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Perfis que viralizam fichas criminais humilham e perseguem mulheres nas redes sociais

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Cerca de um mês após a perda da mãe biológica, vítima de overdose de drogas em julho de 2025, Megan Davis saiu para beber com uma amiga em Northgate, um conjunto de bares localizado em College Station, no estado norte-americano do Texas. Após alguns drinques, ela se envolveu numa confusão com outro grupo de clientes depois de esbarrar com eles, segundo seu próprio relato e imagens de câmeras corporais. A segurança do estabelecimento a retirou do local e acionou a polícia, que a autuou por embriaguez pública — resultou em uma noite atrás das grades e numa multa de 450 dólares.

"Bem antes de tirarem minha foto, tive um ataque de pânico", conta Davis, que tinha 23 anos na ocasião. "Sabia que tinha cometido um erro grave". Ao ser liberada na manhã seguinte, ela parcelou o valor da multa e tentou seguir em frente com a vida.

No entanto, a partir do dia da prisão, em 21 de agosto de 2025, a ficha criminal de Davis começou a circular sem controle pela internet. A foto apareceu primeiramente numa página do Facebook chamada SayCheese Brazos County Mugshots & Arrests, uma das cerca de doze contas dedicadas ao estado do Texas vinculadas à marca SayCheese. Depois, virou matéria de uma farsa compartilhada na mesma plataforma, que afirmava falsamente que ela seria uma garçonete de uma rede de restaurantes e teria sido detida por jogar pães em um cliente por causa da gorjeta. Mais tarde, em 12 de outubro de 2025, a imagem ressurgiu no perfil Mugshawtys, uma conta bastante popular no Instagram que publica fotos de prisão de mulheres jovens, frequentemente enquadrando-as como se fossem postagens sensuais.

Milhares de pessoas passaram a comentar o post, atacando a aparência e o caráter de Davis com julgamentos cruéis. Quando o Mugshawtys republicou a fotografia num compilado em junho, um homem escreveu: "Acho que os pais dela estão orgulhosos". Davis respondeu embaixo, revelando que a mãe havia falecido poucas semanas antes da prisão. "Espero que ela esteja orgulhosa do que tenho feito para melhorar desde então", escreveu.

Quase um ano depois, Davis ainda tenta se recuperar do estrago. "Tudo isso para mim tem sido apenas ser arrastada na lama", desabafa, garantindo que assumiu total responsabilidade pelo ocorrido. "Não consigo entender onde vamos colocar um limite entre redes sociais e privacidade".

O perfil Mugshawtys foi criado há cerca de uma década por Josh Jeffery, um eletricista de 31 anos que mora na Califórnia. Até recentemente, a conta acumulava aproximadamente 1,8 milhão de seguidores no Instagram, incluindo uma legião de fãs fiéis, em sua maioria homens — alguns deles vasculham registros de prisão e sites de fichas criminais para enviar sugestões de publicação. A marca teria conquistado um milhão de seguidores após ser mencionada no podcast do apresentador Joe Rogan no ano passado, de acordo com Jeffery. Além disso, contava com 19 mil seguidores no Facebook e, atualmente, quase meio milhão na plataforma X.

Nos últimos dias, após receber uma lista de perguntas da reportagem, a Meta e o TikTok desativaram as contas do Mugshawtys em suas respectivas plataformas. Um porta-voz da Meta declarou que o perfil violava múltiplas diretrizes da empresa, indicando a página de padrões da comunidade. Um representante do TikTok nos Estados Unidos se recusou a comentar o motivo da remoção. Jeffery não respondeu aos pedidos de entrevista sobre o assunto. A empresa X também não se pronunciou.

Jeffery afirma ser amigo de algumas das mulheres que aparecem em seu perfil e nega qualquer intenção de explorá-las. "Muitas delas acabam criando algum tipo de conteúdo adulto ou algo do tipo", alega, acrescentando que incentiva os seguidores da página a contribuírem com dinheiro para fianças e despesas jurídicas das mulheres.

Mas as publicações estão repletas de fantasias sexuais e piadas de teor misógino. "Não precisam ter idade para beber, só para engolir", dizia um comentário em um post sobre uma mulher detida por ingestão de bebida alcoólica antes da maioridade. Em álbuns de fotos, homens classificavam as mulheres com frases como "medíocre", "é um homem" ou "nota 6 no máximo", por vezes organizando rankings de atratividade. No verão passado, o perfil publicou uma foto de uma mulher que aparentemente vestia uma roupa hospitalar usada em casos de risco de suicídio. A legenda informava que ela havia sido presa por suposta maus-tratos infantis. A mão enluvada de um agente aparece segurando a cabeça dela enquanto ela se contorce e tenta se afastar da câmera. Um comentário sugeria violência sexual por parte dos guardas. A legenda atribuía erroneamente as acusações à mulher, e o caso acabou arquivado. Muitos usuários, no entanto, pareciam ignorar que o simples fato de existir uma ficha criminal não equivale a uma confissão de culpa.

À medida que a marca ganhou força, Jeffery passou a vender produtos como camisetas e bonés com a frase "eu amo criminosas bonitas" por cerca de 10 dólares. Em 2024, uma pequena editora de Amsterdã chamada 550BC publicou um livro de mesa de café com a marca Mugshawtys, que Jeffery comercializa online. A editora não respondeu aos pedidos de contato.

O fato de que as mulheres retratadas são capturadas em estado de extrema vulnerabilidade — muitas aparecem descompostas, bêbadas ou chorando — costuma atrair os seguidores das páginas. "Você vê uma mulher na pior condição possível, sem maquiagem, completamente vulnerável, sob custódia do Estado. Alguns homens acham que este é o momento perfeito para atacá-la", explica à reportagem a socióloga Danielle Dirks.

Jeffery defende que, se há alguém explorando as mulheres, é o sistema de justiça, e afirma que remove qualquer ficha se uma mulher pedir: "Tiro qualquer coisa. Principalmente se a pessoa não enviou a foto, fico mais disposto a fazer isso".

Historicamente, as fichas criminais serviam como ferramenta das forças policiais para alertar comunidades sobre possíveis infratores ou arrecadar pistas, segundo Sarah Lageson, professora associada de direito e criminologia da Universidade Northeastern. Jornalistas precisavam ir até delegacias e folhear cadernos com as fotos, processo que dependia de credenciais ou relacionamentos com autoridades. A digitalização tornou as imagens acessíveis a todos, e as fichas online viraram fenômeno cultural no início dos anos 2000, com sites cobrando taxas para remoção. As leis sobre o tema variam conforme o estado americano, o que gera confusão para quem quer tirar a foto de circulação. Em Oregon, órgãos de segurança são proibidos de divulgar fichas antes de condenação; na Flórida, basta um pedido para que sites removam as imagens gratuitamente.

Entender os meandros jurídicos pode ser exaustivo. "As pessoas ficam tão esgotadas pela exposição da ficha que muitas vezes não querem entrar na Justiça e colocar o próprio nome de volta no registro público", observa Lageson.

Com a explosão de conteúdo em vídeo nas redes sociais, criadores do YouTube e de outras plataformas passaram a divulgar gravações de câmeras corporais, em alguns casos obtidas por meio de pedidos com base na Lei de Acesso à Informação. Em março de 2026, imagens da abordagem policial contra Davis foram publicadas em um canal do YouTube chamado Sgt. Pepperspray. Nas gravações, ela aparece visivelmente alterada e desesperada, usando uma blusa curta preta. Internautas marcaram nos comentários os trechos exatos em que closes da região do peito de Davis aparecem na tela. Davis recorreu ao time jurídico do YouTube alegando difamação, mas o pedido foi negado. Um representante da plataforma afirmou que ela precisaria entrar com uma queixa de violação de privacidade.

"São instrumentos de humilhação pública extremamente eficazes", avalia Lageson.

Apesar disso, nem todas as mulheres se opõem à exposição. Jeffery conta que algumas enviam as próprias fotos ou se marcam nos comentários para direcionar tráfego para seus perfis pessoais.

"Deu um certo ego pra mim", admite Holly Singleton, uma jovem de 22 anos do estado de Indiana, cuja ficha foi publicada na conta em 11 de março. "Não me importo. Redes sociais são pra sempre, infelizmente".

A maioria das mulheres retratadas é branca e aparenta ter idade universitária. Em um estudo publicado em 2015 na revista Contemporary Justice Review, Dirks analisou como mulheres brancas costumam ser vistas como "vítimas das circunstâncias, dignas de empatia e redenção, em vez de criminosas". Porém, ao avaliar o caso do Mugshawtys, ela explica à reportagem que o foco em padrões de beleza convencionais pode tornar essas mulheres ainda mais visíveis e, portanto, expostas a punições fora do sistema de justiça.

Para muitas mulheres expostas, as piadas sexistas e o assédio continuam circulando muito depois de as acusações terem sido arquivadas, multas pagas ou penas cumpridas. Taylor Johnson foi presa por dirigir embriagada em 2022 e passou 20 dias na cadeia para evitar o regime de liberdade condicional. Dois anos depois, enquanto trabalhava, seu telefone começou a receber mensagens de amigas avisando que o Mugshawtys tinha publicado sua foto.

"No começo fiquei muito envergonhada e humilhada, porque achava que tinha superado aquela fase", lembra Johnson. Ela enviou mensagem direta para Jeffery perguntando quem havia enviado a fotografia, e ele respondeu que recebia tantas mensagens que não sabia. Inicialmente, ela conta que pediu a remoção, mas ao descobrir que a imagem era registro público, decidiu deixá-la disponível.

Desde então, sua ficha tem sido usada como isca de cliques, ilustrando vídeos e matérias sem qualquer relação com o ocorrido. Johnson compartilhou a captura de tela de um vídeo no TikTok com o texto "como continuei bonita — mesmo após 3 anos na prisão" sobreposto à foto. Um tabloide britânico publicou uma manchete com o título "Ficha de mulher viraliza após prisão e ela é chamada de 'absurdamente linda' — e está furiosa".

A atenção indesejada se mostrou implacável. "Meu pai tinha falecido poucos meses antes desse post, e para mim era como se eu não tivesse um segundo de paz", desabafa Johnson.

Com o tempo, porém, os colegas de trabalho passaram a reconhecê-la como "a garota do Mugshawtys". "Acabei aprendendo a rir da situação, porque se eu não risse, ia chorar", resume.

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