Em meio ao avanço das temperaturas e à transformação nos regimes de chuvas, a rizicultura asiática — uma das atividades agrícolas mais dependentes de recursos hídricos — enfrenta pressão crescente. Para responder a esse desafio, a Mitti Labs, startup de tecnologia climática com sede em Nova York e Bengaluru, anunciou a captação de 9,5 milhões de dólares em uma rodada Série A liderada pela Aramco Ventures, o braço de investimentos da petrolífera saudita Aramco.
Além da Aramco Ventures, participaram do aporte investidores como Lightspeed India, Godrej Industries Group, Cisco, Francis Family Fund e Volta Circle. Com a nova rodada, o total arrecadado pela empresa chega a 12,5 milhões de dólares, somados aos 3 milhões obtidos em uma rodada inicial concluída em julho de 2024.
O arroz, alimento básico para mais da metade da população mundial, está entre as culturas que mais consomem água. Além disso, os alagamentos contínuos das plantações são responsáveis por uma parcela significativa das emissões de metano ligadas à agropecuária. Desde o início de suas operações, em 2023, a Mitti Labs busca enfrentar esse duplo problema com uma plataforma que combina imagens de radar captadas por satélites com dados coletados diretamente em campo ao longo de anos.
Segundo a empresa, a tecnologia permite criar gêmeos digitais de cada plantação, possibilitando o monitoramento do desenvolvimento das lavouras, do consumo de água e da emissão de metano em milhares de pequenas propriedades, cuja área média gira em torno de um hectare. O sistema GeoAI utiliza imagens de radar de abertura sintética, com resoluções que variam de 50 centímetros a 10 metros, além de medições de campo acumuladas pelas equipes da startup.
Para o cofundador Xavier Laguarta, o grande diferencial da companhia não está apenas nas imagens de satélite, mas nos bancos de dados proprietários que alimentam os modelos de inteligência artificial. Essas informações possibilitam acompanhar o crescimento das plantas, a umidade do solo e os níveis de inundação de forma remota.
O crescimento operacional tem sido expressivo. No primeiro ano de atuação, em 2024, a empresa atendia cerca de 8 mil agricultores. Na temporada atual, esse número saltou para mais de 100 mil produtores espalhados por diversos estados indianos, com a meta de chegar a milhões até 2030. A Mitti Labs também ultrapassou a marca de 150 colaboradores, a maioria deles na Índia, onde as equipes de campo trabalham diretamente com produtores e organizações locais para promover práticas de irrigação alternativas.
Entre os resultados alcançados, a empresa afirma que os agricultores parceiros conseguiram reduzir o uso de água em aproximadamente 40% e as emissões de metano em mais de 50%, sem comprometer a produtividade. Além disso, essas práticas geram créditos de carbono, que funcionam como fonte complementar de renda. A receita da startup vem justamente da comercialização desses créditos e da plataforma GeoAI.
A carteira de clientes inclui o marketplace de carbono Cool Effect, que atende empresas como Google e American Airlines, além da produtora de arroz Ebro Foods e da gigante do agronegócio Syngenta, que utilizam os dados e as análises da Mitti Labs para aumentar a resiliência hídrica em suas cadeias de suprimento.
Esse histórico favorável atraiu a Aramco Ventures, e o investimento marca a primeira aposta do fundo em uma startup indiana. Segundo Laguarta, o braço de inovação da petrolífera saudita se interessou pelo foco da Mitti Labs na redução de metano, no combate ao desperdício de água e na aplicação de inteligência artificial na agricultura de países emergentes. A parceria também pode abrir portas para a atuação em mercados de carbono e, futuramente, para uma relação direta com a própria Aramco.
Com o novo capital, a Mitti Labs pretende iniciar operações nas Filipinas ainda neste ano e, em 2027, expandir para a Indonésia e outros mercados do Sudeste Asiático. O movimento permitirá à empresa atender também mercados regulados de carbono, além do mercado voluntário onde atua atualmente, adaptando seu modelo às particularidades dos diferentes sistemas agrícolas da região.
"Somos, em essência, uma empresa de dados", afirmou Laguarta. "Quando você faz essas expansões, está gerando e coletando informações de ecossistemas muito distintos."
Fonte: TechCrunch
