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O Preço do Progresso: Como a capital mundial dos data centers enfrenta o outro lado do sonho tecnológico

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A still from an image of a drone shot of a Loudoun County data center. — Fonte: The Verge
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No início dos anos 2000, quando a bolha das empresas de internet estourou e deixou para trás terrenos vazios e quilômetros de fibra óptica enterrada, um ex-apresentador de rádio encontrou ouro onde outros viam cinzas. Buddy Rizer, recém-chegado à autoridade de desenvolvimento econômico do condado de Loudoun, na Virgínia, olhou para aqueles galpões abandonados e enxergou uma oportunidade que transformaria completamente a região.

A estratégia era simples, mas audaciosa: convencer empresas de tecnologia a instalar seus grandes centros de processamento de dados justamente onde a infraestrutura já existia. A região já havia hospedado a sede da gigante americana AOL, que nos anos 1990 conectava milhões de americanos à internet discada. Com a proximidade da capital federal, abundante oferta de água e energia, e uma rede de cabos subterrâneos, Loudoun possuía todas as características ideais para receber esses prédios repletos de servidores.

O plano deu certo de maneira extraordinária. Em poucas décadas, o pequeno condado rural se tornou o lugar com a maior concentração de data centers do planeta. São aproximadamente 250 instalações ocupando uma fração dos 515 quilômetros quadrados da região, concentradas principalmente na cidade de Ashburn. Estima-se que até 70 por cento do tráfego de internet do mundo já tenha passado por aqueles cabos enterrados.

Os benefícios financeiros foram imediatos e impressionantes. Em 2024, apenas a arrecadação de impostos dos data centers superou o orçamento operacional do condado em 35 milhões de dólares. Nos últimos 15 anos, foram construídas 22 novas escolas públicas. A taxa de imposto sobre propriedade residencial caiu de 1,29 para 0,80 dólares por cada 100 dólares de valor avaliado. Moradores contam que estradas nunca foram tão bem asfaltadas, campos esportivos surgiram em todos os cantos e um centro de lazer com piscina olímpica virou referência na região.

Durante muito tempo, a maioria dos moradores vivia alheia a esse fenômeno. As construções surgiam discretamente ao longo das estradas principais, os impostos diminuíam e as escolas melhoravam. A expressão "Data Center Alley" era praticamente desconhecida para quem morava ali. A expansão desses centros de dados aconteceu nos bastidores, quase como uma bênção silenciosa.

Mas a euforia começou a dar lugar a preocupações. Com a chegada da inteligência artificial generativa, a demanda por capacidade de processamento disparou de maneira sem precedentes. Os Estados Unidos já possuem 3 mil data centers em operação, com mais 1.500 em construção. Esse crescimento acelerado colocou o condado em uma posição delicada, transformando-o em uma espécie de experimento nacional sobre os efeitos da expansão tecnológica.

Os moradores passaram a perceber o que antes passava despercebido. O zumbido constante dos sistemas de refrigeração substituiu o canto dos pássaros em diversos bairros. Torres de transmissão de energia elétrica de quase 60 metros de altura passaram a dominar horizontes antes preenchidos por árvores. Para alguns, o barulho dos motores a gás que alimentam certas instalações se tornou tão incômodo quanto o ronco de cortadores de grama funcionando dia e noite.

Vicky Hu, que mora há mais de duas décadas em uma casa tranquila cercada por vegetação e córregos, recebeu um telefonema que virou sua vida de cabeça para baixo. Um representante da companhia de energia Dominion informou que uma nova linha de transmissão precisaria passar exatamente pelo seu quintal. Torres de quase 60 metros destruiriam o local onde sua mãe de 90 anos assistia pôneis cruzando o jardim. "Vocês enlouqueceram?", foi a resposta de Hu.

O caso de Hu não é isolado. A expansão da infraestrutura necessária para alimentar os data centers tem avançado sobre terrenos residenciais, áreas verdes e, em alguns casos, proximidade de escolas. A companhia de energia defende que as linhas são essenciais não apenas para os centros de dados, mas também para hospitais, residências e estabelecimentos comerciais. A batalha jurídica continua, com Hu recorrendo até a Suprema Corte da Virgínia.

Em uma audiência pública recentes, a presidente do Conselho de Supervisores do condado, Phyllis Randall, apresentou o que chamou de "quatro verdades impopulares". A primeira: em algum momento, os próprios moradores preferiam a construção de data centers a novos projetos de habitações. O exemplo veio de um projeto rejeitado em 2021 para construir 779 unidades habitacionais em Ashburn, que acabou desistido após oposição dos residentes. O terreno foi ocupado por um data center, que podia ser construído sem necessidade de aprovação especial por estar em área zonificada para escritórios.

A segunda verdade: não é legalmente possível impor uma moratória à construção sem autorização do estado. A terceira: tanto a administração Biden quanto a Trump indicaram que a expansão da infraestrutura de inteligência artificial será prioridade nacional. A quarta: mesmo quando o conselho nega exceções solicitadas por empresas de data centers, as construções podem acontecer de qualquer forma pelo chamado "direito de construção", só que com menos exigências e benefícios para a comunidade.

Rizer, que supervisionou a chegada de bilhões de dólares em investimentos para a região, reconhece que alguns aspectos saíram do controle. "Não há data centers onde não são permitidos, mas existe uma diferença entre o que você tem permissão para fazer e o que é melhor para a comunidade", admitiu. "É isso que temos tentado ajustar."

O condado já não busca ativamente novas instalações desde 2019. A estratégia atual é frear a expansão, acabar com a possibilidade de construção em zonas comerciais sem aprovação especial e estudar novas regras de zoneamento que minimizem os impactos nas comunidades.

Julie Bolthouse, dirigente de uma organização ambiental local, acompanhou de perto essa transformação. Ela não é contra os data centers que já existem, mas defende uma pausa nas novas construções. "A questão não é se precisamos de data centers", afirma. "A questão é se vale a pena ameaçar nossa qualidade do ar, nossa oferta de água, lançar nossas comunidades no caos e tomar terras particulares para linhas de transmissão."

Os moradores ouvidos pela reportagem reconhecem os benefícios econômicos trazidos pelos data centers. Mas também alertam para o que consideram uma conta que começa a ficar salgada. "Quando eu morrer, quero que minhas cinzas sejam espalhadas pela trilha", conta Jessica Medeiros, que corre pelo parque Washington and Old Dominion há 20 anos. "Mas acho que daqui a dez anos essa trilha vai parecer muito diferente."

Fonte: The Verge

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