O Goldman Sachs disponibilizava recursos para uma empresa brasileira de tecnologia financeira sem exigir qualquer tipo de garantia. O financiamento era direcionado para operações de empréstimo pessoal em reais, uma das modalidades de crédito com maior risco de inadimplência. No entanto, quando o mesmo banco foi procurado para financiar operações lastreadas em Bitcoin, a resposta foi negativa imediata, sem que a proposta sequer chegasse ao conhecimento do comitê executivo.
A história foi contada por Raphael Zagury, atualmente diretor executivo da Twenty One Capital, durante entrevista ao podcast Coin Stories, conduzido por Natalie Brunell e publicado em 15 de setembro. Segundo o relato, a mesa de Capitais do Goldman Sachs se mostrou disposta a analisar a operação de empréstimo sem garantia, classificada como de altíssimo risco, mas tratou qualquer menção ao Bitcoin como razão suficiente para encerrar a conversa antes mesmo da discussão sobre valores.
Para J. P. Mayall, fundador do primeiro fundo de índice de Bitcoin da América Latina, o episódio evidencia a distância entre o risco real e o risco perceito dentro do sistema bancário tradicional. O empresário destaca que as discussões atuais se concentram na questão do capital regulatório, e não em questões de supervisão, como ocorria anteriormente.
Zagury revelou que, ao apresentar dados matemáticos sobre o risco envolvido nas operações com Bitcoin, a mesa do banco concordou com cada ponto apresentado. Ainda assim, foi informado de que a discussão jamais chegaria ao comitê executivo, pois a simples menção ao criptoativo encerraria qualquer possibilidade de negociação antes da análise numérica.
O executivo também descreveu um segundo desequilíbrio percebido no mercado, desta vez relacionado à securitização. Ao estruturar dívida lastreada em receita de mineração de criptomoedas, ele identificou que emissores consideram fluxo de caixa significativamente menos arriscado do que ativo, mesmo quando esse ativo é o Bitcoin, descrito como o colateral mais líquido e verificável disponível no mercado.
O arcabouço regulatório que limitava operações com criptoativos foi amplamente modificado ao longo de 2025. A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos substituiu o SAB 121 pelo SAB 122 em 30 de janeiro, a OCC se retirou dos comunicados conjuntos em 7 de março, o FDIC revogou a FIL-16-2022 em 28 de março, e o Banco Central dos Estados Unidos rescindiu a SR 22-6 em 24 de abril. Desde então, bancos americanos não necessitam de notificação prévia para atividades permitidas com criptoativos.
Com a remoção dessas barreiras de supervisão, o que permaneceu como obstáculo é a questão do capital regulatório estabelecido pelo Comitê de Supervisão Bancária de Basileia. Desde 1º de janeiro de 2026, está em vigor o padrão SCO60, que classifica o Bitcoin no chamado Grupo 2b, com exigência de capital próprio equivalente ao valor total da posição, um weight de risco de 1.250 por cento.
Além do custo elevado, o padrão impõe limites de exposição inexistentes para outras classes de ativos. Quando a exposição ultrapassa 1 por cento do capital de primeira linha, o tratamento se torna mais gravoso, e ao exceder 2 por cento, toda a carteira de criptoativos do grupo é impactada. Isso significa que um banco disposto a arcar com o custo de capital ainda esbarra em limites estruturais antes de transformar a operação em linha de negócio relevante.
Os Estados Unidos ainda não implementaram o SCO60. Em 19 de março de 2026, o Banco Central dos Estados Unidos, o Escritório do Contralor da Moeda e a Corporação Federal de Seguro de Depósitos Bancários apresentaram propostas de recalibragem das regras de capital que não tratam de exposição a criptoativos. Mayall avalia que a definição específica para criptoativos deve sair ainda em 2026 e que é esse normativo, mais do que qualquer agenda legislativa, o verdadeiro determinante do acesso bancario ao Bitcoin.
Raphael Zagury é brasileiro e assumiu em julho de 2026 o comando da Twenty One Capital, listada na Bolsa de Valores de Nova York e segunda maior tesouraria corporativa de Bitcoin do mundo, com mais de 43 mil unidades de Bitcoin em balanço e a Tether como acionista majoritária. O executivo possui trajetória internacional em renda fixa nos principais bancos globais e fundou uma empresa brasileira de tecnologia financeira, além de ter atuado como diretor de investimentos da Swan Bitcoin e criado a Elektron Energy, empresa de mineração com operações em diversos países.
J. P. Mayall é empresario e executivo do mercado de ativos digitais, cofundador da QR Capital, gestora vendida em 2025. Liderou o primeiro fundo de índice de Bitcoin da América Latina, três fundos de índice pioneiros na bolsa brasileira, o primeiro fundo do país 100% investido em criptoativos e um dos primeiros projetos de tokenização aprovados no ambiente regulatório da Comissão de Valores Mobiliários. Também estruturou certificações profissionais para o setor e assessorou entidades de mercado em temas relacionados a tecnologia blockchain.
Fonte: Livecoins