O regulador de energia do Reino Unido está lutando contra um congestionamento sem precedentes na fila de conexão à rede elétrica, causado por dezenas de projetos de centros de dados que provavelmente nunca sairão do papel. A situação ameaça comprometer as ambições do país no campo da inteligência artificial.
Em julho, a Ofgem apresentou uma proposta destinada a eliminar esses chamados projetos fantasma da fila sobrecarregada. O plano, que deve ser finalizado após um período de feedbacks da indústria encerrado em setembro, exige que os desenvolvedores depositem valores substanciais e não reembolsáveis, podendo chegar a centenas de milhões de dólares para os maiores empreendimentos. Além disso, será necessário demonstrar clientes já contratados e provar capacidade financeira para concluir as obras.
A entidade reguladora enfrenta um dilema delicado: as reformas precisam ser rigorosas o suficiente para desencorajar especuladores, mas não a ponto de afastar projetos legítimos para outros mercados, enfraquecendo os objetivos britânicos de atender à demanda crescente por capacidade computacional para modelos de inteligência artificial sofisticados.
A fila para conexão à rede britânica começou a crescer exponencialmente no final de 2024, quando o governo classificou os centros de dados como infraestrutura nacional crítica. Entre novembro de 2024 e junho de 2025, a demanda total de energia dos projetos na fila saltou de 41 gigawatts para impressionantes 125 gigawatts, segundo dados da Ofgem. Os novos centros de dados representam 73 gigawatts desse total, o equivalente a uma vez e meia a demanda máxima de pico de todo o Reino Unido no ano passado.
O governo acredita que grande parte dessa demanda é uma ilusão. "É absolutamente insano", declarou Taco Engelaar, diretor administrativo da empresa de otimização de redes Neara. "Ninguém realmente compreende qual será a demanda real da rede por causa desses projetos fantasmas."
O problema resulta de um sistema de incentivos inadequado. Como os desenvolvedores enfrentam anos de espera para obter acesso à rede, e anteriormente custava apenas alguns milhares de dólares entrar na fila, muitos solicitavam energia mesmo sem planos concretos de desenvolvimento. Trata-se de uma aposta sem riscos que permite aos desenvolvedores se protegerem para um futuro em que a demanda por computação permaneça elevadas.
A congestionamento também atrai intermediários que solicitam energia com o objetivo de revender terrenos com acesso à rede para empresas de centros de dados, a preços inflatedos. "É como a revenda de ingressos para shows", comparou Olivier Darmouni, professor associado de finanças da escola de negócios HEC Paris, que pesquisa o impacto da inteligência artificial nas redes elétricas.
Eliminar os projetos fantasma deve facilitar o planejamento de melhorias e ampliações da rede, evitando desperdício de recursos em partes do sistema que não necessitam realmente de capacidade adicional. "Se tivermos uma fila precisa e soubermos exatamente qual será a demanda, onde será construída, isso ajudará a direcionar investimentos mais focados em termos de modernização e construção da rede", explicou Engelaar.
No entanto, há preocupações de que as reformas possam ter efeitos colaterais indesejados. Os novos valores podem tornar o mercado britânico menos atrativo para desenvolvedores, que já preferem os Estados Unidos e outras regiões da Europa com energia abundante e renovável. "É um equilíbrio extremamente difícil", alertou Daniel Newton, sócio do escritório de advocacia Slaughter and May especializado em infraestrutura digital.
Os planos também podem afastar todas as empresas, exceto as maiores, do mercado britânico, prejudicando uma nova geração de operadores de centros de dados menores e especializados em inteligência artificial, que podem hesitar em arcar com as taxas. Algumas dessas empresas emergentes, como a Nscale, já haviam prometido investir bilhões no Reino Unido.
Embora as reformas possam não melhorar as perspectivas imediatas do país na onda de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, especialistas apontam que limpar a fila de projetos fantasmas dará ao Reino Unido melhores chances a longo prazo de conquistar uma fatia dos centenas de bilhões de dólares que fluem para o setor.
"Trata-se de moldar os próximos cinco anos para garantir que os centros de dados sejam construídos no lugar certo, no tamanho certo, com o suprimento de energia adequado", afirmou Darmouni. "Não será um acelerador que você aperta e o carro acelera imediatamente."
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