O panorama financeiro global atravessa um momento de transformação profunda, impulsionado pela digitalização de ativos, moedas virtuais e sistemas de inteligência artificial autônoma. No Brasil, apesar de os gestores do setor bancário compreenderem o peso estratégico dessas inovações, a passagem da teoria para a prática ainda avança em ritmo lento.
Uma investigação conduzida pelo IBM Institute for Business Value demonstrou que quase um quarto dos executivos financeiros no país considera a tokenização um eixo central de seus planos de longo prazo. Contudo, apenas uma pequena fração declarou ter projetos efetivamente em funcionamento ou preparados para entrar em operação no próximo ano. O índice brasileiro de 8% fica próximo à média mundial, que atinge 9%, revelando um cenário de hesitância generalizada.
A pesquisa, batizada como "Perspectivas Globais para o Sistema Bancário e Mercados Financeiros 2026", ouviu meio milhar de gestores seniores de bancos e empresas de pagamentos espalhados por mais de 25 nações. O trabalho buscou mapear como as instituições financeiras ao redor do mundo se posicionam diante da revolução dos ativos digitais.
A principal pedra no caminho da expansão dos ativos digitais no Brasil, citada por 65% dos participantes locais, é a ausência de padrões que permitam a comunicação entre diferentes plataformas e sistemas. Esse obstáculo supera o índice internacional de 59% e configura o desafio mais mencionado pelos profissionais ouvidos no país.
Os executivos brasileiros também destacaram a relação estreita entre inteligência artificial e tokenização. Para 58% deles, a digitalização de ativos terá papel determinante na viabilização da interoperabilidade entre distintos ambientes de inteligência artificial. Além disso, 46% apostam que sistemas de inteligência artificial autônoma vão provocar alterações significativas nos mecanismos programáveis de liquidação de transações.
No tocante ao dinheiro do amanhã, 38% dos entrevistados no Brasil acreditam que as moedas digitais emitidas por bancos centrais podem vir a substituir os esquemas convencionais de cartões. O percentual levemente supera a média global de 35%. Por outro lado, 58% dos participantes brasileiros projetam adoção expressiva ou transformadora de stablecoins por grandes empresas até 2030, número muito acima dos 42% mundiais, o que ameaça reduzir as bases de depósitos e as receitas de tarifas cobradas pelas instituições tradicionais.
A questão da segurança também gera inquietação. No Brasil, 92% dos executivos reconhecem que mecanismos de criptografia resistentes a ataques de computação quântica serão indispensáveis para garantir a confiabilidade e a expansão dos ecossistemas baseados em tokens, índice ligeiramente acima dos 89% registrados globalmente.
A modernização dos sistemas legados permanece como o grande entrave. Em escala planetária, os gestores apontam a inadequação das plataformas centrais de processamento como o principal obstáculo às iniciativas de tokenização. Dados anteriores da própria IBM indicaram que 94% dos projetos de atualização dessas estruturas não conseguem cumprir os cronogramas originais, vítimas da complexidade técnica e de custos não previstos.
Para os especialistas, o setor financeiro chega a uma encruzilhada decisive. Instituições que conseguirem atualizar suas infraestruturas, incorporar inteligência artificial de forma inteligente e abraçar a tokenização estarão mais bem posicionadas para conduzir a próxima geração de serviços financeiros. Já aquelas que continuarem adiando essas decisões permanecerão em desvantagem, competindo em um mercado que já se transformou.
O estudo foi elaborado pelo IBM Institute for Business Value em parceria com a Oxford Economics, durante o quarto trimestre de 2025. A amostra contou com a participação de 43 executivos da América Latina, dos quais 26 representando o Brasil. Os profissionais ocupavam posições estratégicas em áreas que moldam o porvir dos serviços financeiros. A distribuição manteve equilíbrio entre cinco grandes segmentos: banco de varejo, banco comercial, banco corporativo, gestão de ativos e patrimônio, além de redes e processadoras de pagamentos. Os rankings foram analisados por meio do modelo estatístico Plackett-Luce, assegurando resultados robustos e significativos para quem toma decisões.
Fonte: Livecoins

