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Inteligência artificial dá vida ao gol lendário de Pelé que nunca foi filmado

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Reprodução/YouTube — Fonte: techtudo
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Mais de seis décadas depois de marcar o que considerou seu lance mais bonito, Pelé enfim viu sua obra-prima ganhar forma visual. O projeto Google DeepMind, desenvolvido em colaboração com a família do Rei do Futebol e a Pelé Brand, apresentou nesta semana uma recriação em vídeo do histórico Gol da Rua Javari, marcado em 2 de agosto de 1959. O minidocumentário permite ao público acompanhar como a inteligência artificial foi utilizada para reconstruir um momento que nunca havia sido registrado por câmeras.

O lance ocorreu durante a goleada do Santos por 4 a 0 sobre o Juventus-SP, no pequeno estádio da Rua Javari, na Mooca, zona leste de São Paulo. Segundo os relatos do próprio Pelé, a jogada começou com três chapéus consecutivos sobre os defensores adversários. Em seguida, o jovem camisa 10 encobriu o goleiro e completou a ação antes de a bola tocar o gramado. O quarto gol da partida se transformou em um dos momentos mais icônicos do futebol brasileiro, mesmo sem qualquer imagens oficiais.

É fundamental esclarecer que o documento não apresenta uma filmagem inéditas do gol. O vídeo foi especialmente produzido para este projeto e combina inteligência artificial, gravações com um dublê, pesquisa histórica rigorosa e efeitos visuais para mostrar como o lance provavelmente se desenrolou. Trata-se, portanto, de uma reconstrução baseada em evidências, não da recuperação de um registro perdido.

Antes de recorrer à tecnologia de IA, a equipe do Google gravou um dublê executando toda a sequência no gramado original da Rua Javari. As imagens foram feitas com bolas de couro e uniformes inspirados nos utilizados em 1959, servindo como referência para as etapas seguintes. Sobre esse material, entraram em ação os modelos Veo, Gemini Omni e Nano Banana Pro.

A inteligência artificial não criou os movimentos livremente. Em vez disso, utilizou a atuação do dublê para preservar a dinâmica real da jogada. O ator foi digitalmente transformado em Pelé, enquanto o estádio ganhou a aparência de 1959, com arquibancadas, torcida e até o tempo nublado registrado no dia da partida. O material passou ainda por um trabalho tradicional de pós-produção, com composição de cenas, correção de cores, granulação e outros efeitos inspirados na estética dos filmes do fim da década de 1950.

A tecnologia só entrou em ação após um extenso trabalho de pesquisa. Historiadores coordenados pela pesquisadora brasileira Anita Lucchesi passaram meses reunindo informações sobre a partida, o estádio e o próprio gol descrito por Pelé. Ao todo, a equipe analisou aproximadamente 2 mil registros históricos, incluindo fotografias, plantas arquitetônicas, documentos da época, álbuns de família e entrevistas com testemunhas que acompanharam o jogo.

Jornalistas esportivos, moradores da Mooca e familiares de Pelé também contribuíram com lembranças que ajudaram a preencher lacunas deixadas pela ausência de imagens. Flávia Kurtz, filha do atleta, afirmou que o pai sempre lamentou o fato de o gol nunca ter sido gravado e que ficaria orgulhoso ao vê-lo ganhar vida por meio da tecnologia.

O minidocumentário, disponível gratuitamente no canal oficial do Google no YouTube, não se limita a exibir o resultado final da recriação. Em pouco mais de dez minutos, ele acompanha todo o caminho percorrido pela equipe, desde a pesquisa histórica até a produção das cenas e a aplicação da inteligência artificial. O filme reforça, do início ao fim, que as cenas exibidas representam uma reconstrução baseada em evidências, não uma gravação original do jogo.

Este caso demonstra que a inteligência artificial também pode contribuir para preservar a memória do esporte. Quando existe uma base sólida de documentos, fotografias e relatos, essas ferramentas ajudam a reconstruir acontecimentos que nunca foram registrados por câmeras ou cujas imagens se perderam ao longo do tempo. A tecnologia pode ainda ser utilizada para restaurar arquivos esportivos deteriorados, melhorar a qualidade de filmes antigos, colorizar imagens originalmente em preto e branco e recuperar registros comprometidos pela ação do tempo.

No entanto, iniciativas como essa exigem transparência. Sempre que uma cena for recriada, o público precisa saber que está diante de uma representação construída a partir de evidências, e não de uma gravação original. O documentário sobre o Gol da Rua Javari adota esse cuidado desde o início, deixando claro que o vídeo é uma reconstrução.

Fonte: techtudo

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