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Carros elétricos parados nas garagens podem ser a chave para salvar a rede elétrica

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À primeira vista, um veículo elétrico passando pela estrada parece comum. Mas por trás do volante há uma fonte de energia com potencial para transformar o sistema elétrico. Esses automóveis não apenas consomem eletricidade ao serem recarregados — alguns também podem devolver energia para a rede em momentos de necessidade. A tecnologia chamada de veículo para a rede, conhecida pela sigla V2G, já começa a render dinheiro aos motoristas, que recebem pagamentos das concessionárias quando suas baterias são utilizadas nos horários de pico de consumo.

Nesta semana, um grupo formado pelas empresas Eversource, National Grid, EnergyHub, Sunrun e Mobility House iniciou um programa experimental em Massachusetts para que clientes residenciais possam testar a novidade. O objetivo é reunir informações que permitam escalar a tecnologia e integrá-la ao funcionamento cotidiano do sistema elétrico. A expectativa é de que a estratégia contribua para uma rede mais estável e tarifas mais acessíveis, inclusive para quem não possui carro elétrico.

O projeto se conecta a uma iniciativa já existente chamada ConnectedSolutions, que permite a residências utilizarem suas baterias para abastecer o próprio imóvel. Quando ocorre um evento de resposta à demanda — geralmente em situações de calor intenso, quando o uso de ar-condicionado dispara —, as baterias dos veículos podem entrar em ação para equilibrar o sistema. Os participantes recebem uma compensação financeira, de forma semelhante a quem já fornece energia por meio de painéis solares.

Segundo Russell Vare, vice-presidente de integração entre veículos e rede na Mobility House América do Norte, a descarga das baterias acontece poucas horas por ano, apenas nos momentos de maior pressão sobre a rede. Para as concessionárias, o interesse no V2G é crescente diante de uma série de desafios que se acumulam. A procura por eletricidade não para de subir, alimentada pela expansão de centros de dados, pela troca de carros a combustão por modelos elétricos e pela substituição de aquecedores a gás por bombas de calor. Ao mesmo tempo, as empresas do setor tentam abandonar combustíveis fósseis em favor de fontes renováveis como eólica e solar, que apresentam o inconveniente de serem intermitentes.

Construir grandes instalações de armazenamento e esticar novas linhas de transmissão custará caro — valores que inevitavelmente recairão sobre os consumidores. Mas parte desses gastos pode ser evitada com a adoção em larga escala do V2G. Veículos elétricos representam uma fonte de energia de reserva já existente, amplamente distribuída e confiável, capaz de ser acionada em períodos críticos. Cada bateria de carro elétrico típico tem capacidade aproximadamente seis vezes maior do que uma unidade de backup instalada em uma residência.

Apesar de nem todos os modelos possuírem o hardware necessário, opções como o Nissan Leaf já saem de fábrica preparadas para a função. Com a queda esperada nos preços dos carregadores bidirecionais e a simplificação das instalações, a tendência é de que a tecnologia se torne cada vez mais acessível nos próximos anos. Quanto mais veículos conectados ao sistema, menor a necessidade de extrair energia de cada bateria individualmente, o que reduz o desgaste e amplia a vida útil dos equipamentos.

Frotas com horários previsíveis, como ônibus escolares e veículos municipais, são consideradas especialmente úteis para o modelo, já que combinam baterias de grande porte com rotinas programadas. Aplicativos em desenvolvimento permitirão que os proprietários informem seus hábitos de uso, garantindo que o carro esteja disponível para devolver energia nos horários certos, como no início da noite, quando a demanda dispara. Durante a madrugada e a manhã, os próprios veículos se recarregam em horários escalonados, evitando picos de consumo.

A proposta central é transformar consumidores comuns em participantes ativos do sistema elétrico, com fluxo de energia circulando nos dois sentidos. Longe de sobrecarregar a infraestrutura atual, a frota de veículos elétricos pode se tornar uma aliada na construção de uma rede mais limpa, resiliente e barata.

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