O retorno às salas de aula traz consigo uma preocupação que vai muito além da tradicional lista de material escolar. Para milhões de famílias estadounidenses, o reaparecimento do sarampo representa uma ameaça concreta e imediata, especialmente para aquelas que possuem filhos com sistemas imunológicos comprometidos.
Os números são alarmantes: quase três mil casos confirmados de sarampo foram registrados nos Estados Unidos durante o ano de 2026, configurando o pior cenário em três décadas e meia. Os dois primeiros óbito relacionados à doença neste ano foram registrados na Pensilvânia, justamente no momento em que o ano letivo ganha ritmo.
Victoria Schiano, Coordenadora Nacional de Engajamento Comunitário da organização Little Lobbyists, entidade sem fins lucrativos que defende crianças com necessidades médicas complexas e deficiências, classifica o retorno do sarampo como algo absolutamente aterrorizante. Seu filho de dez anos possui uma doença mitocondrial e reside no Condado de Chester, na Pensilvânia, região que atualmente concentra o segundo maior número de infecções pelo vírus no estado.
Schiano monitora constantemente as taxas de vacinação na região escolar de seu filho, que recentemente caíram abaixo do patamar de noventa e cinco por cento necessário para garantir a proteção coletiva contra a doença. No vizinho Condado de Lancaster, por exemplo, apenas oitenta e sete vírgula seis por cento das crianças matriculadas no ensino infantil e oitenta e três vírgula três por cento dos alunos do ensino fundamental II estão com o esquema vacinal completo contra o sarampo.
O filho de Schiano não pode receber a vacina edepende deinfusões semanais de imunoglobulina, anticorpos concentrados obtidos a partir de plasma sanguíneo humano doado, para auxiliar seu organismo no combate a infecções.
O vírus do sarampo pode provocar complicações graves e potencialmente fatais, como pneumonia e inchaço cerebral. Além disso, a doença é capaz de apagar a memória imunológica do corpo contra infecções anteriores, um fenômeno conhecido como amnésia imunológica, deixando os pacientes vulneráveis a diversas outras enfermidades.
A criança já utiliza máscara de proteção e conta com barreiras de acrílico em sua escola, além de rigurosos hábitos de higiene das mãos. Mesmo assim, a família precisou tomar a difícil decisão de limitar o contato social e as atividades extras, como aulas de karatê. Schiano reconhece o dilema entre garantir a qualidade de vida e assegurar a segurança de seu filho.
Durante a pandemia de Covid-19, o menino frequentou aulas no formato remoto por um período, e Schiano afirma estar preparada para retirá-lo da escola presencial caso seja confirmado um único caso de sarampo na instituição. No entanto, essa alternativa apresenta seus próprios riscos, uma vez que o aprendizado à distância foi associado ao aumento de problemas de isolamento social, comportamentais e de saúde mental entre estudantes.
Uma moradora da Carolina do Sul, que prefiere ser identificada pelo pseudônimo Amália, já optou por manter seu filho de dezesseis anos em casa este ano, recorrendo ao ensino online devido às preocupações com o sarampo. O adolescente possui deficiência de imunoglobulina A, condição em que o organismo não produz anticorpos suficientes encontrados nas membranas mucosas, fluidos corporais e trato digestivo.
Amália relata que seu filho adoece de forma muito mais grave do que uma criança comum, mesmo diante de uma simples gripe. O jovem conseguiu receber a vacina contra o sarampo, porém seus níveis de anticorpos são monitorados regularmente pelos médicos devido à possibilidade de diminuição da imunidade.
A família reside no Condado de Spartanburg, região que enfrentou um surto da doença no início do ano, resultando em aproximadamente mil casos confirmados e vinte e uma hospitalizações. Cerca de noventa e um por cento dos infectados eram crianças e adolescentes, e a maioria não estava com a vacinação completa ou possuía status vacinal desconhecido.
Embora tenha ocorrido um aumento de noventa e quatro por cento na aplicação de vacinas durante o surto em Spartanburg em comparação com o ano anterior, Amália decidiu não enviar seu filho de volta à escola.
Outra família da Carolina do Sul enfrenta dilemas semelhantes. Cortney precisa levar sua filha de dezessete anos, Grace, para consultas médicas em regiões próximas ao epicentro do surto. A condição de Grace é tão delicada que um simples resfriado causado por rinovírus já foi suficiente para requerer internação hospitalar.
Durante a pandemia, Grace e seu irmão foram educados em casa, opção que voltou a ser considerada para o último ano do ensino médio da jovem. Ao final do semestre, mãe e filha planejam reavaliar a situação.
Diferentemente de outras famílias, Grace não utiliza máscara em ambiente escolar devido ao medo de ser intimidada por colegas. Cortney afirma que a preferência da família seria pelo uso de proteção facial em locais públicos, mas teme enfrentar discriminação e isolamento.
Algumas regiões do país apresentam queda significativa nas taxas de vacinação contra diversas doenças, o que preocupa especialistas em saúde pública e famílias vulneráveis.
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