A montadora norte-americana Lucid Motors revelou nesta terça-feira o seu chamado "reset operacional", uma estratégia centrada na redução de 1,4 bilhão de dólares em caixa e em três frentes consideradas prioritárias para tirar a empresa da crise: o programa de táxis autônomos, a fábrica na Arábia Saudita e o lançamento de um veículo elétrico de porte médio.
O tão esperado modelo intermediário, que deveria chegar ao mercado com preço inicial abaixo de 50 mil dólares, teve seu cronograma adiado mais uma vez e só deve começar a ser entregue no próximo ano. A previsão anterior era iniciar as vendas ainda em 2026. "Nosso objetivo é claro: o modelo médio só será lançado quando todos os processos e padrões de qualidade estiverem atendidos", afirmou o novo presidente-executivo da companhia, Silvio Napoli, durante a teleconferência com investidores. "Não vamos repetir os erros do passado colocando um produto no mercado antes da hora."
Sob a liderança de Napoli, o plano de reestruturação busca frear a crescente acumulação de veículos elétricos em estoque e os gastos sem controle que marcaram os últimos trimestres. Para atingir a meta de 1,4 bilhão de dólares em economia, a empresa anunciou cortes de 500 milhões de dólares em investimentos de capital, projeta reduzir entre 600 milhões e 800 milhões em estoques e diminuir as despesas operacionais em 200 milhões de dólares, conforme o balanço do segundo trimestre divulgado nesta terça-feira.
Caso o esforço funcione, a companhia terá fôlego financeiro suficiente para se manter de pé pelo menos até 2027, garantiu o executivo. Em sua primeira apresentação trimestral de resultados como líder da empresa, Napoli foi direto ao diagnóstico. "A maneira como operamos precisa mudar. Embora não haja dúvida de que a Lucid trouxe inovações de ponta e produtos excelentes ao mercado, decepcionamos em vários aspectos e por tempo demais. Não executamos de forma consistente, descumprimos compromissos, lançamos produtos antes de estarem prontos, subinvestimos no pós-venda, respondemos com lentidão a problemas de qualidade e deixamos a complexidade atrapalhar nossas decisões."
Parte do plano já está em andamento. A empresa promoveu uma reforma profunda em sua cúpula, contratando novos executivos para as áreas financeira, de tecnologia, atendimento ao cliente, transformação digital e operações. Napoli também reduziu à metade o número de subordinados diretos e, em junho, determinou a demissão de 18% do quadro de funcionários, o equivalente a cerca de 1,5 mil pessoas — apenas quatro meses depois de um corte anterior de 12%. A Lucid também eliminou o segundo turno de produção na fábrica de Casa Grande, no estado americano do Arizona. As demissões e o encerramento do turno devem gerar uma economia anualizada de 158 milhões de dólares, segundo o executivo.
Mesmo com essas medidas, os números do segundo trimestre mostram que a montadora continua sangrando dinheiro. A receita subiu de 259,4 milhões de dólares no mesmo período do ano passado para 405 milhões. Por outro lado, o prejuízo líquido atingiu 1,26 bilhão de dólares, ou 3,30 dólares por ação, contra um rombo de 855,3 milhões de dólares, ou 2,80 dólares por ação, registrados um ano antes. A empresa encerrou o trimestre com 3 bilhões de dólares em liquidez total.
Embora a contenção de gastos esteja no centro da reestruturação, Napoli listou projetos estratégicos que considera decisivos para tornar a Lucid lucrativa no futuro: o modelo médio batizado de Cosmos, a conclusão da fábrica AMP-2 na Arábia Saudita e o programa de táxis autônomos desenvolvido em parceria com a Uber e a Nuro. O Cosmos será o primeiro carro construído sobre a nova plataforma de veículos médios, que, nas palavras do executivo, segue sendo peça fundamental do planejamento estratégico.
Napoli demonstrou otimismo em relação ao serviço de robotáxis em parceria com a Uber e a Nuro, enxergando nele uma oportunidade de aumentar a receita fora do varejo tradicional de veículos. Para reforçar essa frente, a companhia criou uma nova unidade de negócios chamada Lucid Technologies, que será comandada pelo diretor digital Kai Stepper e ficará responsável por inteligência artificial, sistemas avançados de assistência ao motorista e tecnologia digital. "Projetamos margens muito superiores às do modelo de varejo tradicional", afirmou Napoli, referindo-se ao programa que integra a tecnologia de direção autônoma da Nuro aos utilitários esportivos Gravity da própria Lucid. A Uber ficará responsável por operar o serviço premium de robotáxis, permitindo que usuários solicitem os veículos autônomos pelo aplicativo.
A Nuro e a Uber já estão testando uma frota de cem veículos nas cidades de Houston e na região da Baía de São Francisco. A empresa informou que no mês passado começou a entregar unidades de validação de produção montadas em uma instalação em Coolidge, no Arizona. A fabricação em escala dos robotáxis está prevista para o quarto trimestre, com lançamento esperado para o final de 2026.
Durante a conferência, Napoli também aproveitou para desmentir os rumores divulgados no mês passado sobre uma possível contratação da consultoria AlixPartners para avaliar um pedido de proteção contra falência. Segundo o executivo, o trabalho da firma tem se limitado exclusivamente a apoiar o plano de corte de custos e a desburocratizar as operações da empresa, devendo ser concluído até o final deste mês.
Fonte: TechCrunch
