Fundada em 2019 na vila de El Zonte, na costa salvadorenha, a Bitcoin Beach nasceu como um projeto comunitário que visava popularizar o uso do Bitcoin entre moradores e turistas. O local tornou‑se um símbolo da ambição do governo salvadorenho, que em 2021 transformou a criptomoeda em moeda de curso legal em todo o país.
Durante uma visita recente, o desenvolvedor do Bitcoin Core Jon Atack decidiu pagar seu almoço com Bitcoin e acabou se deparando com uma realidade inesperada: o pagamento que efetuou foi o primeiro realizado naquela plataforma no último mês. A atendente do restaurante revelou que, há três anos, já era comum receber gorjetas em sats, mas agora os clientes sequer pedem para usar a moeda digital.
Questionado sobre a possibilidade de deixar uma gorjeta em sats, a funcionária respondeu que havia esquecido como abrir o aplicativo de Bitcoin e que, na verdade, não tinha interesse em receber: "Está morto." A resposta, segundo Atack, ilustra o quanto o uso da criptomoeda para transações cotidianas despencou na região.
O desenvolvedor também constatou que os cartões de plástico já superam o dinheiro físico em popularidade entre os pagamentos da comunidade. Em sua narrativa, ele lembrou que, mesmo oferecendo Bitcoin, a simplicidade do cartão faz com que muitos optem por dinheiro fiduciário antes de movimentar suas reservas digitais.
Esse comportamento se encaixa na Lei de Gresham, que explica por que as pessoas tendem a gastar a moeda menos valiosa — neste caso o dólar — e guardar a mais valiosa, o Bitcoin. Atack lembrou que a maioria dos usuários prefere manter a criptomoeda como reserva e só gastar quando não há outra alternativa.
Apesar do recuo na aceitação local, o governo salvadorenho mantém sua estratégia de aquisição diária de Bitcoin, comprando uma unidade por dia. Até o momento, o país acumula 7.753 bitcoins, equivalentes a cerca de 613 milhões de dólares ou 3,15 bilhões de reais.
Em comentários nas redes sociais, Atack pediu que outros usuários instruam os comerciantes da Bitcoin Beach e realizem pagamentos regulares com a criptomoeda para manter viva a cultura de uso. Ele sendiri compartilhou que, ao ajudar a iniciar o aceitação no Biblioteca Café, esperava que a prática se espalhasse, mas hoje se sente como o único a ainda utilizar Bitcoin para transações cotidianas.
Críticos como o Nobel de Literatura Paul Krugman apontam que a baixa aceitação evidencia o fracasso da experiência salvadorenha com o Bitcoin. Enquanto isso, a Bitcoin Beach e a Bitcoin City, que deveriam ser vitrines da tecnologia, enfrentam um ritmo de desenvolvimento abaixo das expectativas, renovando os debates sobre a viabilidade de uma moeda digital como meio de pagamento mainstream.
Fonte: Livecoins

