O confronto das oitavas de final entre Argentina e Egito na Copa do Mundo de 2026 ficou marcado não apenas pelos golos espetaculares e pelas defesas impressionantes, mas também por uma das maiores controvérsias envolvendo o sistema de vídeoarbitragem, o VAR. A seleção egípcia foi eliminada do torneio após uma derrota por 3 a 2, depois de ter estado a vencer por dois golos de diferença.
A AssociaçãoEgípcia de Futebol apresentou uma protestação formal junto à FIFA, alegando que a falha no uso adequado do VAR influenciou várias decisões arbitrais que afetaram o resultado final da partida. Em comunicado publicado nas redes sociais, a entidade enfatizou que não poderia permanecer em silêncio relativamente às decisões de arbitragem observadas no jogo contra a Argentina.
Especialistas e analistas especializados, tanto no Egito quanto internacionalmente, apontaram incidentes controversos que influenciaram o andamento do encontro. Estas reclamações têm sido uma constante ao longo desta Copa do Mundo, com golos anulados por situações de fora-de-jogo que não foram sinalizadas em campo.
Alguns críticos afirmam que, apesar do uso da tecnologia, estas jogadas são julgadas de forma diferente, com a aparente intenção de beneficiar certas selecções nacionais. Outros argumentam que o VAR, além de interromper o ritmo do jogo, pode ser uma ferramenta usada para ajustar decisões arbitrais e, mais uma vez, favorecer determinadas equipas.
O VAR foi utilizado pela primeira vez numa Copa do Mundo durante o torneio de 2018, na Rússia, após ter sido incorporado às Regras do Jogo como "uma ferramenta de apoio à equipa de arbitragem de campo", segundo a FIFA. Desde então, o sistema foi implementado em mais de cem competições em todo o mundo, incluindo a Copa do Mundo de 2022, no Qatar.
A plataforma tem acesso a 42 câmaras de transmissão, das quais oito oferecem imagens em super cámara lenta e quatro em ultra cámara lenta. Além disso, o sistema dispõe de feeds de câmaras que usam tecnologia semi-automatizada para detetar fora-de-jogo, bem como todas as câmaras da rede hospedeira da FIFA.
Todas estas informações são disponibilizadas a uma equipa de arbitragem composta por um árbitro assistente de vídeo e três assistentes, que analisam individualmente diferentes ângulos para tomar decisões em casos específicos em que o VAR pode intervir. Qualquer anomalia ou infração é comunicada pelo árbitro assistente de vídeo ao árbitro principal, que recebe as imagens em campo para avaliar a possível infração.
Nas duas Copas anteriores, o VAR auxiliou os árbitros principais na revisão de golos e infrações que conduziram a um golo; decisões sobre pontapés de penalty e as ações que os originaram; cartões vermelhos diretos; e casos de identidade equivocada.
Para esta edição da Copa do Mundo, a FIFA adicionou novas situações elegíveis para revisão. Em princípio, o VAR pode agora intervir para corrigir segundos cartões amarelos claramente errados e prevenir expulsões injustas. Além disso, o sistema auxilia na deteção de bloqueios, empurrões, fora-de-jogo ou infrações ofensivas antes da execução de um livre direto ou canto.
Armando Archundia, ex-árbitro mexicano de Copa do Mundo, inúmera em entrevista que também foram incorporadas funcionalidades para detetar infrações relacionadas com a chamada Regra Prestianni-Vinícius, que penaliza jogadores com cartão vermelho direto por cobrirem a boca com a mão, braço ou camisola durante uma confrontation, bem como para prevenir confusão entre um canto e um remate.
"A FIFA faz isto para evitar que um golo seja marcado sob circunstâncias que não foram corretamente avaliadas pelo árbitro", explica Archundia.
A infraestrutura tecnológica por trás do VAR é complexa e foi concebida para resolver uma lacuna de longa data no futebol. Fernando Galván, analista esportivo e apresentador do podcast Más que Tres Puntos, observa que "no passado, a arbitragem evoluiu mais lentamente do que o próprio futebol".
Numa entrevista, Galván recorda que, durante anos, a equipa de arbitragem era composta apenas por um árbitro central e dois bandeirinhas responsáveis por sinalizar situações de fora-de-jogo. Pouco depois, um quarto oficial foi adicionado para monitorar o comportamento dos bancos e a área fora do campo, e posteriormente, dois árbitros adicionais foram posicionados atrás das balizas.
Na opinião deste analista, este sistema era complexo de gerir porque exigia alinhar o julgamento de seis pessoas para que o árbitro central pudesse tomar a decisão mais justa. Consequentemente, ele acredita que o VAR foi introduzido para resolver parte do problema. No entanto, durante os primeiros anos de implementação, também criou uma dependência que por vezes limitava-se a substituir o julgamento do árbitro.
"Nas Copas anteriores, assim como em torneios internacionais como a Liga dos Campeões ou várias ligas, muitos árbitros simplesmente apitavam e delegavam a decisão ao VAR", afirma. "Primeiro, o árbitro decidia tudo, e depois o VAR decidia tudo."
"Um dos objetivos do VAR é encontrar imagens que possam alterar a decisão inicial do árbitro central. Não é uma ferramenta que elimina o erro em 100 por cento", explica Galván.
As diretrizes sobre o uso do VAR implementadas pela FIFA para esta Copa do Mundo visam equilibrar e, em última análise, restaurar alguma autonomia ao árbitro, que agora pode contar com dezenas de câmaras para confirmar ou corrigir a sua decisão.
Galván e Archundia concordam que o futebol é um esporte subjetivo e que as decisões arbitrais não dependem inteiramente das informações fornecidas pela tecnologia, mas também da interpretação de cada árbitro.
O ex-árbitro mexicano é categórico neste ponto. "É o julgamento individual de cada árbitro que toma a decisão, porque nem mesmo o VAR vai apoiá-los nesse sentido."
A questão agora é quão bem treinados e familiarizados os árbitros estão com o VAR para aproveitar ao máximo as suas capacidades. A resposta, talvez, resida na lacuna tecnológica.
Archundia explica que, no final de uma Copa do Mundo, a FIFA convoica cerca de cem árbitros que são candidatos potenciais para participar na próxima edição do torneio. Durante os quatro anos entre uma Copa do Mundo e a próxima, estes árbitros recebem treinamento do Comité de Árbitros da FIFA através de até quatro reuniões anuais, com o objetivo de padronizar critérios e procedimentos, incluindo o uso do sistema VAR.
Subsequentemente, o grupo de árbitros assistentes e árbitros principais que vão apitar os jogos da Copa do Mundo é selecionado. Nesta edição da Copa do Mundo, o corpo de arbitragem foi composto por 54 especialistas considerados entre os mais habilidosos e experientes, e o número deve ser semelhante para a próxima Copa do Mundo.
Embora o processo de seleção seja governado por padrões rigorosos, a realidade é que alguns árbitros têm pouca experiência no uso do VAR. De acordo com Archundia, "apenas 20 por cento dos países participantes nesta Copa do Mundo têm VAR nas suas competições domésticas."
Dada esta situação, os esforços da FIFA para treinar os árbitros da Copa do Mundo no uso de novas tecnologias podem revelar-se insuficientes, especialmente considerando que a padronização de critérios permanece um problema sistêmico, evidente mesmo em torneios regionais e nacionais.
"O problema com a arbitragem é que é uma profissão que não é muito unificada. Isso é um enorme problema. Alcançar critérios unânimes em nível global é quase impossível, mas isso também adiciona tempero ao futebol", explica Galván.
Existe especulação de que, num futuro não muito distante, jogos poderiam ser apitados por robôs equipados com inteligência artificial, capazes de substituir árbitros humanos em troca de maior precisão. No entanto, estas possibilidades ainda não foram confirmadas na prática.
Apesar disso, o que fica claro é que as regras do futebol precisarão se adaptar para aproveitar o potencial das novas tecnologias, reduzir a lacuna tecnológica e reconhecer um sistema (VAR) que está se tornando cada vez mais importante.
"A arbitragem e o futebol continuarão a ser praticados por humanos, e os humanos certamente continuarão a apitá-los também, até que o futebol mude de nome", conclui Archundia.
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