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A empresa que oferece congelamento gratuito de óvulos em troca de metade da coleta desperta preocupações no setor de fertilidade

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Uma startup norte-americana chamada Cofertility está revolucionando o mercado de preservação de fertilidade com uma proposta inusitada: mulheres podem congelar seus óvulos sem custos, desde que doem metade dos gametas coletados para casais que buscam um doador. O modelo de "compartilhamento de ovos" começou a ganhar força nos Estados Unidos em 2022, quando a empresa sediada em Los Angeles lançou sua chamada "ecossistema de fertilidade centrado no ser humano", atraindo milhares de jovens interessadas em preservar sua fertilidade sem arcar com os tradicionais 18 mil dólares cobrados em clínicas de Nova York.

A história de Yuchen Tu, uma musicista de 24 anos naturais de Chongqing, na China, ilustra tanto o fascínio quanto as armadilhas desse sistema. Após passar em um teste rápido de qualificação, Sue – como prefere ser chamada – assinou contrato com a empresa em julho de 2025. No primeiro procedimento de coleta, realizado em setembro, foram extraídos 26 óvulos maduros, todos comercializados pela plataforma. Em troca, ela recebeu "uma flor muito, muito, muito barata", segundo suas próprias palavras, acompanhada de um bilhete de agradecimento. O segundo ciclo, realizado em novembro do mesmo ano, rendeu mais 27 óvulos.

A promessa de "empoderamento" da Cofertility contrasta com preocupações levantadas por especialistas em fertilidade. A médica Eve Feinberg, especialista em endocrinologia reprodutiva da Universidade Northwestern, aponta que o modelo comercializa a ideia de que mulheres jovens precisam congelar óvulos como parte de uma "missão biohacker" para garantir opções futuras. Dados internos da empresa indicam que três em cada cinco mulheres da Geração Z expressam preocupação com sua fertilidade, embora os membros mais velhos dessa geração mal tenham completado 30 anos.

Os riscos médicos do procedimento também merecem atenção. A síndrome de hiperestimulação ovariana, condição em que o corpo reage excessivamente aos hormônios aplicados, ocorre em cerca de 10,5 por cento dos casos, segundo estudos publicados na revista Fertilità e Esterilità. Embora casos graves representem entre 0,1 e 2 por cento dos ciclos, jovens pacientes com níveis hormonais elevados estão mais suscetíveis. Sue relata ter experimentado sintomas compatíveis com a forma branda da síndrome após seu segundo ciclo.

Além das questões médicas, dúvidas sobre transparência no processo preocupam especialistas em bioética. Pesquisadora da Universidade da Pensilvânia destaca que, embora a empresa evite pagamento em dinheiro – classificando-o como "pouco agradável" –, o serviço continua sendo uma forma de compensação disfarçada. Enquanto isso, a plataforma comercializa perfis detalhados de doadoras, incluindo ancestralidade, histórico médico familiar e até realizações profissionais, numa dinâmica comparada a um aplicativo de namoro.

Yang, um "pai intencional" cadastrado na plataforma, teve acesso a perfis organizados por características físicas, histórico educacional e até detalhes como cirurgias plásticas ou condições de saúde de familiares. A empresa cobra entre 28 mil e 83,7 mil dólares pelos lotes de óvulos congelados, sem que qualquer valor vá para a doadora. A fundadora Lauren Makler justifica o modelo como alternativa mais ética aos tradicionais pagamentos milionários oferecidos a doadoras "elite", prática que ela mesma denominou "preço dinâmico para óvulos".

Tu terminou sua relação com a Cofertility após criar uma conta falsa de "pai intencional" para investigar como sua própria imagem era comercializada. Descobriu que era apresentada como "uma musicista profissional com formação internacional" e decididamente enviou um dossiê de 75 páginas ao escritório do Inspetor Geral do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, manifestando preocupações sobre possíveis riscos à segurança nacional. A empresa nega irregularidades e afirma que não revende óvulos, destinando-os apenas aos pais intencionais com quem cada doadora é pareada.

O modelo de negócio da Cofertility coloca em xeque múltiplos interesses: casais que assumem riscos financeiros elevados, crianças que podem nascer desses materiais genéticos e terão meios-irmãos espalhados pelo mundo, e as próprias doadoras, que funcionam como dois clientes distintos num mesmo corpo. Enquanto isso, a empresa segue crescendo, com 16 milhões de dólares em financiamento captados após uma rodada de investimento anunciada recentemente. Sue segue com sua vida, seus óvulos guardados num depósito no centro de Manhattan, mas sem garantia de que não serão utilizados no futuro. A conta, no entanto, já foi paga: 81,1 mil dólares pelos serviços prestados.

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