Início Economia Tarifas não devolveram empregos industriais aos Estados Unidos, avalia CEO de plataforma de logística global
Economia

Tarifas não devolveram empregos industriais aos Estados Unidos, avalia CEO de plataforma de logística global

Share
A stylized illustration of Altana CEO Evan Smith — Fonte: The Verge
Share

Quase um ano e meio depois do chamado Dia da Libertação, quando o governo norte-americano anunciou uma onda agressiva de tarifas, a promessa de repatriação da manufatura continua distante da realidade. Em entrevista ao podcast Decoder, Evan Smith, cofundador e presidente executivo da Altana, empresa que desenvolveu uma plataforma para gerenciar redes complexas de cadeias de suprimento, foi direto ao ser questionado sobre o tema: as tarifas não trouxeram de volta os postos de trabalho industriais.

A Altana conecta órgãos públicos e privados em uma espécie de mapa compartilhado do comércio mundial, atendendo oito das dez maiores operadoras de logística do planeta, além de agências governamentais e grandes corporações. Segundo Smith, os dados coletados pela plataforma revelam um padrão claro: desde a imposição das tarifas, as exportações chinesas para os Estados Unidos diminuíram proporcionalmente, mas os produtos não deixaram de chegar ao consumidor norte-americano. Em vez disso, foram redirecionados por países terceiros, como Vietnã, México, Canadá e Malásia, às vezes passando por transformações mínimas antes de seguir rumo ao mesmo destino final, só que a um custo maior.

Esse movimento explica em parte a pressão pela renegociação do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), que passou a incorporar a rastreabilidade de cadeias produtivas como peça central. Smith contou que o Índice de Gerentes de Compras (PMI), indicador da produção industrial nos Estados Unidos, chegou a cair após a aplicação das tarifas, refletindo o impacto inicial sobre fabricantes locais que dependiam de insumos importados. Só nos últimos cinco ou seis meses o indicador voltou a ficar acima do nível neutro, ainda assim sem a criação líquida de empregos. A razão, segundo o executivo, é a automação industrial: as fábricas que eventualmente voltam a operar no país serão altamente robotizadas, distantes das linhas de montagem do início do século XX.

A Altana acaba de anunciar a aquisição da Cervo, plataforma de inteligência artificial voltada à intermediação aduaneira. Para Smith, a compra responde a um problema criado pelas próprias barreiras comerciais: quanto mais muros alfandegários, mais burocracia, e mais necessidade de softwares capazes de preencher formulários e interpretar documentos em diferentes idiomas e formatos. Agentes de IA já conversam com sistemas de IA em ambos os lados das fronteiras, automatizando declarações e procedimentos que antes consumiam equipes inteiras de despachantes. A empresa também aposta nos chamados Passaportes de Produto, espécie de biblioteca de mercadorias previamente analisadas e certificadas, que permitiriam às alfândegas confiar em mercadorias já auditadas em vez de fiscalizar cada remessa como se fosse a primeira vez vista.

No campo geopolítico, Smith lembrou que aproximadamente 90% dos componentes relevantes para sistemas autônomos, como drones, ainda têm origem na China. Para mudar esse cenário, o governo dos Estados Unidos combinou restrições de importação da Comissão Federal de Comunicações (FCC) com a criação de demanda via programa Dominância de Drones, do Departamento de Defesa, que injeta bilhões de dólares em fabricantes nacionais e aliados. O mesmo vale para minerais críticos e terras raras, setores onde Pequim tem usado licenças de exportação como arma assimétrica.

Sobre as novas tarifas canadenses anunciadas recentemente sob a Seção 338, que autoriza o presidente a retaliar parceiros que discriminem produtos norte-americanos, Smith avaliou que a medida tem fundamento jurídico nas queixas contra Ottawa em setores como automóveis, laticínios e bebidas alcoólicas. A questão, porém, será a proporcionalidade das respostas. Enquanto isso, mexicanos e norte-americanos avançam em regras de rastreabilidade para o novo USMCA, enquanto os canadenses ainda resistem a sentar à mesa.

Smith também comentou o conflito no Estreito de Ormuz, onde o Irã teria bloqueado parte do tráfego marítimo em retaliação a ataques norte-americanos. Para ele, a lição é que pontos de estrangulamento econômico podem e vão ser transformados em armas físicas. A Altana permite observar em tempo real como a interrupção no fornecimento de hélio do Golfo, por exemplo, se propaga pelas cadeias de semicondutores, algo impossível de detectar apenas pelos noticiários. O executivo acredita que simular cenários e desenhar redes mais resilientes é o melhor caminho para reduzir o risco de guerras abertas, mesmo reconhecendo que o mundo caminha para um ambiente de maior fricção.

A empresa encerra a conversa defendendo um modelo de dados federado, no qual as informações permanecem sob o controle de cada cliente, dentro de suas estruturas e firewalls, mas contribuem para uma visão coletiva da rede logística global. Projetos como o Global Supply Chains Intelligence Program, do Reino Unido, e iniciativas com agências norte-americanas, australianas e neerlandesas já operam sob essa lógica, mostrando que é possível equilibrar soberania de dados com cooperação internacional em meio a um cenário geopolítico cada vez mais fragmentado.

Fonte: The Verge

Share
Artigos relacionados
Economia

Fundo de venture capital investe em clube de futebol dos Estados Unidos em movimento estratégico

O Collaborative Fund, firma de investimentos em empresas emergentes com sede em...

Economia

Empresária francesa emerge como referência no setor espacial europeu em momento crucial para o continente

A empreendedora francesa Hèlene Huby tem ganhado destaque repentino no cenário espacial...

Economia

Home Depot oferece descontos de até 69% em ferramentas sem fio Ryobi durante promoção do Dia do Trabalho

Para quem já enfrentou a frustração de fazer três viagens consecutivas à...

Economia

Dez Relógios que Agitaram o Mundo da Relojoaria Esta Semana

Enquanto o evento Watches and Wonders de abril continua sendo o grande...