A expansão dos data centers nos Estados Unidos ganhou um ritmo que pegou de surpresa reguladores, concessionárias de energia e até mesmo parte do setor de inteligência artificial. Até o início de 2026, mais de 300 projetos de lei voltados a essas instalações já tramitavam nas esferas estadual e federal, número que deve crescer nos próximos meses. As propostas variam desde moratórias temporárias até a criação de novas categorias tarifárias, todas motivadas por uma preocupação central: a rede elétrica, desenhada ao longo de décadas para atender residências e indústrias tradicionais, não foi projetada para suportar cargas que vão de centenas de megawatts a mais de um gigawatt.
O estopim dessa corrida regulatória foi a chegada da inteligência artificial generativa, que provocou uma avalanche de novos empreendimentos em um curtíssimo espaço de tempo. Segundo Tyson Slocum, diretor do Programa de Energia da organização Public Citizen, praticamente todos os envolvidos foram pegos desprevenidos pela velocidade e pela magnitude do crescimento projetado. A questão deixou de ser técnica e passou a ser política, pressionando as assembleias legislativas a agirem.
O impacto sobre o bolso do consumidor já é mensurável em regiões com forte concentração de data centers. Em Columbus, no estado de Ohio, a conta de luz residencial subiu entre 10 e 16 dólares por mês, um aumento que gerou grande mal-estar entre a população. O cenário é ilustrado por um episódio relatado por Josephus Allmond, recém-nomeado chefe de energia da Virgínia: ao entrar em uma loja da operadora de telefonia durante a sessão legislativa, ele foi abordado por funcionários que queriam entender por que suas contas tinham subido tanto por causa dos data centers. As concessionárias argumentam, por outro lado, que a elevação das tarifas decorre de investimentos em transmissão, distribuição e geração, e não exclusivamente da presença dessas instalações.
Diante do impasse, os estados se dividiram em dois grupos: aqueles que já convivem com grande volume de data centers, como Virgínia, Ohio e Oregon, e os que observam o fenômeno de longe, como o Maine. Os primeiros têm buscado modelos de regulação e gestão, com criação de novas classes tarifárias. Os segundos optaram por pausar novos projetos enquanto constroem uma estrutura regulatória adequada.
Ohio foi um dos pioneiros nessa resposta. A concessionária American Electric Power identificou o problema em 2021, quando começou a receber pedidos de estudo de capacidade em volume incompatível com sua capacidade operacional. O ápice veio em 2023, com solicitações totalizando 30 gigawatts, montante completamente fora de qualquer cenário realista de construção. Segundo Zach Miller, diretor de desenvolvimento econômico e integração de data centers da empresa, muitos projetos eram meramente especulativos, inscritos por desenvolvedores sem clientes finais definidos e contados em duplicidade em vários estados. A solução foi suspender os estudos e desenhar uma nova tarifa, aprovada em julho de 2025. A regra estabelece um limite mínimo de 25 megawatts para a nova categoria de consumidores, contratos de oito a doze anos, pagamento obrigatório de 85% da capacidade contratada mesmo sem uso, além de garantias financeiras equivalentes ao custo total da infraestrutura. O resultado foi imediato: dos 30 gigawatts iniciais, apenas 13 formalizaram pedidos, e 5,2 avançaram para a primeira fase de estudos, pouco mais de 18% do volume original.
No Oregon, a resposta veio por meio do Ato de Energia, sancionado em junho do ano passado e regulamentado em maio de 2026. A deputada estadual Pam Marsh, que preside a Comissão de Energia e Meio Ambiente da Câmara local, liderou a construção do texto após perceber que data centers estavam migrando para áreas atendidas por cooperativas e concessionárias municipais justamente para escapar da exigência de energia limpa. A nova lei cria uma classe tarifária específica para operações com consumo igual ou superior a 20 megawatts, incluindo mineração de criptomoedas, e determina contratos de longo prazo entre a concessionária e o operador para evitar que a população arque com custos de ativos ociosos.
A Virgínia, sede do maior mercado de data centers do mundo, enfrenta o desafio de outra forma. A concessionária Dominion Energy destinou 30% dos investimentos planejados em transmissão para atender essas instalações, e os custos vinham sendo diluídos entre todos os consumidores. Em março do ano passado, a empresa solicitou a revisão tarifária que resultou na criação da classe GS-5, aprovada pela Comissão Corporativa do Estado em novembro e com vigência a partir de janeiro de 2027. A regra vale para clientes com capacidade a partir de 25 megawatts, abrange cerca de 450 data centers e estabelece contratos de 14 anos, com cobrança mínima de 85% para infraestrutura de transmissão e distribuição e 60% para geração. Estimativas iniciais indicam aumento de 15,8% nas contas dos data centers e redução média de 5,52 dólares por mês na fatura dos consumidores residenciais.
Já o Maine, estado com poucos projetos em curso, tentou uma abordagem preventiva. A deputada Melanie Sachs apresentou em fevereiro de 2025 o projeto de lei LD 307, que previa moratória de 18 meses para novos data centers e a criação de um conselho colaborativo de 13 membros para estudar o tema. A proposta foi aprovada por maioria bipartidária nas duas casas legislativas, mas vetada pela governadora Janet Mills, que argumentou que o texto não permitia a construção de um empreendimento na cidade de Jay, com forte apoio local. A desenvolvedora Sentinel Data Centers chegou a se retirar do projeto posteriormente, mas a decisão de vetar a moratória deixou o estado sem regras específicas para lidar com futuras instalações, o que tem levado municípios a adotarem restrições locais por conta própria.
No âmbito federal, a administração Trump tenta impor uma coordenação maior. Em março, o presidente reuniu Amazon, Google, Meta, Microsoft, OpenAI, Oracle e xAI em torno do Compromisso de Proteção ao Consumidor, pelo qual as empresas se comprometeram a construir ou comprar novos recursos de geração e arcar com os custos de infraestrutura. O acordo, porém, não tem força legal, e críticos apontam que o Departamento de Energia chegou a pedir à Comissão Federal de Regulação de Energia (FERC) que assumisse jurisdição sobre data centers conectados à rede federal, o que gerou reação de estados e concessionárias. Enquanto isso, Califórnia, Ohio e Utah já promulgaram leis mais rigorosas que o pacto federal, e ao menos 27 estados analisam legislações que obrigam os desenvolvedores a cobrir os custos de energia e reportar seu consumo.
O saldo do embate entre os estados, a indústria e o governo federal é um mosaico de soluções. Ohio criou um filtro contra projetos especulativos. Oregon estabeleceu um modelo de responsabilidade financeira. A Virgínia redesenhou a forma como os custos são alocados. O Maine, ao menos por ora, ficou no meio do caminho. A mensagem para o setor, porém, parece clara: as regras mudaram, e quem quiser erguer um data center terá de pagar a conta.
Fonte: DCD
