Poucas montadoras dependem tanto de sucessos avassaladores de vendas quanto a Ford. É quase como se estivesse gravado no código genético da empresa: do Modelo T ao Taurus, da F-150 ao Explorer, a marca sempre saltou de um êxito para o outro. Nos últimos tempos, porém, a montadora vem colecionando fracassos em busca de um novo fenômeno de mercado. Embora as vendas nos Estados Unidos tenham subido 6% em 2025 frente ao ano anterior, totalizando 2,08 milhões de unidades, o volume atual representa menos da metade do auge histórico de 4,48 milhões registrado em 2000. Dos modelos lançados recentemente, nenhum emplacou como um estouro comercial.
O presidente da Ford, Jim Farley, deposita suas fichas na próxima picape elétrica chamada Fathom para mudar esse panorama. Ele classificou a chegada do veículo e da nova plataforma universal de carros elétricos como um momento equivalente ao do lendário Modelo T para a companhia. A montadora precisa de um produto capaz de fazer frente à concorrência chinesa, que tem avançado pelo planeta com força impressionante. Ainda assim, por motivos que envolvem tanto fatores internos quanto externos, é improvável que a Fathom repita o êxito do Taurus ou do Explorer, dois modelos que sustentaram os resultados da Ford nos anos 1990.
A Fathom pode até render um sucesso razoável. De todo modo, o modelo de entrada promete ser um bom negócio. Na quinta-feira passada, a Ford informou que o preço inicial será de 29.945 dólares, já contabilizando as taxas de entrega. O valor fica bem abaixo da média de 50 mil dólares praticada para veículos novos e dos 56 mil dólares do segmento elétrico. Também está cerca de 5 mil dólares abaixo da chamada Linha Keating, referência de preço médio nos estoques das concessionárias.
Contudo, os consumidores não decidem uma compra olhando apenas para o preço, e é justamente aí que começam os obstáculos. A Fathom será uma picape compacta, um porte que o mercado praticamente ignorava até a Ford lançar a Maverick, em 2021. A novidade entra num nicho ainda pouco explorado, mas que também não parece oferecer um potencial gigantesco. Os números da própria Maverick servem de pista: as vendas foram sólidas, totalizando 155 mil unidades no ano passado, porém o modelo está longe de ser um fenômeno. Em seu melhor momento, em 1992, o Taurus vendeu mais que o dobro disso.
A Fathom, no entanto, leva algumas vantagens em relação à Maverick. Segundo a Ford, os passageiros terão um pouco mais de espaço interno. O carro elétrico também oferecerá um compartimento de carga na dianteira, novidade que pode fisgar compradores de modelos tradicionais que nunca cogitaram uma picape pela ausência de um porta-malas fechado. Mesmo assim, o visual continua sendo de picape, e nem todo mundo se identifica com esse estilo. A maior fatia do mercado atual é dominada por utilitários esportivos: pouco mais de 70% dos compradores em potencial querem um SUV, contra apenas 33% interessados em picapes, de acordo com dados da Cox Automotive.
Mesmo entre os fãs das caminhonetes, a Fathom pode enfrentar resistência. Para muita gente, uma picape é questão de identidade. Elas querem um veículo que aparente estar pronto para trilhas radicais, mesmo que jamais saia do perímetro urbano. Todas as montadoras sabem disso. Recentemente, em uma apresentação da qual participei, a General Motors fez questão de frisar que está entregando as picapes com suspensão elevada que o público exige. A Fathom, pelo pouco que se viu até o momento, não transmite essa imagem de robustez extrema.
Há ainda a barreira da eletrificação. A maioria das pessoas que adota um carro elétrico, eu incluso, jamais voltaria a comprar um automóvel a combustão, mas boa parte do público tem aversão a mudanças. Essas pessoas estão satisfeitas com seus veículos a gasolina, e muitas concessionárias contribuem para manter esse conservadorismo. O destino da Fathom não será ditado apenas pelos humores do mercado. A Ford pode investir pesado em marketing e no treinamento das revendedoras para superar a resistência à eletrificação, e talvez consiga convencer o consumidor de que uma picape com bagageiro dianteiro é o substituto ideal para um sedã.
Quase certamente a marca vai lançar uma versão mais robusta da Fathom em algum momento. Isso será suficiente para transformá-la em um fenômeno? Provavelmente não. Mas talvez a Ford não precise disso. Talvez a Fathom seja um teste do novo processo produtivo, um jeito de molhar os pés numa faixa de praia ainda não ocupada pelos concorrentes. As picapes compactas não estão batendo recordes, mas o mercado para elas segue em crescimento. A montadora pode usar essa demanda para escoar toda a produção da Fathom enquanto aprimora plataforma e processo. Depois, com a confiança de que tudo funciona, pode expandir para outros segmentos, incluindo os utilitários esportivos.
A Fathom talvez não seja a tentativa da Ford de rebater a bola com tudo. É possível que a empresa esteja apenas esperando chegar à base, preparando terreno para o próximo modelo a sair da plataforma universal de veículos elétricos, aquele que de fato precisa se tornar um grande sucesso.
Fonte: TechCrunch

