Em junho deste ano, um encontro realizado em Berlim reuniu pesquisadores, programadores e investidores em torno de uma questão que, há poucos anos, pareceria distante da realidade: a tecnologia blockchain pode contribuir para resolver problemas históricos da ciência? O evento, conhecido como DeSci.Berlin, apresentou iniciativas que buscam transformar a forma como o conhecimento científico é financiado, reconhecido e protegido.
Entre os projetos destacados estava o OpenLabs, que visa ajudar cientistas a desenvolver hipóteses utilizando inteligência artificial, submetê-las a avaliações especializadas e conectá-las a comunidades dispostas a financiar os experimentos. A inteligência artificial, por si só, não representa mais uma novidade nos laboratórios. Ela já faz parte do cotidiano da pesquisa acadêmica, sendo empregada para encontrar artigos científicos, organizar bases de dados, escrever códigos de programação, analisar imagens e identificar relações que um pesquisador isolado teria dificuldade em perceber.
Embora existam resistências naturais quando uma tecnologia altera os métodos de trabalho, o debate atual não Gira em torno de apakah a IA continuará presente na produção científica. A questão central tornou-se outra: como utilizá-la de forma ética e responsável.
A transformação menos evidente ocorre em uma camada paralela. Enquanto a inteligência artificial amplia a capacidade de gerar conhecimento, o blockchain começa a ser testado para organizar as relações que tornam essa produção possível. Isso abrange o financiamento das investigações, a remuneração de contribuições científicas e a gestão dos direitos sobre descobertas futuras.
Esse conjunto de experiências ficou conhecido como Ciência Descentralizada, ou DeSci. O termo pode gerar confusão, sugerindo universidades substituídas por comunidades virtuais ou decisões científicas tomadas por votação entre detentores de ativos digitais. Na prática, a proposta é mais concreta. A DeSci não busca substituir laboratórios, universidades, agências de fomento ou revistas acadêmicas. Seu objetivo é criar caminhos alternativos para problemas que essas instituições, apesar de indispensáveis, nem sempre conseguem resolver adequadamente.
Para compreender melhor, imagine uma equipe de pesquisadores que identificou uma hipótese promissora para tratar uma doença rara. Os cientistas são qualificados, os resultados preliminares fazem sentido e o potencial benefício para os pacientes é significativo. Mesmo assim, o projeto talvez nunca avance para os primeiros experimentos. O motivo é simples: como existem poucos pacientes e nenhuma certeza de que a hipótese resultará em um medicamento, o risco pode ser alto demais para empresas privadas.
Os pesquisadores ainda podem buscar editais públicos, universidades ou fundações, mas os recursos disponíveis são limitados e jamais cobrem todas as boas propostas. Nesse cenário, a pesquisa não fracassou por falta de conhecimento científico. Ela parou justamente por falta de financiamento, no momento em que a incerteza era maior.
Uma das propostas da DeSci permite que pesquisadores, pacientes, familiares e pessoas interessadas formem uma comunidade e financiem coletivamente as primeiras etapas do trabalho. Organizações descentralizadas já experimentam esse modelo em áreas como longevidade, saúde e doenças raras, incluindo a VitaDAO.
Isso significa entregar todo o dinheiro a um pesquisador e aguardar resultados? Não necessariamente. O financiamento pode acompanhar o progresso do projeto. Uma primeira parcela cobre a seleção das moléculas mais promissoras. Outra é liberada quando começam os testes laboratoriais. Uma terceira etapa recebe recursos apenas se os resultados anteriores justificarem continuidade.
Essas regras podem ser executadas por contratos inteligentes. O nome frequentemente causa confusão, mas o funcionamento é direto: trata-se de um programa que realiza automaticamente o que foi previamente combinado. Se determinada condição for cumprida e validada, o recurso é liberado; caso contrário, o pagamento permanece bloqueado. O contrato inteligente não avalia se uma molécula funciona, não julga a qualidade da pesquisa e não substitui cientistas, comitês de ética ou autoridades sanitárias. O blockchain serve para registrar as regras, movimentar os recursos e permitir que os participantes acompanhem o que foi decidido e como o dinheiro está sendo utilizado.
A descentralização, portanto, não está em substituir a ciência por votação popular. Ela está na possibilidade de ampliar quem pode participar do financiamento e do acompanhamento de um projeto, reduzindo a dependência exclusiva de um número limitado de empresas, agências ou instituições.
O dinheiro, contudo, representa apenas um dos desafios. Antes de um artigo científico ser publicado, ele costuma ser analisado por outros pesquisadores da mesma área. Esses especialistas verificam se a metodologia foi adequada, se os dados sustentam as conclusões e se existem erros a corrigir. Esse processo, denominado revisão por pares, é uma das bases da credibilidade científica.
Pouca gente fora das universidades sabe que esse trabalho geralmente não é remunerado. Um professor pode dedicar um fim de semana inteiro à análise do artigo de outro pesquisador sem receber nada, embora a editora responsável frequentemente cobre do autor para publicar, do leitor para acessar o texto ou de ambos.
Algumas iniciativas de DeSci começaram a testar uma lógica diferente. A ResearchHub, por exemplo, utiliza o ResearchCoin para recompensar revisões consideradas de qualidade. O pesquisador não recebe para aprovar um trabalho. Ele é pago para examiná-lo com rigor, ainda que conclua que o estudo apresenta falhas graves e não deveria ser publicado. O token, nesse caso, não representa uma fração de patente, uma ação ou uma promessa de retorno financeiro. Ele funciona como mecanismo de incentivo para uma contribuição especializada que beneficia toda a comunidade científica, mas que o modelo tradicional costume tratar como trabalho invisível.
Essa aplicação ajuda a compreender algo que nem sempre fica claro no debate sobre tokenização. Um token não precisa representar apenas a propriedade de um ativo. Ele também pode ser usado para organizar incentivos. Se uma comunidade precisa que especialistas revisem artigos, reproduzam experimentos, classifiquem dados ou resolvam problemas técnicos, pode estabelecer recompensas para quem realizar essas tarefas com qualidade.
Suponha agora que a pesquisa sobre a doença rara finalmente tenha produzido uma molécula promissora. Depois de anos de trabalho, surge a possibilidade de transformá-la em um medicamento. A partir desse momento, o desafio deixa de ser apenas científico e passa a ser também econômico e jurídico. Quem administrará os direitos sobre essa descoberta? A universidade onde os experimentos foram realizados? Os pesquisadores que desenvolveram a molécula? A empresa que decidiu investir depois dos primeiros resultados? E a comunidade que assumiu o risco inicial, quando ainda não havia garantia de que a pesquisa produziria algo?
A resposta dependerá dos contratos firmados e da legislação aplicável. O problema é que essas relações se tornam cada vez mais complexas quando a pesquisa envolve várias instituições e financiadores de diferentes países.
É nessa etapa que surge a tokenização da propriedade intelectual. Plataformas como a Molecule desenvolvem estruturas que associam registros em blockchain aos contratos relativos aos direitos sobre uma pesquisa. Alguns desses instrumentos são conhecidos como IP-NFTs, mas o nome pode mais confundir do que ajudar. A molécula não é transformada em uma imagem digital, a patente não deixa de existir e o blockchain não cria direitos por conta própria.
Uma analogia com o mercado imobiliário torna o mecanismo mais claro. Quando determinados direitos sobre um imóvel são tokenizados, o prédio não entra no blockchain. Ele continua no mesmo lugar, sujeito às mesmas leis e aos mesmos registros. O que passa a ser representado digitalmente são relações jurídicas e econômicas vinculadas a esse bem.
Na ciência ocorre algo semelhante. A descoberta permanece no laboratório, a patente continua dependendo dos órgãos competentes e os contratos continuam sujeitos ao Direito. O blockchain acrescenta uma camada digital para registrar quem controla os direitos, em quais condições uma licença poderá ser concedida e como eventuais receitas serão distribuídas.
Isso significa que qualquer pessoa que ajude a financiar a pesquisa se torna automaticamente dona de uma parte da patente? Não. Tudo depende daquilo que foi efetivamente previsto nos contratos e associado ao token. Ele pode conceder apenas participação em determinadas decisões, acesso a informações ou, em estruturas juridicamente adequadas, algum direito econômico. Comprar um token sem compreender essas diferenças seria tão arriscado quanto adquirir qualquer outro ativo sem saber exatamente o que ele representa.
Financiamento, revisão científica e propriedade intelectual parecem problemas distintos, mas possuem algo em comum: todos exigem a coordenação de pessoas, recursos e regras dentro de redes cada vez maiores. É justamente nessa função que o blockchain pode acrescentar uma nova camada à infraestrutura da ciência. Ele não formula hipóteses, não realiza experimentos e não determina se uma conclusão é verdadeira. Sua contribuição está em permitir que uma comunidade financie um projeto, que um trabalho científico relevante seja reconhecido e que os direitos sobre uma descoberta sejam administrados de maneira mais transparente.
Naturalmente, nem toda pesquisa precisa de blockchain e nem todo projeto apresentado como DeSci merece confiança. Em muitas situações, uma universidade, uma fundação, um contrato convencional ou um banco de dados tradicional continuarão sendo soluções melhores. Também haverá iniciativas que combinarão palavras como inteligência artificial, biotecnologia, longevidade e tokenização apenas para criar uma narrativa atraente.
Por isso, a primeira pergunta diante de qualquer projeto de Ciência Descentralizada não deve ser quanto seu token poderá valer. O ponto de partida precisa ser muito mais básico: qual problema concreto ele resolve? A tecnologia viabiliza uma pesquisa que dificilmente encontraria recursos? Remunera uma contribuição científica relevante? Melhora a transparência sobre as decisões e os gastos? Organiza direitos que seriam difíceis de administrar entre muitos participantes?
Quando não há uma resposta clara, provavelmente o blockchain foi incluído apenas como argumento de marketing. Quando existe uma resposta convincente, ocorre uma inversão importante em relação a muitos projetos dos ciclos anteriores do mercado de criptomoedas. Em vez de criar primeiro um token e depois procurar alguma utilidade para ele, a DeSci começa pelo problema e somente utiliza o blockchain quando essa infraestrutura oferece uma solução adequada.
O DeSci.Berlin demonstrou que essas experiências já começaram a sair do campo das ideias. Plataformas, comunidades e pesquisadores testam maneiras de levar uma hipótese até o financiamento, reconhecer contribuições e organizar os direitos caso o trabalho resulte em uma inovação. Ainda é cedo para saber quais modelos funcionarão, e muitos certamente fracassarão, como acontece em qualquer área experimental.
A questão central, contudo, já pode ser formulada com maior clareza. Durante décadas, universidades, agências de fomento, editoras e empresas construíram a infraestrutura institucional da ciência. Nada indica que deixarão de ser essenciais. O blockchain pode acrescentar uma nova camada a esse sistema, permitindo que mais pessoas participem do financiamento, que trabalhos hoje invisíveis sejam reconhecidos e que descobertas produzidas por redes complexas sejam administradas de forma mais transparente.
Durante anos, perguntamos como o blockchain poderia transformar o dinheiro. A Ciência Descentralizada propõe uma pergunta diferente e talvez mais ambiciosa: como essa tecnologia pode ajudar a organizar a produção do conhecimento? A resposta ainda está sendo construída. Mas, se a DeSci cumprir parte do que promete, o resultado mais importante não será um novo token ou uma nova forma de especulação. Será uma pesquisa que encontrou recursos quando ninguém mais quis financiá-la, uma contribuição científica que deixou de ser invisível ou uma descoberta que conseguiu chegar à sociedade porque as pessoas, os incentivos e os direitos necessários para desenvolvê-la foram organizados desde o início.
Fonte: Livecoins
