A indústria de cibersegurança, avaliada em bilhões de dólares, enfrenta sua maior crise desde a era dos primeiros vírus de computador. A afirmação é de Alex Stamos, executivo-chefe de segurança da empresa Cognition e especialista com décadas de experiência no setor. Em entrevista ao programa Decoder, Stamos comparou o momento atual aos primórdios da internet nos anos 1990, quando qualquer pessoa com conhecimento técnico podia causar danos significativos. A diferença, segundo ele, é que hoje o mundo inteiro depende de sistemas conectados, e as ferramentas de ataque se tornaram assustadoramente acessíveis.
Nas últimas semanas, uma sequência impressionante de invasões sacudiu o setor de tecnologia. A plataforma de criptomoedas Binance sofreu o maior roubo da história da humanidade. A empresa de ferramentas de programação Cursor foi comprometida após hackers acessarem dados da provedora de serviços de inteligência artificial Fireworks. A partir daí, um plugin malicioso chegou a cinco mil empresas, potencialmente gerando milhares de novas violações. Para Stamos, essa cadeia de ataques interconectados representa o novo normal do cenário digital.
O especialista Alertou que atores estatais, como Coreia do Norte e grupos vinculados à China, estão aproveitando modelos de inteligência artificial de código aberto para automatizar completamente o processo de invasão. Uma ferramenta como o ARTEX, disponível publicamente em plataformas como GitHub, permite que qualquer pessoa com um computador comum identifique vulnerabilidades em tempo real e desenvolva códigos de exploração automaticamente. O que antes exigia centenas de especialistas agora pode ser feito por um único operador com um Mac Studio e um modelo de linguagem poderoso.
A economia da cibersegurança mudou de forma irreversível. Enquanto os custos de ataque tendem a zero, os gastos com defesa permanecem elevados. Stamos revelou que uma única investigação usando modelos avançados de cibersegurança pode custar cerca de 900 dólares, um valor inviável quando comparado ao custo marginal zero dos grupos russos de ransomware operando com equipamentos descartáveis. A solução, segundo ele, está em reduzir drasticamente o custo das ferramentas defensivas.
O especialista ainda defendeu uma medida drástica: empresas como Google e Amazon deveriam financiar a reescrita completa do núcleo do sistema Linux na linguagem de programação Rust, eliminando décadas de código vulnerável. O investimento estimado seria de 100 milhões a um bilhão de dólares, mas economizaria bilhões em correções futuras. Stamos desafiou diretamente executivos de alto nível dessas empresas, argumentando que seria mais barato reconstruir do que continuar remediando falhas indefinidamente.
Sobre o futuro, Stamos adotou um tom realista. Ele acredita que a humanidade está entrando em uma "era das trevas" da segurança digital, que deve durar anos até que a maioria do código herdado seja substituída por programas escritos por inteligência artificial em linguagens mais seguras. Até lá, a recomendação é clara: empresas precisam testar agressivamente seus próprios sistemas usando ferramentas de invasão controladas por inteligência artificial, antes que competidores maliciosos façam isso primeiro.
A questão das imagens e textos gerados por inteligência artificial nas redes sociais também foi abordada. Stamos sugeriu que plataformas deveriam focar em verificar o que é autêntico, em vez de detectar o que é falso. Tecnologias de verificação criptográfica, como as já presentes em smartphones modernos, oferecem uma solução mais confiável do que tentativas de identificar conteúdo sintético.
Fonte: The Verge