O pesquisador Felipe Fernandes Fanchini, especialista em computação quântica com mais de 20 anos de experiência, defende que o momento exige urgência extrema. Em entrevista ao Portal do Bitcoin, o cientista afirmou que é fundamental "ser alarmista" diante dos riscos que a computação quântica representa para todos os sistemas que utilizam assinatura digital, incluindo transações bancárias, comunicações governamentais e, principalmente, carteiras de criptomoedas.
O prazo crítico de 2029
Fanchini trabalha com base no cronograma estabelecido pelo Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), que estima que os sistemas de criptografia na internet começarão a ser vulneráveis a partir de 2029. Segundo o pesquisador, não existe tempo suficiente para substituir toda a infraestrutura de rede que utiliza criptografia RSA ou de Curva Elíptica nos próximos anos, o que torna essencial a adoção imediata de novos protocolos de segurança.
"Isso é para escancarar a urgência. Então, não dá pra esperar mais. Acho que nós temos que começar a mudar os nossos protocolos de segurança de informação imediatamente. Imediatamente. Honestamente falando", enfatizou o cientista durante a entrevista.
O risco específico às criptomoedas
O tema tem ganhado atenção crescente no setor de criptomoedas, onde é conhecimento público que os computadores quânticos poderão em breve acessar endereços de carteiras de Bitcoin conhecendo apenas a chave pública. O que parecia um cenário distante agora indica um colapso potencial antes do término desta década.
Fanchini explica por que as carteiras de criptomoedas enfrentam um perigo mais iminente: o sistema utiliza chaves de 256 bits de Curva Elíptica, uma criptografia mais robusta que a RSA, que atualmente emprega chaves superiores a 2 mil bits. Embora o computador quântico tenha maior dificuldade para quebrar criptografias com chaves maiores, os endereços de BTC foram adotados por serem mais rápidos e oferecerem proteção teoricamente impossível para computadores clássicos.
A vulnerabilidade global dos sistemas digitais
O pesquisador destaca que praticamente todos os sistemas de criptografia utilizados na internet por bancos, empresas e governos employam modelos que serão facilmente quebráveis por computadores quânticos. Esta vulnerabilidade abrangente torna a transição para criptografia pós-quântica uma questão de segurança nacional e internacional.
Entendendo a computação quântica
A diferença fundamental
Segundo Fanchini, o diferencial principal está na unidade de informação. Enquanto a computação clássica utiliza o bit, que assume valores binários de 0 ou 1, a mecânica quântica permite trabalhar com unidades mais complexas. Quando pontos quânticos são reduzidos à escala atômica, o elétron não se encontra em uma posição definida, mas sim nos dois locais simultaneamente, em um estado de superposição que desafia a intuição cotidiana.
Este bit especial, denominado quantum bit ou qubit, possibilita não apenas a superposição, mas também fenômenos como o emaranhamento, abrindo caminho para uma nova forma de computação.
O poder do paralelismo quântico
Fanchini explica que o computador quântico consegue criar um estado que representa uma superposição de todas as chaves possíveis simultaneamente. Quando uma operação lógica é aplicada, ela atua sobre todos os elementos da base ao mesmo tempo, em um fenômeno denominado paralelismo quântico. Esta capacidade multiplica exponencialmente o poder de processamento para determinadas tarefas.
Para ilustrar a magnitude desta potência, o cientista afirmou que um computador clássico necessitaria do tempo equivalente à existência do universo para quebrar certos tipos de criptografia, enquanto um computador quântico utilizando o algoritmo de Shor pode realizar a mesma tarefa em dias ou até mesmo horas.
Quem é Felipe Fernandes Fanchini
Formado em Física pela Universidade de São Paulo (USP), Fanchini possui mestrado, doutorado e pós-doutorado em computação quântica. Atualmente, atua como orientador na Unesp em Bauru e como pesquisador contratado do Hospital Albert Einstein em São Paulo, onde investiga as aplicações da computação quântica na medicina, buscando avanços que possam revolucionar tratamentos e diagnósticos.
