Não existe mais um consenso sobre qual é a "música do verão", mas, para os fãs de rap, "Rubberz", do artista Fenix Flexin, é uma forte candidata. Lançada oficialmente em junho, a faixa ocupa a posição 58 na Billboard Hot 100 e acumula sete milhões de visualizações em seu videoclipe. A letra traz elementos tradicionais do gênero: ostentação de dinheiro e joias, além de versos que funcionam em duplo sentido, misturando arrogância e melancolia.
No entanto, "Rubberz" guarda duas surpresas. A primeira é que a canção não é rap, mas sim uma faixa de synth-pop que poderia tranquilamente integrar uma trilha sonora melancólica dos anos 1980. A segunda é que, desde o lançamento, circulam acusações de que a música teria sido total ou parcialmente gerada por inteligência artificial.
A polêmica ganhou força neste fim de semana, quando um produtor musical independente afirmou ter descoberto não apenas como Fenix teria produzido "Rubberz", mas também que um colega de gravadora do rapper, o cantor Tyga, teria recorrido a um aplicativo pouco conhecido de geração musical por IA para criar canções com estética retrô.
Para completar, os criadores desse mesmo aplicativo acabaram, na prática, entregando os dois artistas: o serviço lançou recentemente um detector integrado que aponta as faixas de Fenix e Tyga como possivelmente geradas por máquina. A novidade pode encerrar o debate que tomou conta do verão, mas abrirá um novo, ainda mais delicado.
A desconfiança sobre Fenix existe desde o início. "Rubberz" representa uma mudança radical de estilo para o artista, e a voz na gravação não se parece em nada com a dele. Crescido em East Hollywood, Fenix ficou conhecido como integrante do grupo Shorline Mafia no final da década de 2010, com uma voz anasalada e rouca inconfundível. Na faixa lançada em 5 de junho, porém, a voz é mais clara e leve, com um sotaque que lembra o cantor Morrissey.
Tanto Fenix quanto o produtor creditado, Purps on the Beat, negaram repetidamente o uso de inteligência artificial. Fenix afirmou ao canal Channel 5 que a letra foi feita de improviso e respondeu a críticos em uma apresentação do programa On the Radar: "De jeito nenhum, gravei como faço com todas as minhas músicas. A única diferença é o reverb do auto-tune e o meu falso sotaque britânico, haha".
A explicação não convenceu a todos, mas também não havia prova em contrário. Ao longo do verão, veículos especializados debateram a origem da canção. Os detectores de IA mais conhecidos não a flagravam, Fenix negava, e a música continuava somando reproduções. A questão parecia fadada a permanecer sem resposta.
A reviravolta veio na quinta-feira, quando o produtor Medasin publicou um vídeo alegando ter desvendado o método usado por Fenix. Não se tratava das plataformas Suno ou Udio, as mais populares de geração musical por IA, mas de um aplicativo menos conhecido chamado Treblo. Medasin apresentou sua acusação de forma metódica: destacou que a plataforma se chamava Sonauto até dois dias antes do lançamento de "Rubberz" e mostrou um print de um antigo story de Fenix no Instagram em que aparecia um arquivo com o sufixo "Sonauto.mp3".
O ponto mais convincente veio quando Medasin demonstrou ser capaz de recriar uma faixa muito parecida usando o próprio Treblo. Ao inserir etiquetas como "80s synthwave" e pedir à ferramenta que escrevesse letras sobre o estilo de vida de um rapper, ele obteve um resultado surpreendentemente semelhante. As letras também guardavam coincidências marcantes com "Rubberz".
A IA gerou para Medasin o verso "Diamond chains hanging heavy" (correntes de diamante pesando), enquanto "Rubberz" traz "Now I bought a heavy diamond chain" (agora comprei uma corrente pesada de diamante). A ferramenta produziu "I see your face in the champagne bubbles" (vejo seu rosto nas bolhas do champanhe), e Fenix canta "Still seeing your face in the glass" (ainda vejo seu rosto no copo). Ambas as composições exploram variações de "bolsos cheios" e mencionam "sorrisos de plástico".
"Existem coincidências demais", disse Medasin em entrevista. "É matematicamente impossível que ele não tenha usado o Treblo." Decidido a testar a tese, reproduzi o experimento: ao inserir etiquetas como "80s synthwave" e solicitar letras de rap, obtive não apenas um som parecido, mas estruturas líricas semelhantes. Em uma das tentativas, a ferramenta gerou o verso "Rings on every finger / Leather seats and cedar scent linger" (anéis em todos os dedos / bancos de couro e o aroma de cedro permanecem), praticamente um espelho da linha de "Rubberz" "Gold rings on my fingers / Still your perfume lingers" (anéis de ouro nos meus dedos / seu perfume ainda permanece).
Enquanto o ChatGPT parece obcecado por duendes, travessões e construções do tipo "não é X, é Y", o motor do Treblo demonstra fascínio por pares rimáticos como "finger/linger" (dedo/permanecer), referências a anéis, copos e bolsos, além de transições temáticas do entardecer para o amanhecer.
Medasin revelou que chegou a essa conclusão há um mês, mas decidiu guardar a informação esperando que algum jornalista fizesse o trabalho de conectar os pontos para o público. Isso aconteceu em menor escala, principalmente em um site de notícias sobre IA na música chamado Zinstrel, mas nunca ganhou grande repercussão. O vídeo de Medasin foi o primeiro a viralizar.
A publicação parece ter incomodado Fenix. Naquela tarde, ele postou em seu Instagram o que afirmou ser o arquivo original do projeto de "Rubberz". Caso fosse autêntico, serviria como prova de que a música não foi gerada por IA. No entanto, produtores musicais invadiram os comentários alegando que o arquivo parecia ter sido criado a partir de uma faixa existente, separada em componentes básicos como baixo e bateria com o auxílio de um separador de stems, o que reforçaria a hipótese de uma canção originalmente gerada por inteligência artificial.
Horas depois, Fenix apagou a publicação. Nem ele nem Purps on the Beat se manifestaram sobre o suposto vídeo de prova ou sobre o motivo da remoção. Pedidos de entrevista enviados a ambos não foram respondidos.
Dois dias depois, no sábado, Medasin publicou um novo vídeo, desta vez alegando que o projeto $TARFACE, de Tyga, também teria sido ao menos parcialmente produzido com o Treblo. Ele começou com conexões indiretas: vídeos postados nas redes sociais mostrando Tyga e Fenix juntos, a mesma gravadora, a mesma súbita transição do rap para a estética oitentista. Em seguida, apresentou o resultado de um detector experimental de IA, desenvolvido por um amigo, que sinalizou uma faixa de Tyga como possivelmente artificial.
Mas a confirmação mais impactante veio diretamente do Treblo. "Parece que alguém usou nosso modelo para encontrar um som com o qual milhões de pessoas se conectaram, e isso é empolgante", declarou Ryan Tremblay, cofundador da plataforma. Segundo ele, a empresa nunca havia tido contato com Tyga ou Fenix e não fazia ideia da existência de "Rubberz" até a música entrar na Hot 100.
A identificação individual de canções pode se tornar desnecessária em breve. No domingo à noite, o Treblo publicou uma página intitulada "Was This Made With Treblo?" (Isso foi feito com o Treblo?), que funciona essencialmente como um detector musical. "Acreditamos que os ouvintes merecem saber o que estão escutando", explicou a empresa, descrevendo a ferramenta como "ajustada para detectar músicas criadas com o Treblo com pouca ou nenhuma modificação".
Ao submeter "Rubberz" à ferramenta, o resultado foi "Muito provavelmente Treblo". Uma faixa lançada por Tyga no início de julho foi classificada como "Provavelmente Treblo". Segundo o site, a taxa de falsos positivos é inferior a um em dez mil. A eficácia do detector ainda não foi avaliada de forma independente, mas a empresa disponibilizou o código em licença aberta, permitindo que qualquer pessoa o examine e teste.
A coincidência de timing não é casual. No mesmo dia em que Medasin publicou seu primeiro vídeo, a rede profissional LinkedIn lançou um botão chamado "parece IA", que permite aos usuários sinalizar conteúdo gerado artificialmente. Duas semanas antes, a plataforma de newsletters Substack apresentou um recurso semelhante, voltado para detectar textos escritos por IA. O serviço de streaming Tidal já bloqueia a monetização de músicas geradas por inteligência artificial, e o Spotify, embora não disponha de um sistema próprio de marcação, mantém um rastreador colaborativo onde ouvintes podem denunciar esse tipo de conteúdo.
A proliferação de geradores de imagem e vídeo nos últimos anos alimentou preocupações sobre a disseminação de conteúdo fabricado por máquinas e desinformação. Nos Estados Unidos, um projeto bipartidário de lei de rotulagem de IA foi apresentado no Senado como solução parcial: obrigar plataformas a identificar de forma visível conteúdos gerados por inteligência artificial. "As pessoas merecem saber", afirmou um senador à publicação Politico.
O que talvez não tenha sido previsto é que existiriam pessoas que não querem saber. Ou que ficariam irritadas ao ver a fantasia destruída. A seção de comentários do primeiro vídeo de Medasin está repleta desse tipo de reação: fãs que dizem gostar de "Rubberz" independentemente de sua origem, que não se importam com o uso de IA, que consideram a tecnologia o futuro e que acusam Medasin de inveja, por não ter tido a mesma ideia.
Medasin não se mostrou surpreso. Ele admite que gostou da música ao ouvi-la pela primeira vez e que ainda a aprecia, embora de forma meio irônica. "É grudenta, ficou na minha cabeça por um mês inteiro", afirmou. Ainda assim, decidiu arriscar a própria reputação para expor o caso.
Para ele, pode haver espaço para a inteligência artificial na música, mesmo que pessoalmente não aprecie. O que ele exige é transparência por parte dos artistas, para que o público possa decidir por conta própria. "Este é um momento crucial na história da música", disse Medasin. "Tenho profundo respeito e admiração pela jornada dos músicos, dos seres humanos e pela experiência humana sendo celebrada e presente na música." Ele condena quem seria desonesto sobre isso e lucraria com o engano. "É antiético para mim em um nível quase espiritual", concluiu.
Os fãs de música passaram metade do verão discutindo se uma faixa de sucesso repentino era sintética. Aparentemente, agora têm uma resposta. Resta decidir o quanto isso importa para eles.
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