Conhecido por interpretar personagens icônicos sob a direção de grandes cineastas como Steven Spielberg, Robert Zemeckis e Ron Howard, Tom Hanks só veio a trabalhar com Clint Eastwood em 2016, no filme Sully, que conta a história real do piloto que pousou um avião no Rio Hudson. Foi durante essa experiência que Hanks compartilhou uma anedota que se tornou marca registrada de suas entrevistas.
A origem dessa história peculiar remonta ao final dos anos 1950, quando Eastwood dava seus primeiros passos como ator na série Rawhide, ambientada no universo dos faroestes. O jovem protagonista interpretava o personagem Rowdy Yates e trabalhava com diretores da velha guarda, adeptos de todos os protocolos tradicionais de Hollywood: o megafone, os gritos de "Estamos gravando!", "Todos prontos!" e o estrondoso "Ação!".
O problema era que muitos atores participavam das cenas montados em cavalos, e os animais se assustavam com cada grito, disparando descontroladamente. Segundo Hanks contou nos programas de entrevistas de Graham Norton e Jimmy Kimmel, Eastwood sugeriu, com seu característico senso prático, que talvez fosse mais simples mandar os cavalos começarem a filmar.
A história não é uma lenda criada por Hanks. O próprio Eastwood confirmou o episódio em 2013, durante uma conversa no Festival de Cinema de Tribeca ao lado do diretor Darren Aronofsky. Na ocasião, Eastwood foi ainda mais direto: ao gritar "Ação!" com atores montados, metade dos cavalos os derrubaria.
Essa experiência moldou a filosofia de direção que Eastwood adotou quando passou a dirigir seus próprios filmes. Em Sully, a metodologia surpreendeu Hanks, acostumado a sets de filmagem convencionais. Como explicou o ator, nos filmes de Eastwood, o ator simplesmente não sabe quando a câmera começa a gravar. Em vez de gritos, recebe apenas um sussurro suave sobre o ombro: "Tudo bem, pode começar".
Tampouco existe o tradicional "Corta!". A cena continua até que se ouça uma tranquila frase indicando que aquele take está encerrado, e a equipe passa para a próxima tomada sem delongas. Hanks admitiu, contudo, que a aparente calmaria não significa uma filmagem relaxante: receber um daqueles olhares característicos de Eastwood pode ser extremamente intimidador. Para que usar um megafone quando se tem o poder do olhar de Clint Eastwood?
A comparação com Hitchcock surge como contraponto. De acordo com o livro Hitchcock/Truffaut, de François Truffaut, o mestre do suspense carregou por décadas a reputação de ter tratado atores como gado. Em um discurso de 1965, Hitchcock negou com seu humor peculiar: jamais usaria termo tão desrespeitoso. O que ele provavelmente quis dizer era que deveriam ser tratados como gado.
Hanks também lembrou uma situação durante as filmagens de News of the World, dirigido por Paul Greengrass, quando a equipe filmou repetidamente uma cena de travessia de rio. Encharcados e congelando de frio, os atores tiveram que repetir a tomada até que o tratador de cavalos decidiu interromper porque os animais precisavam descansar. Os cavalos descansaram, mas os atores tiveram que continuar. Para Hanks, naquela circunstância, foram tratados pior que os próprios cavalos.
A hierarquia em um set de filmagem, segundo Hanks, parece clara: no topo estão os cavalos, que até têm direito a intervalos, e logo ao lado estão os atores contemplados com os sussurros carinhosos de Eastwood. Com a devida dose de humor, Hanks conclui que ser tratado como um cavalo por Clint Eastwood é praticamente uma promoção.
Fonte: IGN Brasil