Erin McNulty estava perdida há semanas quando sua mãe, Linda, exausta após mais uma semana de trabalho na loja de antiguidades que administra nos arredores de Burlington, no Vermont, finalmente a encontrou. Erin, então com 45 anos, consumia metanfetamina há anos. Sua trajetória com substâncias começou no ensino médio, com álcool e maconha, até chegar à heroína. A família tentou ajudá-la durante anos, levando-a a clínicas de metadona a centenas de quilômetros de distância, submetendo-a a internações e testemunhando overdoses. Quando um amigo apresentou a metanfetamina, Linda lembra: “A Erin se foi”.
Um programa de televisão sobre procedimentos médicos revolucionários mudou o destino da família. Em início de 2024, uma reportagenm mostrou uma técnica que utilizava ultrassom para tratar o cérebro sem cortes ou perfurações. Pesquisadores da Universidade West Virginia testavam o método em pessoas com Alzheimer e dependência química. O neurocirurgião Ali Rezai, pioneiro em estimulação cerebral profunda, liderava o estudo. Linda não hesitou: atravessaria o país para levar a filha até lá.
Rezai, que cresceu em Los Angeles após nascer no Irã, nunca imaginou trabalhar em West Virginia. “Meus colegas disseram que eu estava cometendo suicídio acadêmico”, conta. Mas ele viu uma oportunidade de desenvolver novos tratamentos no epicentro da crise de dependência química dos Estados Unidos. Quase 45 milhões de americanos enfrentam algum transtorno por uso de substâncias, e West Virginia registra a maior taxa de mortes por overdose do país, mais que o dobro da média nacional.
A técnica que Rezai aprimorou tem raízes antigas. Nos anos 1950, os irmãos William e Francis Fry criaram um sistema que concentrava feixes de ultrassom em um único ponto, capaz de criar lesões minúsculas no cérebro sem danificar tecidos adjacentes. O método funcionava, mas exigia a remoção de parte do crânio e foi abandonado quando a levodopa surgiu para tratar Parkinson. A tecnologia atual evoluiu: máquinas de ultrassom focado emitem dezenas de feixes de diferentes ângulos através do crânio intacto, atingindo estruturas profundas como o núcleo accumbens — impossível com outros métodos não invasivos que alcançam apenas as camadas externas do cérebro.
Em 2021, com autorização da agência reguladora de medicamentos, Rezai e sua equipe iniciaram um estudo exploratório. Usaram um equipamento já aprovado para emitir ondas de alta intensidade, mas reduziram significativamente a potência. “As vontades de usar diminuíram imediatamente, ainda na mesa”, relata Rezai. Os voluntários começaram a se sentir diferentes.
Para Erin, o caminho até West Virginia foi longo. A família precisou de três tentativas para fazê-la embarcar no avião. Na primeira, perderam o voo. Na segunda, ela fugiu do aeroporto pelo banheiro. Só na terceira, segurando a mão da filha adolescente, Erin conseguiu decolar. Em abril de 2024, chegou ao Centro de Esperança e Cura, uma unidade de tratamento affiliated à universidade. Mas a ansiedade foi tão intensa que saiu após uma semana, voltando a usar. Somente em outubro pôde participar do estudo.
Em janeiro de 2025, Erin foi submetida ao ultrassom focado. Deitada em um aparelho de ressonância magnética, viu imagens de drogas que havia usado para ativar sua vontade de consumir enquanto o equipamento emitia ondas em seu núcleo accumbens, a região cerebral associada à recompensa e ao vício. Em apenas 20 minutos, o procedimento terminou. “Senti como se um interruptor no meu cérebro tivesse sido desligado”, descreveu. Nos meses seguintes, a equipe monitorou seus níveis de desejo por meio de um aplicativo e testes regulares. Erin via pessoas usando drogas na rua e nada a afetava.
Os resultados animaram os pesquisadores. Nos primeiros 20 participantes que sabiam estar recebendo ultrassom, observou-se redução superior a 90 por cento nos desejos relatados e queda de 80 por cento nos testes de urina positivos. O protocolo de West Virginia agora está sendo adotado em outros centros médicos, com locais em Baltimore, Flórida e Nova York, além de estudos internacionais. A técnica também está sendo testada para transtorno da compulsão alimentar e adaptada para cães com ansiedade.
A abordagem atraiu a atenção de investidores do setor de tecnologia, incluindo nomes como Sam Altman e Reid Hoffman, que financia projetos para desenvolver dispositivos portáteis de ultrassom. A Fundação de Ultrassom Focado estima que existem mais de 100 fabricantes de equipamentos e centenas de ensaios clínicos em andamento.
Porém, há preocupações. Em 2025, um voluntário de 44 anos sofreu lesão cerebral durante o estudo. Quando os pesquisadores aumentavam a intensidade do ultrassom, ele perdeu a consciência e só acordou 24 horas depois. Os exames revelaram pequenas hemorragias no núcleo accumbens. O estudo foi interrompido por oito meses. Para aumentar a segurança, a equipe desenvolveu mecanismos que reduzem automaticamente a potência caso ultrapasse certos limites.
Especialistas alertam que ainda há muitas perguntas sem resposta. Não existem parâmetros padronizados de tratamento, e cada equipamento opera em frequências e intensidades diferentes. “O ultrassom não é uma cura mágica”, ressalva Rezai. Os pacientes precisam de terapia comportamental e apoio durante a recuperação. Alguns participantes que recaíram relataram ter usado drogas não por vontade, mas porque estavam disponíveis e alguém ofereceu.
Após o procedimento, Erin mudou-se para uma casa de transição em West Virginia, conseguiu trabalho, decorou seu apartamento e fez um curso para ser especialista em apoio entre pares para outras pessoas com dependência. Em maio deste ano, voltou ao Vermont. Trabalha na loja de antiguidades da família, mora com a mãe e a filha e passa os dias livres brincando com cinco golden doodles. “Eu nunca imaginei que poderia ser tão bom assim”, diz. Sua filha está aliviada por ter a mãe de volta. A família não fala mais sobre o passado. Agora, estão planejando uma viagem à praia em Maine. Podem fazer isso agora. Podem planejar o futuro.
Fonte: Feed: All Latest

