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Previsibilidade desde a fundação: o novo modelo de construção de data centers em tempos de incerteza

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Fonte: DCD
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O setor de data centers atravessa uma transformação profunda, impulsionada por fatores que vão muito além do canteiro de obras. Instabilidade geopolítica, rupturas nas cadeias de suprimentos, escassez de mão de obra especializada e a demanda crescente de inteligência artificial e computação em nuvem estão redesenhando a forma como essas instalações são concebidas e entregues.

Nesse cenário, ganhar velocidade deixou de ser o único objetivo. A capacidade de executar projetos de maneira consistente e previsível, mesmo em meio à crescente volatilidade, tornou-se tão importante quanto rapidez. Para Daniel Mendez Quintero, responsável global por data centers na Hilti, a solução passa por repensar os modelos tradicionais de construção, incorporando questões logísticas já nas fases iniciais do projeto e adotando abordagens mais padronizadas de entrega.

Em episódio recente do podcast DCD>Talks, Quintero analisou como operadoras podem construir estratégias de obra mais resilientes diante de uma demanda que acelera sem pausa e de um mercado cada vez mais imprevisível.

**Os três grandes gargalos do setor**

Segundo o executivo, a indústria enfrenta três desafios centrais, todos alimentados por forças externas ao próprio data center.

O primeiro deles é a demanda. A expansão da IA e dos projetos de hiperescala alimenta uma onda incessante de novas iniciativas, tornando as exigências futuras cada vez mais difíceis de antecipar. "Vemos anúncios diários de novos data centers sendo erguidos em todo o mundo. Mas, por causa desse volume no pipeline, prazos e prioridades mudam o tempo todo, gerando pressão em toda a cadeia", afirma Quintero.

O segundo desafio é a oferta. Materiais, logística e profissionais qualificados seguem restringidos, e as tensões geopolíticas somam mais uma camada de complexidade. "Muitos desses limites vêm de fatores externos. A capacidade não está bem distribuída entre regiões, e questões como tarifas e comércio internacional continuam criando incerteza", explica.

Por fim, há a execução. Mesmo quando os materiais certos são garantidos, atrasos surgem por mudanças de projeto, falhas de coordenação, retrabalho e baixa produtividade no campo. "Quando se junta a complexidade interna a toda essa volatilidade externa, a incerteza vira a nova normalidade do setor", resume Quintero.

**Projetar pensando em previsibilidade**

Em vez de tratar a incerteza como algo inevitável, Quintero defende que a indústria invista em mecanismos de previsibilidade desde as primeiras etapas do desenvolvimento. Boa parte dos riscos da construção, segundo ele, é introduzida muito antes de as obras começarem.

"Se você não pensa em construtibilidade, disponibilidade de materiais e produtividade de instalação com a devida antecedência, está embutindo risco no projeto antes mesmo de a obra começar." A sequência tradicional — projetar primeiro, comprar depois e construir por último — já não dá conta do mercado atual. Para o executivo, é preciso fundir engenharia e compras desde o início. "Os data centers mais rápidos serão aqueles que eliminam a incerteza antes de a construção começar."

**Um novo modelo construtivo**

Alcançar esse nível de previsibilidade exige trazer a expertise de engenharia para dentro do processo de projeto logo no começo. A abordagem conhecida como DFMA (Projeto para Fabricação e Montagem), que permite desenvolver soluções pré-fabricadas e padronizadas antes de o trabalho chegar ao canteiro, vem ganhando protagonismo.

"Cada vez mais vemos o DFMA se tornar prática padrão, porque reduz a variabilidade e melhora a construtibilidade ao transferir mais tarefas para ambientes controlados", detalha Quintero. O método também enfrenta de forma simultânea dois dos principais gargalos: a instabilidade da cadeia de suprimentos e a falta de profissionais qualificados.

Para o executivo, a colaboração entre empresas também precisa evoluir. Em vez de tratar fornecedores como prestadores de serviço pontuais, as operadoras deveriam construir relações mais próximas com um número menor de parceiros estratégicos, capazes de acompanhar o projeto da concepção à entrega. Esses parceiros podem oferecer conhecimento técnico e visibilidade ampliada sobre a disponibilidade de materiais e eventuais restrições.

Quintero também reforça que aumentar a produtividade é parte essencial da equação. "Precisamos pensar em como instalar de forma mais rápida, mais segura e com menos erros. Maior transparência sobre materiais, fluxos de trabalho e andamento da obra permite decisões melhores e respostas mais eficazes diante de imprevistos."

No fim das contas, o objetivo é deixar de apenas reagir à cadeia de suprimentos e passar a projetar entregas com desempenho previsível.

**Velocidade por meio da padronização**

Muitas operadoras globais erguem, na prática, instalações muito semelhantes em regiões distintas, o que torna a padronização cada vez mais valiosa. "Se cada projeto é tratado como completamente único, você recomeça do zero a cada vez. É daí que vêm a variabilidade e, em última instância, o risco", afirma Quintero.

O DFMA ajuda a limitar essa variação ao padronizar elementos repetíveis e deslocar boa parte da construção para ambientes fabris controlados. Embora exija mais planejamento no início, o método reduz retrabalho, problemas de coordenação e dificuldades de instalação nas fases posteriores. Mesmo com projetos otimizados, a execução continua sendo determinante. Grande parte dos atrasos não decorre apenas da falta de materiais, mas de processos de instalação ineficientes.

"Melhorar a produtividade não é simplesmente colocar mais gente na obra. É simplificar a execução, torná-la mais repetível, consistente e menos dependente de variações", orienta Quintero. Ele observa que os fornecedores estão cada vez mais integrados ao processo global de entrega, em vez de apenas fornecer produtos, o que tem levado as operadoras a consolidarem suas cadeias.

"Cada interface adicional entre fornecedores gera mais complexidade", diz. Trabalhar com menos parceiros estratégicos reduz a coordenação e minimiza as transições entre empresas, diminuindo os pontos potenciais de falha ao longo do projeto.

Na Hilti, Quintero explica que soluções de engenharia permitem que as equipes planejem com precisão quando e onde os materiais serão necessários. Assim, em vez de reagir aos problemas da cadeia de suprimentos conforme surgem, grande parte do risco associado já é eliminado na fase de projeto.

**Construção com garantia de previsibilidade**

Para Quintero, três prioridades devem definir as obras de data center bem-sucedidas. A primeira é integrar o pensamento de engenharia e de cadeia de suprimentos logo nas fases iniciais do projeto. A segunda é padronizar tudo o que for possível, especialmente por meio de abordagens como o DFMA, que aumentam a repetibilidade e reduzem a variabilidade. A terceira é construir parcerias mais sólidas com fornecedores capazes de acompanhar o projeto durante todo o seu ciclo de vida.

"Quanto mais cedo você alinha projeto, suprimentos e execução, maior será seu controle sobre o resultado." Embora a incerteza não vá desaparecer por completo, o desafio passa a ser administrá-la com eficiência. Para o executivo, isso significa abandonar modelos construtivos tradicionais que simplesmente não fazem sentido em um ambiente cada vez mais volátil. Muitos projetos, segundo ele, ainda são erguidos em torno de cadeias de suprimentos que já não existem, obrigando equipes a resolver problemas de forma reativa.

"As empresas que vão liderar este setor serão aquelas que eliminarem a incerteza antes de ela chegar ao canteiro. Quanto mais previsível for o seu projeto, mais rápido você colocará a edificação em operação", conclui Quintero.

Fonte: DCD

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