Uma descoberta revolucionária muda a compreensão científica sobre o passado de Marte. Pesquisadores da Universidade de Pequim identificaram a evidência mais precisa até hoje de que o planeta vermelho abrigou um oceano estável por um período considerável – entre 800 mil e 1,5 milhão de anos. O estudo, publicado na prestigiada revista Nature Communications, analisou dados do rover chinês Zhurong e revela que a bacia Utopia Planitia escondeu um corpo d'água com características semelhantes aos lagos rasos da Terra.
A assinatura química do oceano marciano
A equipe do Dr. Yan Li identificou um anel de óxidos de manganês na borda da bacia Utopia Planitia – uma assinatura química comparável às "marcas de banheira" deixadas por corpos d'água rasos em nosso planeta. O padrão observado impressiona os cientistas: a concentração de manganês aumenta progressivamente com a altitude, passando de 2,7% nos pontos mais baixos para 7,4% cerca de nove metros acima. Esse gradiente se forma naturalmente quando o manganês dissolvido em águas rasas e ricas em oxigênio se oxida na interface entre água e ar, depositando-se nas margens. Quanto mais tempo o lago permanece, mais espesso становится o anel mineral.
O relógio geológico do manganês
Para determinar a duração do oceano marciano, os pesquisadores utilizaram a taxa conhecida de conversão do manganês dissolvido em óxido sólido – um processo que funciona como um verdadeiro relógio geológico. Combinando essa taxa com a espessura do anel de manganês detectado, os cientistas estimaram que o oceano persistiu por aproximadamente 0,8 a 1,5 milhão de anos. O corpo d'água existiu durante o período Hesperiano, entre 3,7 e 3,4 bilhões de anos atrás, e tinha entre 150 e 400 metros de profundidade – mais raso do que se supunha anteriormente em modelos teóricos.
O desaparecimento do oceano marciano
O oceano desapareceu quando erupções vulcânicas do monte Elysium cobriram grande parte do fundo marinho com lava, encerrando a era aquática de Marte. No entanto, o manganês resistiu ao tempo geológico: suas concentrações permanecem visíveis da órbita, oferecendo um alvo concreto para futuras missões de exploração. Essa preservação extraordinária permite que os cientistas estudem até mesmo à distância as condições ambientais que existiram há bilhões de anos no planeta vermelho.
Inteligência artificial decifra minerais marcianos
A identificação dos óxidos de manganês não foi uma tarefa trivial. Os minerais formam películas finas e irregulares que dispersam a luz de forma complexa, escapando às análises tradicionais. Para superar esse desafio, a equipe desenvolveu uma rede neural chamada SCANet, treinada com 13.742 leituras infravermelhas de amostras laboratoriais que simulam o solo marciano. Em colaboração com a Universidade Beihang, os pesquisadores processaram mais de 5,7 milhões de medições do Zhurong e de orbitadores europeus e americanos. As previsões da inteligência artificial coincidiram perfeitamente com as leituras químicas independentes do instrumento laser do rover, validando a metodologia.
Implicações para a busca por vida past
O período de cerca de um milhão de anos é mais do que suficiente para o surgimento da química básica da vida. Na Terra, os primeiros microrganismos surgiram há aproximadamente 3,4 bilhões de anos – justamente na mesma época em que o oceano marciano existia. Modelos atmosféricos do Marte primitivo indicam episódios de aumento de oxigênio durante a era Hesperiana, criando as condições exatas necessárias para a oxidação do manganês. Os autores salientam que a descoberta não prova a existência de vida marciana, mas demonstra que Utopia Planitia teve um ambiente estável por tempo suficiente para que processos biológicos, em teoria, pudessem ocorrer.
Recursos para futuras missões tripuladas
Além de seu valor científico monumental, os depósitos de manganês têm utilidade prática para a exploração espacial futura. Esses minerais podem auxiliar na divisão de moléculas de água, liberando oxigênio – uma fonte potencial de ar respirável diretamente da superfície marciana para astronauts de missões tripuladas. As concentrações elevadas próximas à borda da bacia também fornecem alvos precisos para próximos rovers, locais onde possíveis traços de antiga atividade biológica poderiam estar preservados. Na Terra, microrganismos impulsionam grande parte da química de oxidação que forma esses minerais, tornando zonas ricas em manganês pontos prioritários na busca por sinais de vida passada.
Uma nova visão de Marte
O estudo desafia a visão tradicional de Marte como um planeta de episódios breves e fugazes de água líquida. Em Utopia Planitia, um oceano estável persistiu por cerca de um milhão de anos – e o registro mineral de seu desaparecimento ainda é visível do espaço. Essa descoberta abre novas possibilidades para compreender não apenas a história geológica do planeta vermelho, mas também as condições que podem ter permitido o surgimento de vida em outros mundos do sistema solar.
Fonte: https://olhardigital.com.br
