A vida demonstra uma seletividade notável quando se trata de moléculas. Muitos compostos orgânicos apresentam uma propriedade conhecida como quiralidade, que significa serem quimicamente idênticos, porém existentes em duas formas espelhadas entre si — como as mãos humanas, que são imagens refletidas mas não sobrepostas.
A maioria das reações químicas produz uma mistura equitativa de ambas as formas quirais, totalizando cinquenta por cento de cada tipo. Contudo, os organismos vivos utilizam exclusivamente uma das versões. Essa preferência representa um enigma para os cientistas que investigam a origem da vida, pois precisam explicar como um ambiente inicial com quantidades iguais de ambas as formas conseguiu gerar seres vivos que utilizam apenas uma delas.
O Prêmio Nobel de Química de 2026 foi concedido a Henri Kagan e Kenso Soai, pesquisadores que demonstraram ser possível criar reações químicas tendenciosas. Suas descobertas permitiram produzir grandes quantidades excedentes de uma forma quiral específica em detrimento da outra, replicando em laboratório o fenômeno que possivelmente ocorreu na Terra primitiva e que resultou na predominância de compostos quirais utilizados pela bioquímica dos seres vivos.
Essa descoberta resolve parcialmente um dos grandes mistérios da ciência moderna. As enzimas, proteínas essenciais para as reações metabólicas dos organismos, funcionam exclusivamente com moléculas da forma quiral correta. Se apresentarmos a versão incorreta, essas proteínas simplesmente não realizam sua função. Compreender como essa assimetria molecular surgiu representa um passo fundamental para entender o próprio surgimento da vida em nosso planeta.
Fonte: Ars Technica