O período de férias escolares representa um momento de atenção redobrada para pais e responsáveis. Longe da rotina de aulas, atividades e interação com colegas, muitas crianças passam a ter mais tempo livre em casa, e parte desse tempo acaba sendo preenchida por horas em frente a computadores, televisões e celulares. O uso de telas faz parte do dia a dia de milhões de crianças brasileiras, mas quando o consumo ultrapassa os limites recomendados, pode trazer sérios impactos à saúde física e mental dos pequenos.
De acordo com dados de uma pesquisa realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, publicada em agosto de 2025, 78% das crianças de 0 a 3 anos já têm contato diário com telas. O índice sobe para 94% entre as crianças de 4 a 6 anos. O próprio percentual de responsáveis reconhece o problema: quatro em cada dez afirmam que os filhos passam mais tempo do que deveriam em frente a TVs, tablets e celulares.
Os impactos desse uso excessivo são sentidos pelas famílias. Segundo o estudo, 56% dos responsáveis relatam que o excesso de telas prejudica a saúde das crianças, afetando a visão e os movimentos. Cerca de 40% apontam que os dispositivos tornam os pequenos mais agitados e agressivos. No entanto, para parte dos entrevistados, as telas funcionam como uma ferramenta de apoio, ajudando a manter a criança ocupada ou evitando que ela se sinta sozinha.
A revisão integrativa "Saúde mental: os riscos em crianças e adolescentes pelo uso excessivo de telas", publicada em 2024 na Revista Sociedade Científica, alerta para uma série de consequências do uso excessivo de dispositivos eletrônicos. Entre os principais problemas estão distúrbios do sono, ansiedade, depressão, alterações de humor e dificuldades nas interações sociais. Além disso, o excesso de telas pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo e o desempenho escolar, afetando a capacidade de concentração, a memória e as habilidades de leitura e escrita.
A pediatra Silvia Nigro, responsável pelo Núcleo de Medicina do Adolescente do Hospital Sírio-Libanês, explica que o problema surge quando o tempo de tela substitui experiências fundamentais para o desenvolvimento, como brincar, praticar atividade física, conviver com outras pessoas e descansar adequadamente. "É necessário observar se esse hábito está interferindo no apetite e no desempenho escolar. Quando as telas passam a interferir nessas áreas, é sinal de que o tempo de uso deixou de ser saudável", afirma.
A qualidade do sono é outro ponto de atenção. A luz azul emitida por celulares, tablets e computadores reduz a produção de melatonina, hormônio que regula o ciclo do sono. Segundo a pediatra Lucila Faria, também do Hospital Sírio-Libanês, o excesso de estímulos mantido por jogos e vídeos mantém o cérebro em estado de alerta, dificultando o relaxamento. A recomendação é desligar as telas pelo menos uma hora antes de dormir. Para crianças que já apresentam dificuldade para pegar no sono, esse intervalo pode chegar a duas horas.
A Sociedade Brasileira de Pediatria estabelece limites de exposição às telas conforme a idade. Para crianças de até 2 anos, a orientação é evitar qualquer exposição, mesmo de forma passiva. Entre 2 e 5 anos, o tempo deve ser limitado a, no máximo, uma hora por dia, sempre com acompanhamento de pais ou responsáveis. De 6 a 10 anos, a recomendação é de uma a duas horas diárias com supervisão. Para adolescentes de 11 a 18 anos, o uso deve ser limitado a duas ou três horas por dia, evitando que o hábito prejudique o sono.
Existem sinais que podem indicar que a criança está passando mais tempo em frente às telas do que o recomendado. Entre os principais alertas estão: dificuldade para se autorregular após interromper o uso, com reações como choro, irritação ou resistência ao desligar o dispositivo; dificuldade para dormir ou alterações na rotina de sono; queda no rendimento escolar e dificuldade de concentração; redução da vontade de sair ou participar de atividades presenciais; preferência por isolamento utilizando dispositivos eletrônicos; reclamações de cansaço visual, dores de cabeça ou desconfortos físicos.
Para reduzir o tempo de tela durante as férias, as especialistas recomendam criar uma rotina equilibrada, com espaço para atividades físicas, passeios, descanso e momentos de interação em família. Uma estratégia eficaz é organizar o dia em blocos, reservando períodos para brincadeiras com movimento, um tempo combinado para uso de tecnologia e, à noite, reduzir os estímulos para favorecer o sono.
"A tecnologia pode fazer parte das férias, mas não deve ocupar todos os espaços da rotina", destaca Lucila. Ela sugere envolver as crianças na construção da rotina, já que quando participam das decisões, tendem a aderir melhor às regras.
Nem todo contato com as telas é prejudicial. Quando utilizadas de forma equilibrada e com acompanhamento dos responsáveis, elas também podem ser uma ferramenta de aprendizado. A partir dos 2 anos, o ideal é priorizar conteúdos de baixo estímulo, com cores mais suaves, poucos cortes rápidos e histórias com propostas educativas. Chamadas de vídeo com familiares, por serem momentos curtos e pontuais, geralmente não representam riscos à saúde dos pequenos.
Fonte: techtudo
