por cidadãos chineses para contornar o sistema de censura conhecido como Grande Firewall.
As autoridades americanas afirmaram que conseguiram desarticular a infraestrutura de proxy do grupo ao apreender domínios essenciais codificados nas ferramentas QScan e QTRouter. A empresa Lumen, que atua como provedora de infraestrutura de internet, também inutilizou determinados domínios, tornando-os inoperantes.
Especialistas advertem, contudo, que a interrupção das operações representará um obstáculo temporário para as campanhas de invasão, gerando problemas de imagem para a empresa chinesa. Pesquisadores apontam que, dado o histórico de flexibilidade do grupo em adaptar seus métodos ao longo dos anos para encontrar novas formas de retransmitir e disfarçar tráfego malicioso, é quase certo que os invasores desenvolverão nova infraestrutura para dar continuidade às suas operações.
A campanha de invasão cibernética descoberta parece ser distinta da operação Volt Typhoon, que buscava obter a capacidade de interromper serviços essenciais como energia, água e outras infraestruturas militares e civis. Segundo os analistas, as operações investigadas parecem estar concentradas em espionagem tradicional, com o objetivo de coletar informações dos sistemas comprometidos.
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