“Vamos todos conseguir, irmão!” Esse era o grito motivacional de Aziz Shavershian, conhecido pelo pseudônimo Zyzz. O jovem filho de pais curdos, nascido na Rússia e criado em Sydney, na Austrália, passou de um adolescente tímido e magro a um fenômeno da internet que conquistou fãs ao redor do mundo inteiro. Sua jornada FITNESS, com horas diárias de treino na academia, o transformou em uma celebridade australiana até 2010, poucos anos depois de ter criado seu personagem polêmico e irreverente.
O documentário “Poster Boy: Becoming Zyzz”, disponível nas plataformas de streaming Apple TV e Prime Video, retraça a vida breve e trágica do jovem que morreu aos 22 anos em agosto de 2011, na Tailândia. A obra da realizadora Selina Miles vai além da história de um jovem ambicioso em busca de fama, analisando também as forças digitais que permitiram a ascensão de alguém como Zyzz, antecipando toda uma geração de influenciadores de masculinidade.
“Vejo isso realmente como uma história de advertência”, afirmou a realizadora em entrevista. Ela destaca que a ascensão meteórica e a morte prematura de Shavershian deixaram uma impressão duradoura nos millennials australianos, e que sua lenda continua a ressoar até hoje. “Ele passou por sua transformação, e sua história realmente tocou muitas pessoas. Precisamos entender o porquê. Por que ele teve esse impacto nos homens?”, questionou Miles.
O documentário mescla imagens de arquivo de Zyzz com entrevistas de amigos próximos e de seu irmão mais velho, Said Shavershian, atualmente um bodybuilder profissional. Na época em que Zyzz ganhou popularidade, poucas pessoas imaginavam que plataformas como o YouTube, lançado em 2005 quando ele tinha apenas 16 anos, ou o Facebook poderiam ser caminhos para fama e sucesso financeiro.
Embora Zyzz promovesse valores de inclusão e apoio mútuo entre homens que buscavam se tornar a melhor versão de si mesmos, ele também alimentava controvérsias para atrair cliques. “Irritado?” e “Venha me enfrentar, irmão” eram algumas de suas frases de efeito constantes. Ele entendia antes de muitos como a polêmica gerava engajamento, chegando a criar contas falsas nas redes sociais para amplificar conflitos.
Por trás da bravata, no entanto, Zyzz parecia psicologicamente despreparado para a exposição pública. Além de usar esteroides anabolizantes para esculpir seu físico definido — ele e outros perfis de fitness formavam o conhecido “Aesthetics Crew” —, ele tomava medicamentos ansiolíticos para lidar com o estresse e a paranoia de ser reconhecido nas ruas, onde também era frequentemente ameaçado por jovens em busca de briga.
Em 2010, ele já tinha mais seguidores na plataforma Facebook do que o primeiro-ministro da Austrália da época. Seus métodos, porém, ficaram cada vez mais extremos. Em um vídeo, ele se gabava de usar clembuterol, um medicamento veterinário para tratar asma em cavalos, muito procurado por fisiculturistas apesar dos riscos cardiovasculares para humanos.
O filme também explora como criadores de conteúdo masculino atuais podem lucrar milhões com a venda de suplementos e cursos para jovens vulneráveis em busca de transformação pessoal. Zyzz estava “na fronteira” dessa economia, ganhando cerca de 20 mil dólares nos últimos três meses de vida — quantia hoje considerada modesta se comparada aos ganhos dos grandes criadores.
Zyzz viajou sozinho para a Tailândia em julho de 2011, tendo dito a cada amigo mais próximo que estaria acompanhado por outro. Após sua morte, as autoridades tailandesas revelaram que ele comprou diversos medicamentos farmacêuticos e submeteu-se a várias cirurgias faciais no país. Quem foi identificar seu corpo na Austrália mal conseguia reconhecê-lo devido a esses procedimentos estéticos.
A causa exata da morte de Shavershian nunca havia sido revelada publicamente até o documentário divulgar os resultados de seu laudo toxicológico: insuficiência respiratória aguda causada por uma combinação de morfina, cocaína e benzodiazepínicos.
O irmão Said, que mantém uma marca de fitness, vende camisetas com ilustrações de ambos os rostos e frases relacionadas à cultura de otimização física. No entanto, a realizadora espera que os espectadores tirem lições diferentes do que aconteceu com Shavershian conforme ele foi se transformando em Zyzz, fragmentando sua identidade real no processo de construção de uma fachada cada vez mais comum na era dos influenciadores.
“Essa era uma persona que ele criou, e ele sentia que era separada de quem realmente era, que era aceitável assumir riscos”, explicou Miles. “Foi tão bem-sucedida que acabou dominando sua vida.” Independentemente de suas boas intenções iniciais, os incentivos dos algoritmos “corromperam essas ideias e mudaram ele como pessoa”, completou.
Apesar de tudo, sua fórmula perdurou. Ainda há muitos jovens homens que querem ouvir que podem ser “mestres do próprio universo, ter algum controle sobre seu destino e ser quem quiserem”, segundo a realizadora. “Mais do que nunca, os homens buscam esse senso de esperança. E Zyzz de alguma forma lhes proporcionou isso.”
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